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minhas notas

O ateísmo volta à carga

30.04.09 | minhasnotas

Está a decorrer em alguns países europeus, e parece que em breve chegará a Portugal, uma campanha publicitária ateísta curiosa, mas ao mesmo tempo intrigante. Foi lançada o ano passado pela Associação Humanista Britânica, que colocou cartazes em trinta autocarros de Londres. O slogan lacrado nos autocarros, inspirado no cientista ateu Richard Dawkins e criado pela jornalista Ariane Sherine, diz o seguinte: «Deus provavelmente não existe. Deixe de se preocupar e goze a vida». A mesma campanha está a chegar a outras grandes cidades europeias, como Barcelona, Madrid, já chegou inclusive a Washington, capital americana, e até já foi adoptada nalgumas cidades australianas, embora os slogans sejam diferentes: em Washington é «Para quê acreditar num Deus? Seja bom por amor da bondade», e na Austrália é «Ateísmo – fique a dormir no Domingo de manhã». As organizações ateístas são livres de expressar as suas “crenças”. Mas já se percebeu que todas estas campanhas têm na sua base um ateísmo cool, que não se reveste da mesma ferocidade e agressividade do ateísmo militante de outros tempos. Basta tomar atenção ao “provavelmente”. É um ateísmo de forte pendor comodista. Não se trata de negar a existência de Deus, mas de O afastar da vida, eliminando toda e qualquer influência que possa exercer sobre o homem moderno, que quer viver ao sabor da sua vontade e do seu comodismo, que quer ter todo o tempo do mundo para desfrutar o que muito bem lhe apetece. Os slogans não podem deixar de levantar muitas perguntas, mas concentro-as numa: é necessário prescindir de Deus para se gozar a vida? Mais uma vez está em causa a imagem que se faz de Deus. Em vez de se ver Deus, e aquilo que Ele propõe, como Alguém que dá transcendência e densidade à vida, Alguém que possibilita viver a vida na sua verdade e profundidade, logo verdadeiramente feliz, pelo contrário, Deus é visto como um inimigo da vida e da felicidade, que parece que tem gosto em complicar a vida ao homem e em sobrecarregá-lo com regras e pesos que vão contra o seu maior bem e realização. Nada mais inverosímil. Pergunto: Deus não deixa gozar a vida. Ou será que sem Deus a vida não é um gozo? Seria bom que muitos destes ateus confessos (alguns até serão baptizados) lessem com serenidade a parábola do Filho Pródigo, que se encontra nos Evangelhos, no Novo Testamento, que é considerada um resumo da obra de Jesus Cristo e do seu Evangelho. À imagem do filho mais novo que abandonou a casa paterna, uma das ilusões modernas, que mais tarde ou mais cedo é fonte de grande sofrimento para o homem, é de que só será feliz quando viver livre de tudo e de todos, sem qualquer amarra, quando puder mandar sozinho no seu destino e só por si decidir o que é bom e o que é mau para si, como se se bastasse a si mesmo. É a tentação do homem moderno. A parábola descreve magistralmente a degradação e o desnorte a que o homem chega, fazendo esta opção, esquecendo a sua dependência e fragilidade. Após tomar consciência da baixeza e infelicidade a que chegou a sua vida, o filho empreende o regresso à casa paterna. Afinal, em casa do pai era verdadeiramente feliz. Quando era obediente, era livre. Quando amava, humanizava-se. Quando fazia comunhão com os outros, era digno e respeitado. E como é que o pai o recebeu? Abraça-o, recupera-lhe a dignidade e organiza uma festa. Repito: organiza uma festa. Onde é que está o Deus que é hostil à alegria de viver? O perigo desta campanha ateia, que se está a organizar em várias grandes cidades mundiais, não é o de pôr em causa a crença em Deus ou lançar a confusão nas mentes mais incautas e sensíveis, que até poderá acontecer: é o de vender um ideal que empobrece e degrada o homem, transmitindo a ideia de que a felicidade está no prazer, sob todas as suas formas, na irresponsabilidade, no descompromisso, na libertinagem, na facilidade, no fugir ao esforço e ao sacrifício, no satisfazer de todo o tipo de apetites, sem qualquer exigência moral e ética. Não tenho dúvidas de que é o pior caminho que podemos escolher para nos realizarmos como pessoas humanas.