Quinta-feira, 09.02.17

A Igreja Católica passou a ter mais uma santa oficial: Santa Teresa de Calcutá. Mais uma intercessora e um exemplo do Evangelho que é apresentado à devoção do povo de Deus. Costuma-se dizer que as palavras convencem, mas os testemunhos arrastam. Tem muito mais força um bom exemplo de vida do que rebuscada e espaventosa oratória, que se fica muito pelas boas intenções. Mesmo o nosso povo gosta de dizer que é preciso dar os bons conselhos. Sem dúvida, mas quem os dá que os testemunhe com a sua vida. Coloquemos os olhos e o coração no testemunho de S. Teresa de Calcutá. Também disse muitas coisas interessantes, mas fala sobretudo pela sua prática e pela sua vida.
De etnia albanesa, nasceu na Macedónia, numa família católica. Depois de uma breve passagem pela Irlanda, mudou-se para a India. Por lá ficou o resto da sua vida, sendo primeiro professora, passando depois a viver nas zonas mais pobres da cidade de Calcutá, tocada por um apelo veemente de Deus a cuidar daqueles que não importavam nem interessavam a ninguém: os miseráveis, os abandonados, os doentes e deserdados. Construiu hospitais, casas de repouso, cozinhas, escolas, colónias de leprosos e orfanatos para todos estes necessitados. Morreu no dia 5 de setembro de 1997, com 87 anos. É considerada a grande missionária do século XX. Foi beatificada em 19 de outubro de 2003, porque, nas palavras do Papa João Paulo II, foi um «Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres». Em pleno pontificado do Papa Francisco, recebeu a canonização no dia 4 de setembro de 2016. O Papa destacou que «Madre Teresa, ao longo de toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. Comprometeu-se na defesa da vida, proclamando incessantemente que «quem ainda não nasceu é o mais fraco, o menor, o mais miserável». Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes ― diante dos crimes! ― da pobreza criada por eles mesmos». Ficou conhecida como a «santa das sarjetas» e também como «a serva ou santa dos pobres». Em 1950, fundou a congregação religiosa das Missionárias da Caridade, espalhada já por muitos países. No dia 17 de outubro de 1979 recebeu o prémio nobel da paz.
A pobreza continua a ser fonte de muitos santos e santas. Esta e outras canonizações da Igreja Católica não podem deixar de nos sobressaltar e de despertar em nós o desassossego, porque põem a nu a nossa incoerência, praticamos muito pouco os belos discursos que fazemos sobre os pobres e a pobreza, persistindo a indolência, o egoísmo, a indiferença e a resignação, e não podemos deixar de constatar que fazemos muito pouco para atacar as causas que ainda continuam a empurrar muitas pessoas para a valeta da vida, sendo condenadas a viver uma vida sem o mínimo de dignidade.
Concluo com dois episódios da sua vida. Conta o Cardeal Ângelo Comastri: «A Madre Teresa olhou-me com dois olhos límpidos e penetrantes. E, logo de seguida, perguntou-me: ‘Quantas horas reza por dia?’. Eu fiquei surpreendido com essa pergunta e tentei defender-me dizendo: ‘Madre, da senhora eu esperava um chamamento à caridade, um convite a amar mais os pobres. Por que me pergunta quantas horas eu rezo?’. A Madre Teresa agarrou as minhas mãos, apertou-as entre as dela, como que para me transmitir o que lhe ia no coração, e segredou-me: ‘Meu filho, sem Deus nós somos pobres demais para ajudar os pobres! Lembre-se: eu sou apenas uma pobre mulher que reza. Rezando, Deus coloca o Seu amor no meu coração e assim eu posso amar os pobres. Rezando!»
Madre Teresa de Calcutá recebeu em Oslo, Noruega, em 1979, o Nobel da Paz. No regresso, passou por Roma, onde recebeu jornalistas, um dos quais lhe perguntou com uma pontinha de intriga: «Madre, a senhora tem setenta anos. Quando morrer, o mundo será como antes. O que mudou depois de tanto esforço?» Madre Teresa respondeu com um sorriso: «Nunca pensei que poderia mudar o mundo! Eu só tentei ser uma gota de água limpa em que pudesse brilhar o amor de Deus. Acha pouco?». O jornalista emudeceu e Madre Teresa acrescentou: «Tente ser também uma gota limpa e, assim, seremos dois». «É casado?», insistiu Madre Teresa. «Sim, madre.». «Peça também à sua esposa, e assim seremos três. Tem filhos? «Três, madre». «Peça também aos seus filhos e assim seremos seis».
Já no fim da sua vida, sentenciou: «Se eu alguma vez vier a ser santa, serei com certeza uma santa da escuridão. Hei-de estar permanentemente fora do céu a iluminar os que na terra se encontram na escuridão». Na escuridão estão aqueles que fecham os olhos e gelam o coração diante dos problemas e das necessidades dos muitos irmãos pobres que encontram pelo caminho da vida.



publicado por minhasnotas às 10:48 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Plantu, cartoonista do jornal francês Le Monde, disse há dias, numa entrevista à revista Visão: «Há uma revolução a fazer nas escolas, nos media, na política. Não estamos preparados para a era da internet. Temos um instrumento genial, mas que não sabemos controlar».
Não sabemos controlar e até estamos a deixar que nos torne dependentes. Passamos horas e horas à frente de monitores e com telemóveis nas mãos, a mandarmos e a recebermos não sei quantas mensagens sem qualquer fundamento ou conteúdo, viciados em sms e em comunicação fútil. E chegámos aqui porque, como escreveu Pacheco Pereira no Público, vivemos em «sociedades sem relações humanas de vizinhança, de companhia e amizade, sem interações de grupo, sem movimentos coletivos de interesse comum que dependem de formas artificiais e, insisto, pobres, de relacionamento que se tornam aditivas como a droga. Não há maior punição para um adolescente do que se lhe tirar o telemóvel, e alguns dos conflitos mais graves que ocorrem hoje nas escolas estão ligados ao telemóvel que funciona como uma linha de vida.»
Vou acompanhando com alguma atenção as denominadas redes sociais, onde também estou presente e donde já tive mil desejos de sair, mas na última da hora o dedo não desce para o teclado, porque encontro sempre algo de positivo para continuar. Mas assumo muito desapontamento. Primeiro, porque muito raramente são redes. Há alguns casos de sucesso, mas poucos. Tagarela-se, publica-se, comenta-se, mas na vida tudo continua na mesma, cada um no seu canto. Tornámo-nos mais presentes uns para os outros, aumentámos o falatório, mas isso não significa um aprofundamento das relações humanas e um enriquecimento humano significativo. Depois, porque de social têm muito pouco, e por social eu entendo que ajudam a cimentar a interação e a aproximação entre pessoas, mas o que vejo crescer não é a abertura aos outros, a capacidade de escuta, o diálogo, a tolerância, o respeito pela diferença, a comunhão e o espírito de comunidade ou de fraternidade, mas o insulto, o ódio, a crítica leviana e mordaz, até mesmo parola, a maledicência, a calúnia, a banalidade noticiosa, a falsidade, a dissimulação, a ignorância, a agressividade entre pessoas e grupos. É verdade que as redes sociais são complementares para a verdadeira relação e comunicação que devemos ter uns com os outros todos os dias (atenção que já há muitas pessoas que vivem mais no virtual do que no real), mas mesmo assim esperava muito mais.
Com a internet e as redes socias, estamo-nos a transformar em sociedades confessionais, o que não deixa de ser surpreendente e intrigante. Reparemos como o Facebook e outras redes sociais se estão a tornar autênticos confessionários, onde vemos pessoas a contar a sua vida toda e até a expor a sua intimidade e privacidade. Mostra-se o batizado e o casamento, a festa de anos, as viagens que se fazem, o almoço e o jantar, as idas à discoteca, os banhos na piscina, a roupa nova que se estreou, o novo telemóvel que se comprou, o piloto a fazer piruetas com a bola, mostra-se a casa, apresentam-se habilidades, retratam-se estados de alma, prometem-se vinganças, choram-se traições, descarregam-se raivas, desforram-se inimizades, partilham-se desabafos de toda a espécie, mais estive aqui, mais estive ali, até o luto já tem lugar nas redes sociais. Que necessidade teremos de dizer isto aos outros e porque carga de água é que os outros têm de saber a nossa vida? Ou não saberemos viver sem os olhos e a aprovação e a presença dos outros? Parece que só sabemos viver se os outros estiverem a ver. O que noutros tempos só acontecia no encontro com um sacerdote, no segredo e na serenidade dum confessionário, algo que a Igreja sempre procurou fazer e faz com muito respeito e dignidade e que muitos padres fazem de forma magistral, agora passou para o Facebook e outras redes sociais. É interessante notar que este fenómeno acontece numa sociedade ciosa e radical na defesa dos direitos individuais, onde se proclama que quase não existe nada de mais sagrado do que a vida íntima e a vida privada das pessoas, que só a cada um diz respeito. Mas, contraditoriamente, é o que mais se vê e publica nas redes sociais.
Dizem os estudiosos da surpreendente e imprevisível natureza humana, que o ser humano tem sempre a necessidade, bem conhecida, de expressar sentimentos, partilhar medos, crenças e emoções, de falar de si e dos meandros da sua alma e dos outros. Mas há quem vá ainda mais longe: num mundo de muita oferta, é preciso saber chamar a atenção, e muitos até recorrem à exposição da sua intimidade para ver se caem nas boas graças de alguém. Num mundo de mercado, em que quase tudo se compra e vende, não há que olhar a meios para atingir os fins. Se usamos a nossa intimidade para ser uma mercadoria atraente para alguém ou até para simples exibição, é uma opção lamentável e põe a manifesto o aviltamento a que está chegar a dignidade de muitas pessoas.
As redes socias, na minha modesta opinião, são para partilharmos e comunicarmos coisas interessantes, que possam enriquecer a vida de todos ou até enriquecer o debate público, com o justo espírito crítico que se lhe exige, e não para andarmos a contar a nossa vida toda aos outros, por vezes num exibicionismo pacóvio, fazendo dos outros uns voyeuristas da nossa vida.



publicado por minhasnotas às 10:41 | link do post | comentar

Tendo como pano de fundo a avaliação do Ano da Misericórdia já concluído, o Papa Francisco concedeu uma entrevista ao Semanário católico belga Tertio. Deixa-nos algumas considerações e reparos, tanto à Europa como à Igreja, de que vale a pena tomar nota.
Questionado sobre o laicismo agressivo adotado por algumas sociedades europeias, que procura afastar a religião da vida social e da atividade educativa, remetendo-a para a vida privada e encarcerando-a na sacristia, o Papa Francisco coloca a questão na ordem dos direitos humanos, no respeito pelo ser humano, e sublinha: «É uma posição antiquada. É uma herança que nos deixou o iluminismo, considerando-se que o facto religioso é uma subcultura. Uma coisa é a laicidade e outra coisa é o laicismo. O laicismo fecha as portas à transcendência. A abertura à transcendência faz parte da essência humana. É parte do homem. Uma cultura ou um sistema político que não respeite a abertura à transcendência da pessoa humana, poda, corta a pessoa humana. Ou seja, não respeita a pessoa humana. Mandar qualquer ato de transcendência para a sacristia é uma assepsia» (podemos talvez traduzir aqui por limpeza ou negação).
É opinião agora muito difundida que na raiz das atuais guerras está a diferença entre as religiões. Não é essa a opinião da Igreja, assim como do Papa Francisco: «Nenhuma religião como tal pode fomentar a guerra. Não se pode fazer a guerra em nome de Deus. O terrorismo e a guerra não estão relacionados com a religião. Usam-se deformações religiosas para a justificar. O religioso é amor, unidade, respeito, diálogo. Todas as religiões têm grupos fundamentalistas. Nós também. Destroem a partir do seu fundamentalismo. Deformam e enfermam a própria religião».
Depois da primeira guerra mundial, gritou-se em uníssimo na Europa: «Guerra nunca mais». Mas, infelizmente, o Papa lamenta que isso não se tenha cumprido, e acusa muitos líderes da Europa de lá para cá de hipocrisia e covardia, deixando que os interesses se sobreponham aos valores e aos princípios: «Estamos a viver a terceira guerra mundial aos pedaços. Dissemos da boca para fora «guerra nunca mais», mas continuamos a fabricar armas e vendemo-las. Creio que a Europa disse o «guerra nunca mais» sinceramente. Schumann, De Gasperi, Adenauer disseram-no sinceramente. Mas hoje fazem falta líderes. A Europa precisa de líderes que vejam mais além.»
Quanto ao futuro da Igreja, o Papa Francisco não tem dúvidas de que se deve construir uma Igreja sinodal: «A Igreja nasce das comunidades, nasce da base, nasce do batismo, e organiza-se em torno de um bispo. Ou há uma Igreja piramidal, em que se faz o que o Papa diz, ou há uma Igreja sinodal, onde Pedro (o Papa) é Pedro, mas acompanha a Igreja e a faz crescer, escuta-a, discernindo o que vem das comunidades e devolvendo-o. A sinodalidade é a unidade na diferença. Uma Igreja sinodal significa que se dá o movimento de cima para baixo e de baixo para cima. Pedro (Papa) é o garante da unidade da Igreja».
A atuação e os critérios dos meios de comunicação social merecem do Papa um juízo severo. Começa por considerar que são importantes: «Têm uma responsabilidade grande, têm a possibilidade de formar opinião, são bons para construir a sociedade, edificar, fazer bem, partilhar, fraternizar, educar e fazer pensar, são positivos». Mas atualmente deixam-se levar por quatro tentações, que deveriam procurar vencer: a calúnia (só falar mal), a difamação (criar más famas às pessoas por factos que já passaram, chafurdar no passado da pessoa), a desinformação (alimentar as meias-verdades, só dizer uma parte da verdade e esquecer a outra, não se permitindo às pessoas ajuizar devidamente diante da verdade completa, vergando-se a opinião pública numa certa direção), a enfermidade da coprofagia (só informar o que é escandaloso e polémico, comunicar só as coisas feias, «ainda que sejam verdade»). Os meios de comunicação social devem «ser limpos e transparentes».
Perante a indiferença, a agressividade e a violência que grassam no mundo, o Papa aponta um antídoto: «Hoje faz falta uma revolução de ternura e de misericórdia. O mundo sofre de cardioesclerose.»



publicado por minhasnotas às 10:37 | link do post | comentar

Partilho aqui convosco três intervenções dignas de registo nos últimos dias.
1.Entre os dias 24 e 26 de Junho, O Papa Francisco visitou a Arménia. Não deixou de fazer uma referência pesarosa à história trágica e conturbada desta nação no século XX, nomeadamente o genocídio ou o holocausto arménio realizado pelo império otomano, entre 1915-23. Morreram oitocentos mil a milhão e meio de arménios. Para a maioria dos estudiosos e historiadores não há qualquer dúvida que se tentou a eliminação do povo Arménio, num dos primeiros genocídios da modernidade. A atual Turquia ainda não reconheceu ou não aceita o termo genocídio (em França é crime não o reconhecer), por isso, contestou e lamentou as palavras do Papa Francisco, que não teve dúvidas em afirmar na Arménia: «o «Grande Mal», que atingiu o vosso povo e causou a morte duma multidão enorme de pessoas. Aquela tragédia, aquele genocídio, marcou o início, infelizmente, do triste elenco das imensas catástrofes do século passado, tornadas possíveis por aberrantes motivações raciais, ideológicas ou religiosas, que ofuscaram a mente dos verdugos até ao ponto de se prefixarem o intuito de aniquilar povos inteiros.». Para a Igreja Católica não há dúvidas: foi mesmo um genocídio.
2.No dia 28 de Junho, O Papa emérito Bento XVI celebrou sessenta e cinco anos da sua ordenação sacerdotal. Num prefácio de um livro sobre Bento XVI, o Papa Francisco, que assina o prefácio, manifesta a admiração pelo exemplo do seu predecessor e não poupa nos elogios: «Ainda antes de ser um grandíssimo teólogo e mestre da fé, vê-se que é um homem que acredita verdadeiramente, que reza verdadeiramente; vê-se que é um homem que personifica a santidade, um homem de paz, um homem de Deus». É um bom «exemplo da «Teologia de joelhos», que valoriza a oração como «fator decisivo» na vida de quem se consagra a Deus. «É talvez e sobretudo do Mosteiro Mater Ecclesiae, para onde se retirou, que Bento XVI continua a testemunhar de modo ainda mais luminoso o fator decisivo, esse núcleo íntimo do ministério sacerdotal de que os diáconos, os sacerdotes e os bispos não devem esquecer nunca: que o serviço mais importante não é a gestão dos assuntos correntes, mas rezar pelos outros, sem cessar, alma e corpo, exatamente como o faz hoje o Papa Emérito». E sentenciou: «Sem a ligação com Deus, somos como satélites que perderam a sua órbita e se precipitam em louca corrida ao vazio, não só desagregando-se a si mesmos mas também ameaçando os outros». É bom ver esta estima e boa convivência entre Francisco e Bento XVI. Outra coisa não seria de esperar.
3. Entre os dias 24 e 25 de Junho, decorreu em Fátima o simpósio teológico-pastoral promovido pelo Santuário. O arcebispo de Boston, franciscano capuchinho, o cardeal D. Sean O´Malley, que integra o Conselho de Cardeais, com nove elementos, que o Papa escolheu para o aconselharem no processo de reforma da constituição do Vaticano e do governo da Igreja Católica, esteve presente no encerramento, com a última conferência. Na conversação que teve com a comunicação social, deixou-nos algumas afirmações importantes para a vida e a reflexão da Igreja e da sociedade em geral. Primeiro, destacou a importância dos santuários: «Muitas vezes as pessoas não têm tempo para a oração, para uma experiência religiosa e é só quando fazem uma peregrinação é que têm tempo para rezar, confessar-se, comungar, sentir-se parte de uma família de crentes». Destacou a importância de Maria na fé cristã: «A nossa teologia é muito cerebral, teórica, mas a virgem Maria faz tudo mais humano, sentimental». Sem a oração, dificilmente se pode ser um bom cristão: «Jesus veio ao mundo para salvar e não para instruir. Se só ensinarmos doutrina e história e não ensinarmos a rezar, seguiremos Cristo de longe e não seremos discípulos». Os cristãos têm de ser «mestres de oração». Precisamos de «transformar cristãos secularizados em apóstolos comprometidos», um trabalho árduo porque se vive hoje uma «verdadeira crise de valores, sem referências para os mais jovens. Eles precisam de mentores, alguém que os ensine e que pelo testemunho os ajude não a admirar Jesus mas a ser como Ele». É preciso propor outra educação e outra cultura: «Num mundo marcado pela fama em que os heróis foram substituídos por celebridades, com vidas frívolas e superficiais; numa cultura viciada pelo entretenimento os nossos jovens precisam ser ensinados». E lançou um desafio: «É urgente criar uma Civilização do amor que valorize o essencial», combatendo-se «uma sociedade onde a vida humana é constantemente desvalorizada; o eu individual sobrepõe-se a tudo; onde a segregação é uma marca permanente e onde a distribuição da riqueza está totalmente desequilibrada».



publicado por minhasnotas às 10:35 | link do post | comentar

Este Verão fomos confrontados mais uma vez com o drama dos incêndios. No meu Concelho, Boticas, foi dizimada metade da mancha florestal, segundo estimativa do Senhor Presidente da Câmara, Fernando Queiroga, com a agravante de ser zona de caça. Na Madeira, assistimos mesmo a uma cena medonha e infernal. De acordo com as contas finais, terão morrido 4 pessoas, foram atingidas mais de duas centenas de casas, cerca de mil pessoas ficaram desalojadas, foram consumidos milhares de hectares de floresta.
Todos os anos levante-se uma grande celeuma à volta das causas e soluções para os incêndios. Com as sirenes dos bombeiros como música de fundo e no calor do momento, engenheiros, especialistas, estudiosos apresentam teses e estudos sobre a floresta e a sua má gestão, bem como soluções para esta chaga veranil. O governo compromete-se a enfrentar a sério o problema com a máxima urgência. Diretores e gestores de organismos ligados à gestão da floresta proferem discursos moralistas sobre a incúria do povo e do governo. O que é certo é que todos os anos persiste a sensação que pouco ou nada se faz, não há um verdadeiro plano nacional bem articulado com todos os agentes para se gerir bem a floresta e se combater os incêndios, o governo desliga-se do assunto, os cidadãos não mudam comportamentos. Já estamos a ver o que aí vem no próximo Verão.
Daí que os nossos bispos, reunidos em Fátima no dia 11 de Outubro, talvez também já um pouco saturados, como muitos portugueses, das proclamações de boas intenções na altura dos incêndios, que depois não dão em nada, através do seu porta-voz, P. Manuel Barbosa, tenham alertado para a importância de não se baixar a guarda na prevenção dos incêndios e que as promessas são mesmo para cumprir. Já estamos a encarreirar no costume: «parece haver um certo arrefecimento e que os incêndios arrefeçam está muito bem, mas o assunto em si não pode arrefecer. Os incêndios estão longe, esperemos que nunca apareçam mais e isso tem que ser muito bem preparado, é uma questão que envolve a todos».
Vamos lá ver se de uma vez por todas se faz uma gestão séria e competente da floresta e se se cria uma verdadeira estratégia nacional de combate aos incêndios, bem preparada pelo governo e organismos que têm essa responsabilidade. Pelo que se vai vendo, sem evitarmos a exasperação, está tudo ainda nas cinzas.
2.Acometido por um ato de fúria e loucura, um cidadão de Aguiar da Beira é suspeito de ter morto duas pessoas, uma da GNR, e de ter ferido outras duas com gravidade. Até este momento anda desaparecido. Começam a surgir no nosso país manifestações de violência inusitadas, o que faz transparecer a perda de valores e princípios fundamentais na nossa humanização e educação. D. Manuel Linda, bispo das forças armadas, no dia do funeral do GNR falecido, dirigiu uma carta aos familiares e amigos, onde chama a atenção para falhas na atual educação e formação humana e para alguma errância cívica: «a nossa cultura e maneira de viver, aqui na Europa, está a tornar-se problemática. Por um lado, à base de um conceito errado de liberdade, não se insiste na modelação do nosso temperamento, na formação moral e na educação para os valores. E o mal mais terrível encontra campo aberto para se impor, a ponto de a vida humana se tornar apenas uma questão de preço e, por sinal, para os malvados, um preço muito baixo: mata-se por «dá cá esta palha», como diz o povo. Por outro lado, as Forças de Segurança, concretamente a Guarda, são ignoradas pela maioria, menosprezadas por muitos e até adiadas por alguns. Delas se exige que a legalidade impere mas, quando as coisas correm com tranquilidade, alguns acham que estão a mais.» E deixou um recado ao governo e ao cidadão em geral, com o qual concordo: «qualquer dia sujeitamo-nos a que poucos ou nenhum queiram entrar nesta Força de Segurança porque a dureza de vida é enorme, a exposição social incomoda e a compensação, concretamente o salário, é muito pequena. Então, que queremos? Que o mal campeie e a ilegalidade alastre por falta de quem lhe ponha cobro? Eis, pois, uma questão não apenas social, mas mesmo moral: dê-se à Guarda e às outras Forças de Segurança os meios humanos e técnicos, os equipamentos e a formação sem os quais não podem afrontar o mal que cada vez parece ressurgir com mais intensidade. E faça-se tudo para se valorizar, social e economicamente, esta altruísta e nobre função de preservar a boa harmonia social, a paz, a liberdade e a legalidade.»



publicado por minhasnotas às 10:33 | link do post | comentar

No dia 2 de dezembro, faleceu o Monsenhor Ângelo Minhava, com a invejável idade de 97 anos. Nasceu na Freguesia de Ermelo, Concelho de Mondim de Basto, a 15 de janeiro de 1919.
Sem desprimor para com ninguém, foi das pessoas mais singulares e extraordinárias com quem convivi, e muitos o poderão dizer muito mais do que eu. Viveu uma vida exemplar ao serviço da Igreja, como padre, e ao serviço dos outros, sobretudo no campo da música e da literatura. A cultura foi o seu habitat natural, enriquecendo-a com a sua grande inteligência e o seu espírito inventivo e criativo ímpar. Escreveu várias obras literárias de poesia e teatro, entre outras, musicou muitos poemas, dirigiu tunas e grupos corais, é autor de várias marchas e de músicas litúrgicas. Tinha uma cultura geral abissal.
Não deixava de espantar, primeiro que tudo, pela sua humanidade e simplicidade desarmantes, sempre alegre, delicado, com voz doce, com uma educação polida, acessível, afável, sem vaidade e sem pavoneio balofo, nada dado a veneradas eminências, íntegro. Era um grande homem.
Era um estudioso e um curioso insaciável, ávido por saber e por conhecimento, queria sempre saber de tudo e questionava tudo. Dava-se ao luxo de com 90 anos andar com um pequeno dicionário de russo no bolso, alimentando obstinadamente a sua faceta de autodidata, notória na sua maneira de ensinar. Via-se muitas vezes na solidão dos cantos dos corredores do seminário a ler atentamente livros ou jornais ou a compor músicas, sussurrando e abanando a cabeça e os ombros, músicas prontas a ensinar nas aulas de música.
Tinha um grande poder de observação, não deixando sempre de exercitar o seu espírito crítico apurado e de suavemente deixar os seus reparos e sugestões, que se ouviam com atenção. Não gostava, por exemplo, que lhe dissessem «ouça lá», ao que respondia «ouça lá a sua mãe», «ouça lá tem nome, está bem meninos?» ou que alguém limpasse o nariz ruidosamente, como muitas vezes fazemos. Com a testa franzida, sentenciava com ar sério: «o nariz limpa-se sem ruído, como é lamentável fazermos de corneta quando reina o silêncio ou alguém está a falar».
Aqui há uns tempos atrás, perguntei-lhe sobre o que o motivou a compor e a escrever a marcha de Montalegre. Com um sorriso nos lábios, um pouco pensativo, respondeu: «Sempre tive a impressão de que Barroso é uma terra agreste e fria, que tinha de ser habitada por gente valente e sem lamúrias, gente da lavoura. Reparei que os colegas que tive de Barroso eram destemidos, fortes e verticais e ao mesmo tempo generosos. Pegando no castelo e num pouco da sua história, retratei estas virtudes do povo barrosão». Deixou-nos a Marcha de Montalegre, que orgulhosamente cantamos.
No dia 4 de dezembro, na Sé de Vila Real, a diocese, familiares e amigos despediram-se de um grande homem e de um bom padre, de um ser humano excecional e de um criador raro, que enriqueceu abundantemente a vida dos outros, da Diocese de Vila real e da cultura.
Conta-se que um dia vinha com uns poucos de livros nas mãos e um empregado do seminário, que tinha alguma confiança com o Monsenhor Minhava, reparou e gritou do fundo do corredor: «ó Senhor Padre Minhava, um burro carregado de livros até parece um doutor.» O Monsenhor Minhava terá sorrido e ripostou: «é verdade, rapaz, mas um doutor que não lê livros é burro».



publicado por minhasnotas às 10:29 | link do post | comentar

Sexta-feira, 21.10.16

No dia 14 de Agosto, a Junta de Freguesia de Pinho e a Câmara Municipal de Boticas homenagearam postumamente o Padre Arnaldo Moura, falecido no dia 28 de Março de 2015. Inaugurou-se um largo com o seu nome e benzeu-se um busto em sua honra, com a presença do Senhor Bispo D. Amândio Tomás e alguns padres, autoridades, povo de Pinho, terra natal do P. Arnaldo Moura, antigos paroquianos e amigos. Foi também apresentado o livro «Memórias do Padre do Povo», da autoria da escritora Maria Assunção Morais, uma coletânea de depoimentos e testemunhos de muitas pessoas que se relacionaram e privaram com o P. Arnaldo Moura. Ultimamente, o P. Arnaldo participava na festa dos Mouras que se realizava em Montalegre.
Felicito a Junta de Pinho e a Câmara Municipal de Boticas pela justa homenagem que realizaram a um grande homem do Concelho e a um bom padre da Diocese de Vila Real. Por razões de trabalho, não pude estar presente, mas não ficaria bem comigo mesmo se não escrevesse duas singelas palavras sobre o P. Arnaldo Moura.
Não foi com ele que entrei para o seminário, mas, quando passou a ser o pároco de Beça, acompanhou-me durante algum tempo no seminário. Desde logo, manifestou atenção, preocupação e acompanhamento generoso, incentivando e dando pequenos conselhos, com aquela candura e doçura que lhe era característica.
No meu ano de estágio, sendo já o meu pároco o padre Luís Sanches, veio amavelmente ter comigo, pedindo-me que o acompanhasse em algumas festas para dizer «duas palavras» ao povo, porque, segundo dizia, «já estava na hora de começar a enfrentar o povo e de passar à «prática» da pastoral». E desde logo, com a sua voz macia, sentenciou com jocosidade, aconselhando pregações curtas e incisivas: «Não te esqueças para a vida: nos primeiros cinco minutos mexes os corações, daí para a frente só mexes os cus». Nestes momentos, pude, sobretudo, presenciar a forma alegre, humana, dedicada e profundamente espiritual como vivia o sacerdócio.
Entretanto, só nos passámos a ver esporadicamente, até que começaram a ser conhecidos os seus problemas de saúde. Uns meses antes da sua morte, ainda tivemos a oportunidade de estar à mesa, a convite de um amigo, surpreendendo pelo bom apetite e mantendo a boa disposição e presença agradável que não deixava ninguém indiferente. Já era notória a sua grande fragilidade, pela ajuda que precisou para ir para o carro.
No dia 28 de Março de 2015, chegava a triste, mas esperada, notícia do seu falecimento. No seu funeral esteve presente uma multidão de pessoas, das várias paróquias que serviu e das várias instituições onde foi capelão, assim como amigos em geral. Com ele aprendi a ser homem e a ser padre, sendo por isso uma das figuras marcantes da minha vida. Se lhe chegar aos calcanhares, dar-me-ei por contente.
A sua vida não sobressai pelas grandes obras ou feitos, mas pela forma extraordinária como vivia o simples da vida, o padre para o povo e a relação com os outros. Falar do P. Arnaldo é falarmos, antes de mais, de um homem de grande humanidade, um ser humano polido. Tocou-nos pelos valores humanos da amizade franca, amabilidade, simpatia, simplicidade, bondade, disponibilidade, cortesia, sensibilidade, compaixão, abertura e acolhimento. Impôs-se pelo sua generosidade e desprendimento, não tinha vaidade balofa e pretensiosismos. Como padre, era zeloso, dedicado, serviçal, orante, alegre, de grande vivência espiritual. A tudo isto acrescentava uma boa dose de boa disposição e o bom humor.
Só Deus sabe quem é santo. Mas, se não o foi, esteve lá muito perto. Aprendamos dele a saber estar na vida com simplicidade, humildade, dignidade, liberdade, humanidade e santidade.



publicado por minhasnotas às 11:48 | link do post | comentar

Segunda-feira, 26.09.16

1.Apesar de alguns atrasos e de algumas falhas, que a imprensa não deixou de denunciar, o Brasil esteve à altura da organização dos míticos Jogos Olímpicos, na maravilhosa e esplendorosa cidade de Rio de Janeiro. Tanto na cerimónia de abertura, como na de encerramento, o Brasil expôs de forma competente a sua arte, a sua singularidade, a sua história e a sua riqueza, assim como o seu fascínio. Que pena andar nas bocas do mundo porque destituiu uma «presidenta», com o parlamento brasileiro, por vezes, a dar um espetáculo deprimente, e apresentar níveis de violência e de corrupção inaceitáveis para um país que integra ou pode integrar o pelotão das potências emergentes no século vinte e um!
Mas, considerações biliosas à parte, vale a pena salientar a importância e a festa humana que são os jogos olímpicos. Como escreveu o teólogo brasileiro Leonardo Boff, num artigo na plataforma digital Religion Digital (artigo onde vou beber copiosamente), «são um dos poucos espaços nos quais a humanidade se encontra consigo mesma, como uma única família», onde tomamos consciência de que fazemos todos parte da mesma espécie e temos um destino e uma casa comum. Com elevação, respeito e beleza, celebra-se a vida e a comunhão com os outros, a presença e a importância dos outros na nossa vida, tal como eles são. Cada um mostra o melhor de si e é respeitado, na sua identidade e na sua diferença. Todos se sentem ao mesmo nível, para além das diferenças culturais, ideológicas e religiosas. «Os jogos olímpicos são uma metáfora da humanidade humanizada», afirma Leonardo Boff, ou seja, são imagem do que devia ser sempre a humanidade e de como devemos agir e interagir uns com os outros, sejam pessoas, sejam povos.
Os jogos olímpicos sublinham «a importância antropológica e social do jogo», enquanto meio que, de forma singular, humaniza, integra e socializa. Seria bom que a lógica olímpica imperasse no quotidiano da vida, ao contrário da lógica capitalista, que enfrentamos todos os dias: esta exclui e tenta esmagar o concorrente. Aquela inclui, todos participam, respeitando-se as qualidades e o virtuosismo de cada um.
Nós, cristãos, não podemos deixar de testemunhar o significado transcendente do jogo. Fala-nos do ser de Deus e do ser que o ser humano deve ser. O jogo, que brota da fantasia criadora do ser humano, é expressão de uma liberdade sem coação, de um mundo sem finalidade prática, livre do lucro e de benefícios individuais. O jogo proporciona o simples encontro, o conviver e o estar com os outros, sem qualquer outro fim, numa recriação gratuita da vida. O jogo estimula e aprofunda o ser para os outros e com os outros. É um espaço singular de encontro e de humanização.
2. Quanto à nossa vida caseira, gostava de deixar algumas observações. Definitivamente, penso que a localização das bandas de música na festa de Montalegre tem de ser repensada, como já vários maestros das bandas alertaram. É uma aberração colocar duas bandas de música a cinquenta metros de um grupo musical. Para além de ser extremamente incomodativo para os músicos, há momentos de atuação das bandas que não se ouvem. Sei que custa mudar os hábitos das festas, mas tem de haver coragem para se corrigir o que está mal. Sugiro o largo da Igreja Nova, ou então o largo do Ecomuseu, sendo a rua direita um bom espaço de circulação. Continuar como está é um disparate, com grande prejuízo para as bandas, sendo sinal de alguma inépcia da nossa parte.
O troço da nacional 103 entre Montalegre e Boticas tem algumas pontes com o trânsito condicionado. Já aqui uma vez alertei para algumas coisas que poderiam e deveriam ser melhoradas. Já que as pontes condicionam o trânsito, então ao menos que tenham boa visibilidade, que é o que neste momento não têm. As margens estão cheias de carvalhos, silvados e arbustos. Não faltam casos de carros que só se avistam mesmo em cima da ponte, recuos perigosos de carros, travagens bruscas de pesados, que estão bem à vista, cruzamentos de carros no limite, entre outros. Isto é incompreensível. Se os cidadãos são obrigados a limpar cinquenta metros das envolvências das suas casas por causa dos incêndios, o Estado deveria ser obrigado a limpar cem ou duzentos metros nas imediações das pontes de trânsito condicionado, para não acontecer que um automobilista seja surpreendido e tenha de decidir passar ou não passar a ponte mesmo no limite. Sei que não é uma estrada sob a égide da Câmara Municipal, mas peço ao Município que faça chegar ao órgão competente uma exposição ou um protesto, solicitando a boa visibilidade nas pontes de trânsito condicionado. E já que escrevo sobre estradas, e dentro da cidadania ativa e atenta que defendo, não ficava nada mal ao Município dar um arranjo como deve ser à estrada entre Antigo de Sarraquinhos e Arcos, e não é assim ela tão comprida. Já vários cidadãos, que pagam imposto de circulação, nos quais me incluo, manifestaram que deixaram de passar na referida estrada por causa do seu mau estado. Já não estamos em tempo, penso eu, de termos estradas assim. Não tem muito trânsito, mas quem lá passa paga impostos como os outros e merece respeito como os outros.



publicado por minhasnotas às 16:43 | link do post | comentar

A Jornada Mundial da Juventude, que a Igreja Católica organiza todos os anos desde 1984, tem sido sempre um sucesso. Deixará marcas indeléveis em muitos jovens que nela participam e ajudará muitos a amadurecer a fé e a se comprometerem mais com Cristo e com a Igreja. Este ano foi na Polónia, país do cativante e inesquecível João Paulo II. Os momentos e as celebrações com o Papa Francisco foram os momentos altos da jornada, onde o Papa Francisco fez passar uma mensagem de alegria e incentivo aos jovens, mas onde também apontou caminhos de exigência e de séria reflexão, questionando a cultura e os valores ou contravalores atuais em que nasce e vive a juventude. Espero que muitas famílias e jovens, e a sociedade em geral, escutem as palavras sábias do interpelante Papa Francisco.
O Papa começou por exaltar a fase da juventude, de quem a Igreja e o mundo esperam muito: «Nos meus anos de bispo, aprendi uma coisa (aprendi muitas; mas uma quero dizer-vo-la agora): não há nada mais belo do que contemplar os anseios, o empenho, a paixão e a energia com que muitos jovens abraçam a vida. Como é belo isto! É um dom do céu poder ver muitos de vós que, com as vossas questões, procurais fazer com que as coisas sejam diferentes». O que é marcante na juventude é a capacidade de sonhar, de querer construir algo de novo, de contribuir para a mudança e o melhoramento do mundo, é a rebeldia diante do mal e da injustiça, é o questionar ideias e convicções que já não têm sentido, é dar um sentido novo e mais profundo à vida, é o querer ser mais e ir sempre mais além. Será esta a «cultura» da nossa juventude atual?
O Papa apontou dois «vícios» perturbadores que, infelizmente, se entranharam na cultura e no espírito da nossa juventude atual: a aposentação juvenil e a paralisia do sofá/felicidade. Quanto ao primeiro, o Papa foi claro: «Entristece-me encontrar jovens que parecem «aposentados» antes do tempo. Isto deixa-me triste: jovens que parecem ter–se aposentado aos 23, 24, 25 anos. Isto entristece-me. Preocupa-me ver jovens que desistiram antes do jogo; que «se renderam» sem ter começado a jogar. Entristece-me ver jovens que caminham com a cara triste, como se a sua vida não tivesse valor. São jovens essencialmente chateados e chatos, que chateiam os outros, e isto deixa-me triste. É duro, e ao mesmo tempo interpela-nos, ver jovens que deixam a vida à procura da «vertigem», ou daquela sensação de se sentir vivos por vias obscuras que depois acabam por «pagar» e pagar caro». E, de facto, hoje, é triste vermos jovens «aposentados», não só aqueles que se perdem na droga, no álcool, na sexualidade lasciva e desregrada, no furto, nos negócios imundos, na ilicitude, na devassidão da noite, mas também aqueles que vivem sem um ideal, sem um projeto de vida, sem causas, sem horizontes humanizantes, entregues ao hedonismo vazio e escravizante, ao improviso, ao facilitismo e ao imediato da vida, que se deixam ir na onda, como diz o papa, «de vendedores de falsas ilusões ou vendedores de fumaça». São jovens que vivem sem viver, sem alma e sem o carisma e a força que marca a juventude. Não quero dizer que todos os jovens são assim, mas temos um bom número que escolheu ou foi empurrado pela sociedade para esta frivolidade e esta vacuidade.
Quanto ao segundo vício, disse o Papa: «Gosto de a chamar a paralisia que brota quando se confunde a FELICIDADE com um SOFÁ/KANAPA. Sim, julgar que, para ser felizes, temos necessidade de um bom sofá. Um sofá que nos ajude a estar cómodos, tranquilos, bem seguros. Um sofá – como os que existem agora, modernos, incluindo massagens para dormir – que nos garanta horas de tranquilidade para mergulharmos no mundo dos videojogos e passar horas diante do computador. Um sofá contra todo o tipo de dores e medos. Um sofá que nos faça estar fechados em casa, sem nos cansarmos nem nos preocuparmos. Provavelmente, o «sofá-felicidade é a paralisia silenciosa que mais nos pode arruinar, que mais pode arruinar a juventude. Porque pouco a pouco, sem nos darmos conta, encontramo-nos adormecidos, encontramo-nos pasmados e entontecidos. Não viemos ao mundo para «vegetar», para transcorrer comodamente os dias, para fazer da vida um sofá que nos adormeça; pelo contrário, viemos com outra finalidade, para deixar uma marca». Espero que a sociedade atual, o mais rapidamente possível, se aperceba do mal que tem feito à juventude: em nome de uma vida cómoda e de bem-estar, com todas as proteções e seguranças, em que a maioria das coisas lhe foi oferecida de mão beijada e se decretou o superior direito à diversão, a juventude foi decepada da capacidade de sofrimento e de sacrifício, de lutar por metas e objetivos, de aprender a fazer-se à vida, de servir os outros, essencial na vida, e temos um bom número de jovens imaturos, amorfos, abúlicos e impreparados para a vida e seus desafios, que não tem outro «nobre» objetivo que estar horas e horas pasmados num sofá, rodeados de tecnologia, alheios do mundo e da vida.
É fascinante trabalhar e estar com jovens e acreditamos e esperamos muito deles. Mas não estamos a proporcionar a melhor educação e a oferecer a melhor cultura para que isso aconteça. Urge repensar seriamente nesta banha da cobra que lhe vendemos ou oferecemos, porque não estamos a ajudá-los a dar o melhor se si mesmos à vida e ao mundo e não é este o sentido e não é esta a grandeza e nobreza com a vida deve ser vivida.



publicado por minhasnotas às 16:42 | link do post | comentar

O parlamento português, no dia 20 de Julho, aprovou a gestação de substituição, mais vulgarmente conhecida por barrigas de aluguer. A partir de agora, uma mulher (beneficiária) que não tenha útero, ou que tenha lesão ou doença no útero, sendo-lhe impossível engravidar, poderá celebrar um acordo jurídico com outra mulher (gestante), para que esta receba os seus ovócitos e lhe empreste a barriga, para que o casal possa ter um filho. Tudo terá que ser feito por puro altruísmo, sem qualquer pagamento, a não ser os honorários que a mulher gestante tenha ao longo do tempo da gravidez. Os acordos serão autorizados pelo Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida e a operação de gestação só poderá ser feita em centros públicos e privados autorizados pelo ministro da saúde. Após o parto, a mulher gestante renuncia aos poderes e deveres próprios da maternidade, entrega a criança à beneficiária, que passa a ser legitimamente a sua mãe. Toda esta ação e intervenção deverá ficar no segredo dos deuses, nem mesmo à criança deverá ser revelada a origem do seu material genético e que nasceu por ação de uma gestação de substituição.
Já reparámos que o assunto é complexo, mexe com princípios e levanta muitas questões morais. Não se entende a pressa que teve o parlamento português em aprovar uma lei que ainda gera mais dúvidas do que certezas. Tanta precipitação só se justifica porque temos partidos que querem troféus e querem ganhar o campeonato dos avanços e progressos civilizacionais contra os retrógrados, obscurantistas e conservadores inimigos da verdadeira e autentica civilização humana. Vamos acabar por concluir que nos metemos numa grande trapalhada moral e que a dignidade humana, que se promete defender, sai gravemente desrespeitada e lesada deste dito progresso civilizacional. Até o Senhor Presidente da República não fica nada bem neste enredo. Num primeiro momento vetou e apontou muitas lacunas à lei original. Após algumas correções de cosmética, já disse que promulga. Talvez lhe ficasse melhor pedir mais debate e reflexão à sociedade e aos partidos, como recomendaram muitas autoridades e conselhos.
Do ponto de vista jurídico, alguns juristas já apontaram algumas falhas na lei: hoje, infelizmente, renuncia-se com muita facilidade aos contratos e aos compromissos, à palavra dada. Se a mulher gestante, a meio da gestação, renunciar ao contrato, o que é que se faz à criança? Se uma mulher gestante reclamar o filho como seu, poderá ficar com ele? Um contrato onde haja dinheiro envolvido será considerado nulo, porque a gestação de substituição deverá ser altruísta e gratuita. Se um contrato for considerado nulo, o que se faz à criança desse contrato? É de acreditar que vamos ter muitas mulheres dispostas a engravidar por puro altruísmo? Como é que se vai fiscalizar os verdadeiros honorários de pagamentos disfarçados de reembolsos? Não se estão a violar os direitos da criança, ao não se lhe dar conhecimento da sua gestação e da sua herança genética, como obriga a lei? Uma mulher que aceite dinheiro para uma gestação de substituição é punida com uma multa. Uma simples multa, quando está em causa o respeito pela dignidade humana? Será que o crime compensa? Não se estará a facilitar a comercialização das barrigas de aluguer?
Do ponto de vista moral, são muitas as perguntas e as perplexidades: a troco da realização de um sonho de parentalidade, não se estará a reduzir um ser humano a uma mercadoria e a um bem transacionável e comercializável como qualquer outra coisa? Não se estará a dar um direito abusivo de os pais serem donos e proprietários da vida de um filho, direito que ninguém tem sobre uma vida humana? Não existe o direito a um filho a qualquer custo. Não estaremos a reduzir o ser humano a um produto da ciência? Será correto instrumentalizar o corpo de uma mulher, reduzindo-o a uma mera máquina gestante, sem afetos e emoções? Uma mulher que gera uma criança dentro de si e a dá à luz não é legitimamente a sua mãe? É proibido dar a conhecer à criança a sua herança genética. E se se der o caso de dois meios-irmãos, por terem o mesmo pai ou mãe, se apaixonarem?
Como vemos, por todas e mais algumas razões, a Igreja Católica não aceita a prática da gestação de substituição, considerando-a desonesta e inaceitável (Catecismo da Igreja Católica, nº 2376-79), pelo respeito que é devido à dignidade da vida humana. É acusada de ser insensível ao desejo e ao sonho de muitas mulheres poderem ser mães, mas não é verdade, porque a Igreja, se calhar, melhor do que ninguém, acompanha os casais que vivem o drama de não poderem ter filhos. O que a Igreja quer sublinhar é que não existe o direito ao filho e que nem todos os meios são dignos e aceitáveis para se ter um filho a todo o custo, porque está em causa a dignidade de uma vida humana. Prefira-se a adoção, pela qual se poderá dar muito amor a uma criança e se contribuir para a realização duma vida humana, sendo também um bom caminho para a realização da parentalidade.



publicado por minhasnotas às 16:40 | link do post | comentar

Já lá vai mais de meio ano que a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima passou por Barroso. Foi um acontecimento memorável, como já o tinha sido em 1954, certamente que com outra participação e com outros números (estes pouco importam). Alguns cristãos não resistiram a fazer comparações, mas os tempos são completamente diferentes: em 1954, Barroso tinha mais de trinta mil pessoas, foi tudo centralizado na Vila de Montalegre, o fervor por Fátima estava no seu auge, a vivência religiosa tinha outros predicados que hoje não tem. Sessenta e um ano depois, a realidade é outra: Barroso terá pouco mais de dez mil pessoas, a imagem peregrinou por vários centros e santuários, a vivência religiosa é difusa e frouxa.
Ainda assim, Barroso esteve à altura, mais uma vez, desta visita inesquecível e desta odisseia mariana por todas as terras de Portugal. Os pergaminhos de Barroso notaram-se: colaboração, entreajuda, hospitalidade, generosidade, respeito e piedade. Em todos os lugares por onde passou, Maria foi aclamada e acolhida por multidões, não havendo a menor dúvida de que Nossa Senhora tem grande devoção e continua a ter um lugar especial no coração do povo barrosão. E assim o merece, por tudo o que contribuiu para a salvação da humanidade. Por todas as dioceses por onde anda a peregrinar, está sempre a ser acolhida por multidões, que a recebem com emoção, afeto e encanto.
Mas, nem tudo são rosas. Ainda continuo a digerir e a refletir sobre o significado desta visita às comunidades cristãs de lés a lés de Portugal. Duas perguntas persistem nas minhas lucubrações: porque é que estas multidões de cristãos não se veem ao Domingo? A devoção a Maria, reforçada com tantas aparições em vários países, não se estará a tornar em mariolatria sem Cristo?
Quanto à primeira pergunta, nunca me iludi, nem deixarei iludir por multidões de motivação religiosa, que, por norma, têm muito mais de folclore religioso do que de verdadeira fé. Jesus diz-nos isso sabiamente nos Evangelhos. E vai mal a Igreja se se deixa iludir também. A impressão que fica é que temos, em Portugal, uma grande maioria de cristãos que vive a sua fé de forma convicta, esclarecida e comprometida com Cristo e com a Igreja, mas não é verdade. A realidade da Igreja, atualmente, vê-se ao Domingo e é bem diferente: a prática cristã é fraca, em muitas comunidades há grande absentismo, desistência cristã e indiferença, uma falta de compromisso gritante com os sacramentos e com a comunidade, na sociedade há uma clara falta de intervenção e militância católica, a doutrina da Igreja e a moral cristã já pouco importam para um bom número de ditos cristãos. O que eu esperava desta visita de Nossa Senhora às comunidades, e acho que é o seu melhor fruto, era que muitos cristãos indiferentes despertassem para uma vivência consistente e coerente da sua fé e se pusessem de novo a caminho com Cristo e para a comunidade, mas não vejo isso acontecer. Fica-se tudo, mais uma vez, na pobreza do sentimentalismo momentâneo e na instalação da frivolidade cristã.
Quanto à segunda pergunta, penso que com uma sobrevalorização das aparições marianas se pode cair no perigo da mariolatria. Em primeiro, convém lembrar que Maria merece toda a devoção do povo de Deus, porque é mãe de Deus e mãe da Igreja, mas jamais deve ser adorada. Embora conduzida por Deus a um privilégio impar e a uma condição única, não deixa de ser uma mulher igual às outras mulheres. O que mais nos deve seduzir nela é forma admirável como se disponibilizou diante de Deus e se submeteu à sua vontade. Maria impõe-se pelo seu exemplo e não pelos seus poderes milagrosos, que nunca teve. Em segundo lugar, costuma-se dizer, e bem, que Maria é o melhor caminho para chegar a Cristo. Mas o que se vê, afinal, é que muitos cristãos não querem chegar a Cristo, mas simplesmente ficar em Maria, onde sempre poderão dar azo a uma vivência religiosa mais sentimental e protetora, ao sabor dos interesses e conveniências pessoais. Um culto mariano assim está errado. Sem compromisso com Cristo e com Igreja não tem sentido a devoção a Maria.



publicado por minhasnotas às 16:39 | link do post | comentar

Quando começa a chegar o Verão, muitas pessoas começam a calcorrear os caminhos que vão dar aos parques florestais, às pistas pedonais ou aos caminhos e veredas ervosas das redondezas das aldeias, vilas e cidades. É um bom hábito. Praticar desporto faz bem e todos devemos ir zelando pela saúde. Se for diário, tanto melhor, como recomendam os mestres em medicina. Somos dos países da Europa que menos desporto pratica. Uns fazem-no por saúde e descontração, em marcha lenta, outros em corrida, para queimar excessos e ondulações indesejadas ou para submeter o corpo e a mente a uma grande descompressão física e psicológica.
Cada um lá saberá porque o faz, mas a verdade é que muitos o fazem dominados pela paranoia contemporânea do cuidado do corpo, que se «tornou um mito de massa e consequentemente um negócio», como diz o Papa Francisco. É que hoje às pessoas não chega estar bem e ter saúde, mas é preciso impressionar e cair bem aos olhos dos outros, seguindo-se o padrão da mentalidade dominante, que enobrece a magreza, e dar nas vistas pela exibição de um corpo quase perfeito, hidratado, fresco, jovem, esbelto e elegante, seco (que nem a Vénus de Milo teve), que não mereça toques de reprovação vigiados pela sagrada moda e seja digno dos elogios dos exigentes e cáusticos observadores. Não seria de esperar outra coisa, nesta sociedade narcisista e exibicionista em que vivemos, avivada e estimulada pela panóplia de meios eletrónicos que tem à sua disposição. Vemos assim que pessoas que se queixam de ter pouco tempo e uma vida superocupada para poderem dar tempo à família, aos outros e às instituições ou para poderem cumprir deveres e compromissos que assumiram, contudo, religiosamente não faltam ao ginásio e cumprem à risca os intensos exercícios a que se devotam. O corpo, ou a busca de um corpo quase perfeito, sem defeitos, digno de ser adorado, que nunca teremos, tornou-se um ídolo.
Penso que, para alguns, o cuidado do corpo é quase dar sentido à vida, porque são tão limitados os objetivos e os projetos de vida que têm, que, se não tivessem que cuidar do corpo, viveriam num mar de tédio. E como é interessante notar o grande negócio que nasceu à volta deste delírio pelo cuidado do corpo, desde ginásios por todo o lado, personal trainers, especialistas da atividade física, clínicas e cirurgiões plásticos, estúdios de beleza. Não ponho aqui em causa a atividade e a competência destas pessoas e instituições, simplesmente quero manifestar que acho descabido tanta preocupação pelo corpo e questiono toda a indústria que está montada com arte e engenho para que as pessoas vivam o cuidado pelo corpo como uma obsessão, senão mesmo escravidão. Acho que o corpo, que deve ter as suas atenções e cuidados, não precisa destes exageros. Depois, assistimos a algumas aberrações, como uma mulher ter 70 anos e querer ter um corpo de 18 ou 25 anos ou um homem ficar completamente descaraterizado pelo desenvolvimento descomedido dos músculos. É a idolatria do corpo forte, jovem e perfeito. Um corpo velho não tem dignidade? Somos muito mais do que corpo e valemos muito mais do que o corpo que temos.
A par desta obsessão pelo cuidado do corpo, anda por aí agora o fundamentalismo alimentar, em que se definiram alimentos bons e maus, se decretou vigilância apertada sobre as dietas (cai bem dizer que se anda de dieta), quando sabemos que, dentro da regra, tudo é bom. Não está em causa o saber comer e cuidar da saúde, mas estes picuinhas profissionais diante da mesa em que nos estamos a tornar, prontos a dar lições de gordura saturada, ómega 3 e fibras a qualquer um que apanhamos pela frente. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Saibamos saborear com equilíbrio tudo que de bom a natureza nos dá.
O que esta preocupação absorvente pelo corpo manifesta é que temos muita dificuldade em nos libertarmos das mentalidades dominantes e das modas vigentes (como é questionável a liberdade que apregoamos!) e vamos sempre pelo caminho mais fácil, que é imitar os outros e viver o que o mediatismo dita, sem questionar o sentido e a importância do que se faz. O que os olhos dos outros veem ou querem ver é a grande diretriz da vida de muita gente. E mais uma vez fica exposta a superficialidade da sociedade em que vivemos, que se fixa no corpo e esquece o essencial, que é o interior da pessoa humana. Oxalá que o mesmo empenho que temos para com o corpo o tivéssemos para adquirir cultura, sabedoria, educação, pensamento, conhecimento, espessura interior, humanidade, moralidade e espiritualidade, isto sim, bem mais importante do que o pobre, mas digno, corpo, que, um dia, vamos ter de entregar à terra, nas quatro tábuas de um ataúde.



publicado por minhasnotas às 16:39 | link do post | comentar

Terça-feira, 28.06.16

É indisfarçável que o Ocidente, e mais concretamente a Europa, está a passar por uma crise de fé. De uma sociedade que facilmente aceitou ou coabitou com a ideia de Deus e a doutrina e a moral da fé, de tal forma que negar Deus era quase ofensivo e delituoso, passamos para uma sociedade que deixou de se importar com Deus, alheada da vivência religiosa e indiferente à sabedoria e às propostas das religiões, em que negar Deus ou assumir o agnosticismo é um sinal de modernidade, uma exigência para se pertencer aos «novos tempos». Alguns estudiosos sugerem que a Europa está a passar por um certo «enjoo» religioso ou por um «cansaço» da fé. Outros procuram apontar outras causas, que têm a sua relevância: o niilismo contemporâneo, que questiona tudo e não aceita nenhuma verdade como absoluta, o predomínio de uma mentalidade positivista e cientificista, que não sabe pensar para lá do laboratório e mede tudo pelo alcance do microscópio, o comodismo contemporâneo, que adota estilos de vida sem grande pensamento e exigência, a terrível e dura experiência que foi o século XX, com as suas guerras e barbaridades, com um caudal de destruição, morte e desumanidade inimaginável, que deixou marcas muito profundas na alma humana, suscitando um questionamento e uma dúvida persistente sobre todos os princípios, ideias, convicções, doutrinas, sistemas de pensamento e ideologias. Digamos que a Europa está a passar por «uma noite escura», que os místicos cristãos penosamente descrevem nos seus livros, em que Deus parece ausente e não responde senão com um silêncio inquietante.
Mas, na verdade, pode haver indiferença para com a vivência religiosa e para com as religiões, mas a fé não está assim tão esquecida no íntimo das pessoas. Muitas com quem vou falando, que não tiveram a formação religiosa que almejariam ter, afirmam que não se limitam a pensar a vida com os olhos voltados para a terra, mas que acreditam em «algo acima de nós», que possivelmente «nos criou, nos deu a vida e nos governa» e não deixará de nos «chamar a participar numa vida para sempre», «para além da morte». É o que os teólogos chamam o algoísmo, talvez a religião mais popular atualmente, acreditar em algo, sem saber muito bem o que isso é, mas acredita-se, o que prova que a fé em Deus não se apaga e não se elimina facilmente do pensamento e da reflexão humana e que o ser humano consegue formular sempre uma ideia de Deus a partir da experiência e da perceção que tem da vida e da realidade. Claro que é muito cómodo ficar-se pelo algoísmo, mas um crente a sério esforça-se por compreender esse «algo» em que acredita e procura relacionar-se com Ele, fonte da vida, sem o querer dominar ou entender tudo.
Como afirmam alguns teólogos, talvez não esteja tanto em crise a fé em si, a capacidade e o desejo que a pessoa humana tem de procurar a razão de ser da vida e das coisas, de procurar uma transcendência que seja a fonte, o sustento e a plenitude da vida, mas está em crise a fé numa certa ideia ou conceito de Deus, a crença numa determinada identidade de Deus. E se assim é, as crises de fé, como tantas que já houve ao longo da história humana, são benéficas para a fé, porque obrigam as religiões a refletir sobre a imagem que comunicam de Deus, obrigam a repensar o discurso, a doutrina e a moral das propostas religiosas, eivadas de exageros e inconsistências, forçam a mudar esquemas, costumes, métodos, fórmulas e soluções, aprofundam a espiritualidade. As crises acabam por ser oportunidades e filtros epocais, que purificam, maturam e robustecem a fé. Andam por aí muitas imagens de Deus, que temos de erradicar do discurso e da vivência religiosa. Já não tem qualquer sentido falar do deus castigador e vingativo, que nós inventámos, numa blasfema antropomorfização de Deus, que criou a religiosidade do medo e um sem número de pessoas oprimidas, permanentemente assoladas por escrúpulos e perturbações. Já é tempo de questionarmos a imagem de um deus que exige sacrifícios sem mais nem menos, que exige expiações e penitências para sanar a culpa e dar prémios, parecendo que se compraz com a dor humana, já é tempo de se repensar no deus milagroso, que temos de despertar e convencer pela oração ou qualquer ato heroico, dando a impressão de que anda distraído e não conhece a vida das pessoas, salvando uns e a outros deixa-os morrer, já é tempo de nos interrogarmos sobre a imagem demasiado humana de Deus que ensinamos e pregamos, um deus de humores e caprichos, que se ofende e que está muito ofendido…Não acho que seja esta a linguagem correta e a melhor imagem de Deus. Como todas estas ideias e imagens de Deus andam muito longe do Deus santo, bom, misericordioso e amoroso que Jesus ensinou!



publicado por minhasnotas às 11:33 | link do post | comentar

O ser humano é um ser relacional e social. Está feito para ser para os outros e para se relacionar com os outros, para partilhar, para conviver e comunicar. E quanto mais o faz, mais se realiza como ser humano e mais humano se torna. Como é um ser inteligente, dotado da capacidade de pensar e verbalizar, e portador de emoções e sentimentos, tem uma grande necessidade de comunicação. Esta tem dois grandes movimentos: falar e ouvir. Quem não sabe exercer os dois, não sabe comunicar e terá uma grande dificuldade em estabelecer «empatia» ou «simpatia» com os outros. Facilmente cairá na «antipatia» dos outros e com os outros. E não esqueçamos o silêncio, que é necessário para se comunicar bem, e, não raras vezes, é a forma mais sublime e perfeita de comunicar.
Na mensagem que dirigiu ao mundo e à Igreja para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Francisco chama a atenção para a necessidade de viver a misericórdia na comunicação social, assim como em toda a comunicação humana. Há pouca misericórdia na nossa comunicação social. Basta ver que as más notícias prevalecem sobre as boas notícias, há um gosto mórbido pelo escandaloso, o imoral e o negativo, vasculha-se e divulga-se a vida privada das pessoas sem qualquer respeito pelas pessoas e pela sua dignidade, nesta sociedade que se tornou incompreensivelmente consumista da desgraça alheia, com diretos atrás de diretos às portas dos tribunais, espalham-se sem escrúpulos a mentira e as meias verdades sobre pessoas, instituições e acontecimentos, em nome de interesses, com graves consequências para os atingidos, clama-se por justiça severa e linchamentos públicos para falhas e erros humanos. Até na nossa imprensa local, penso que se abusa dos ataques pessoais, do falar mal só por falar mal, por inveja ou ódio, seja de pessoas ou instituições, mais só para destruir do que para construir ou melhorar, dá-se demasiado espaço a querelas e discussões estéreis, que pura e simplesmente só vão azedar as relações e cavar maior distância entre os envolvidos, não estando em causa a leitura crítica que cada um tem direito a fazer da realidade. Até na comunicação politica, há muita falta de misericórdia. Repare-se na nossa Assembleia da República: em vez ser um espaço de comunicação com elevação e serenidade, pelo contrário, impõe-se a gritaria, o tom agressivo e acusatório, a troca permanente de argumentos bélicos, sem capacidade de ouvir o outro e entrar na sua razão, há uma busca contínua pelo denegrir e deitar abaixo o outro, não se reconhecem os méritos e os sucessos dos outros, prevalece a cultura de trincheira e o fundamentalismo partidário, exploram-se até ao tutano as contradições e as falhas alheias. Quantas sessões da Assembleia da República, casa da democracia, são um espetáculo lamentável!
Atualmente verifica-se um grande deficit em escutar os outros, para o qual o Papa também alerta. Vivemos num mundo de surdos. E não me digam que é por falta de tempo. O individualismo atual está-nos a tornar frios e indiferentes para com os outros. É uma questão de atitude e de humanidade. Vou encontrando muitas pessoas, que têm uma grande necessidade de falar, porque, pelos vistos, ninguém está para as «aturar», pessoas que precisam de encontrar um caminho, de redimir um fracasso, de contar um sucesso, de relatar uma vida cheia de sacríficos e conquistas extraordinárias, e não têm um familiar ou um amigo que se queira maravilhar com as suas palavras. Os mais velhos têm tanta experiência e sabedoria para partilhar e o que faz a modernidade? Presta-lhe cuidados, faz umas coisas engraçadas, mas não tempo para os ouvir.
Mesmo a Igreja, e quando falo da Igreja falo de todos os cristãos, não pode deixar de comunicar com misericórdia. Diz o Papa: «Palavras e gestos duros ou moralistas correm o risco de alienar ainda mais aqueles que queríamos levar à conversão e à liberdade, reforçando o seu sentido de negação e defesa.» Seria bom evitar o tom sentencioso, o julgamento fácil e o moralismo frio, que facilmente andam na ponta da língua, e apostar mais na proximidade e na proposta de caminhos positivos para a vida.



publicado por minhasnotas às 11:32 | link do post | comentar

Partilho aqui convosco uma entrevista que o padre jesuíta Vasco Pinto de Magalhães (VPM) concedeu à rádio Renascença. Em tempos acompanhou jovens universitários, jovens candidatos ao sacerdócio e, ultimamente, dedica-se a acompanhar casais jovens e casais com filhos pequenos. Muito do que afirma vem de encontro à leitura e à perceção que tenho da realidade humana e social atual.

Começa por afirmar que hoje as pessoas «ajuízam sem refletir – têm opiniões! A cultura hoje é opinativa, toda a gente acha e não quer que ninguém a contradiga, porque a sua opinião é que vale, mas é tudo muito emotivo. Um emotivismo muito primário. A educação hoje – cá e também na Europa – não é crítica, é muito informativa e pouco formativa.». E, de facto, atualmente, estamos no tempo dos «achadores», que têm opinião para quase tudo, mas sem grande base para sustentarem o que afirmam e para perceberem a inconsistência do que afirmam, sem objetividade e rigor, porque as opiniões partem das emoções e não da reflexão e da racionalidade. Os jovens «vivem ligados ao computador, sabem tudo e não sabem nada, mas têm toda a informação à mão e isso dá-lhes a sensação de que não precisam de pensar. Por isso, penso que uma grande crise da Europa é a ausência de pensamento crítico. E, ainda por cima, não têm tempo e têm tanta informação que não conseguem organizar, nem codificar. Estou a identificar um défice que me parece muito forte e traz também muitas consequências e mal-estar na vida porque lhes dá uma certa sensação de auto-suficiência, mas que depois é muito vazia.» Isto é claramente notório na cultura da juventude atual (e de muitos adultos): limita-se a consumir passivamente a informação e tudo o mais que lhe é proposto e sugerido, seja nos hábitos, seja nos valores, sem grande capacidade de questionar, de refletir, de rebater, de pensar diferente. Tem pouca consciência crítica, o que não pode deixar de levantar muitas dúvidas sobre a qualidade da liberdade, da independência e da autonomia que a modernidade gosta de exaltar. Há um remédio para isto, que dá algum trabalho, mas dá bons frutos: «Cura-se criando momentos em que seja possível pensar – e pensar criticamente, ajudando a olhar para a realidade. Cura-se com a meditação, com a contemplação.»

Mais tarde ou mais cedo, será inevitável constatar que a vida está mergulhada num grande vazio e que se vive sem um sentido, e, por isso, nasce uma inquietação. Mas em vez de se enfrentar isto e de se lhe tentar dar uma resposta, o que é que se faz? Arranjam-se fugas enganadoras para diante, para se iludir a vida e não se enfrentar a vida com a profundidade, a verdade e a seriedade que ela merece. Fugir da realidade e da verdade. Diz VPM: «os spas, as férias aqui, as férias acolá, todo o espetáculo, toda a sociedade de divertimento, há toda uma superocupação que é enganadora, porque vai, vai, vai até bater. E depois, há muito sofrimento que atinge os limites. A pessoa cansa-se rapidamente do trabalho, cansa-se das relações, cansa-se da família, porque precisa de mais qualquer coisa, mas, como parece que, muitas vezes, a vida não está interiorizada – está vivida na superfície, no imediatismo, na emoção – isso tem consequências complicadas. Por um lado, andamos a fugir do sofrimento, mas vamos bater nele com toda a força e sem base para o enfrentar», percebendo que «o problema de fundo é exatamente viver com um sentido da vida, com perspetivas de realização profunda e não andar a fugir dos problemas, mas ser capaz de os enfrentar e de os superar.» É preciso enfrentar a vida de frente, buscar a verdade mais profunda da vida e tentar responder ao fundamental, sem fugir: quem sou? Porque existo? Quem me deu a vida? Por quê viver? Qual o sentido do que sou e faço? Para onde vou? Que sentido dar à vida? Podemos escapar-nos ou dar respostas fáceis, mas caímos num erro: «Pintamos as coisas bem pintadinhas, parece, mas depois há vazios muito angustiantes. Não é uma coisa tratável, é vazio interior, é falta de sentido, é a sensação de não ser amado.»



publicado por minhasnotas às 11:29 | link do post | comentar

Sexta-feira, 13.05.16

Após consultações nos países católicos e depois de dois sínodos, o Papa Francisco dirigiu a exortação «A Alegria do Amor» à Igreja Católica, sobre o amor e a família. Era aguardada com grande expectativa, depois da confrontação que se criou na discussão sinodal entre os habitualmente apelidados de conservadores, defensores férreos da indissolubilidade do Matrimónio e da tradicional configuração familiar, e os progressistas, que sem deixarem de apelar para o valor sagrado da união matrimonial, defendem a necessidade de se dar resposta aos matrimónios fracassados e de se propor para os esposos um caminho de integração plena na vida eclesial, com mais abertura e misericórdia e menos rigidez canónica. O Papa não disfarçou que estava deste lado. Certamente que se discutiram temáticas bem mais importantes, como vemos agora pela exortação, mas o acesso dos divorciados recasados à comunhão eucarística dominou a expectativa mediática à volta dos sínodos e esperava-se uma tomada de posição clara da Igreja. Em que ficámos, então?
A verdade é que, doutrinalmente, continua tudo na mesma. Não saiu nenhum decreto ou uma nova regra clara que permita o acesso dos divorciados recasados (homens e mulheres que casaram na Igreja, mas que se divorciaram civilmente e já contraíram um segundo casamento civil ou assumiram outra relação) à comunhão na Eucaristia. Para todos os efeitos, continuam em situação de pecado e por isso não se devem aproximar da comunhão. Mas, pastoralmente, não ficou tudo na mesma. Nesta exortação, o Papa Francisco aconselha menos inflexibilidade normativa e jurídica (mais importantes do que as regras e as leis são as pessoas) e mais misericórdia e ponderação e espaço para a consciência das pessoas (as normas são para iluminar e esclarecer a consciência, mas não para a substituir), porque «é importante fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja, que «não estão excomungadas» nem são tratadas como tais, porque sempre integram a comunhão eclesial». Há que ver caso a caso, porque «há casos em que a separação é inevitável. Por vezes, pode tornar-se até moralmente necessária, quando se trata de defender o cônjuge mais frágil, ou os filhos pequenos, das feridas mais graves causadas pela prepotência e a violência, pela humilhação e a exploração, pela alienação e a indiferença». E além do mais, «ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho!». O Papa deixa assim a porta aberta para o acesso à comunhão de divorciados recasados, que vivam uma segunda relação fiel e estável e que manifestem interesse pela fé cristã e empenho eclesial. O Papa não tem dúvidas de que «é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspetos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela.»
Convém não interpretar esta abertura como promoção do facilitismo ou cedência ao divórcio, como já se vai ouvindo e lendo. A Igreja estabeleceu um direito canónico (conjunto de leis e regras que regem a vida da Igreja) para indicar a todo o cristão católico o caminho da perfeição cristã e a vivência da fé cristã na sua plenitude. Todo o cristão católico deve respeitar e acolher as normas da Igreja com toda a sua exigência. Simplesmente, a partir de agora, fica estabelecido que quem tiver um fracasso e com seriedade procurar dar outro rumo à vida, não será marginalizado e não deixará de ter a porta da integração na Igreja sempre aberta. Convém também que as nossas comunidades cristãs se preparem para esta solicitude e para esta pastoral de integração, ultrapassando-se a etiquetação das pessoas, a segregação e a maledicência, e que a comunhão na Eucaristia deixe de ser vista como um prémio para os bem-comportados, pelo menos legalmente, como afirma o Papa Francisco: «a Eucaristia não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos». Jesus Cristo deixou a Eucaristia à Igreja para unir e não para dividir ou segregar. O caricato de tudo isto, muitas vezes, é que temos muitos casais ou cristãos que legalmente podem comungar e não o fazem e ficam escandalizados se os «leprosos» o fizerem, outros querem comungar, e possivelmente até o fazem com uma autenticidade que habituais comungantes não têm, e a Igreja não lhes dá esse direito. Bem razão tem o Papa: deixemos isso para a consciência de cada um, a não ser que algo de muito escandaloso esteja em causa.



publicado por minhasnotas às 10:49 | link do post | comentar

A organização dos nossos dias semanais tem uma clara influência religiosa judaico-cristã. Primeiro, foram os judeus a criar o Shabat (o Sábado), o sétimo dia, em que Deus descansou depois da obra da criação, numa leitura crente do mundo e da sua história, sendo ainda hoje o dia sagrado para o judaísmo, dia em que privilegiam a oração, a escuta da Palavra de Deus, a memória das maravilhas de Deus, o descanso, a família e a comunhão fraterna. Depois, após a ressurreição de Jesus, foram os cristãos a introduzir o Domingo depois do Sábado, o Dia do Senhor, dia em que Jesus ressuscitou, o oitavo dia, querendo assim manifestar que a ressurreição de Jesus foi a nova criação, o tempo novo, o primeiro dia da vida nova que Jesus Cristo (e n’Ele o homem) alcançou depois da sua morte. Reformularam-se os dias da semana e deu esta configuração que temos agora, sobrepondo-se o Domingo ao Sábado. Notemos as diferentes perspetivas entre judaísmo e cristianismo, que, de alguma forma, também são complementares: os judeus chegam ao fim da semana, os cristãos iniciam a semana. Segunda-feira já é segunda. O primeiro dia da semana é o Domingo, que absorveu o sábado como ponto de chegada da atividade semanal, que o homem contempla com júbilo, mas que é sobretudo ponto de partida. O Domingo é o encontro com Jesus Cristo e com outros para se aprofundar e projetar a vida para a frente, é alimentar o ir mais além e viver mais e melhor com os outros, a partir de Deus.
O Domingo tem assim um significado e um conteúdo próprios e uma importância fulcral para a dimensão religiosa e espiritual da pessoa humana, assim como para o seu enriquecimento e equilíbrio mental, social e humano. Costuma-se dizer que o homem trabalha para viver. Se seis dias (ou cinco) têm um objetivo concreto, que é o trabalho, um dia fica totalmente livre do peso do trabalho para o homem viver as outras dimensões da sua humanidade, para saborear a vida no encontro com Deus, com a família, com os outros, no descanso e no lazer, no convívio, na festa e em tantas outras ações lúdicas e deleitosas que favorecem a sua humanização e a celebração da vida (o Domingo também é o dia do homem). Para os cristãos é o dia sagrado: é o dia de Cristo, por isso se deve ir à missa, dia do dom do Espírito Santo, o dia da fé, o dia da Igreja, da esperança, o dia da alegria, do repouso e da solidariedade e comunhão fraterna. Enfim, o Domingo é o dia em que a vida e o tempo respiram e se procura viver e antecipar o que esperamos viver um dia em plenitude, a eternidade com Deus e com os outros.
Assim sendo, na sociedade atual, seria bom que o Domingo fosse um direito e um privilégio de toda a pessoa humana. Infelizmente, a sociedade do consumo e do lucro, que sobrecarrega a pessoa humana com excesso de trabalho, está, em parte, a destruir o Domingo, com graves consequências para a pessoa humana, para a família e para a sociedade. Não consigo compreender, por exemplo, a necessidade de os hipermercados estarem abertos ao Domingo e como é estranho ver pessoas a passarem horas e horas em hipermercados, quando outras coisas bem mais importantes se poderiam fazer. E quem diz os hipermercados, diz outros trabalhos e serviços que não se deveriam fazer ao Domingo. Por outro lado, seria bom lembrar aos cristãos que a santificação do Domingo não é só participar na Eucaristia dominical. Instalou-se uma certa ideia minimalista de que se «despacha» o preceito dominial em ir à missa e depois fica-se com o tempo livre para o que apetecer. Todo o Domingo é dia do Senhor e da Igreja, ou seja, para se dedicar ao Senhor e para se fortalecer a comunhão d’Ele com os seus discípulos e destes entre si. Todo o Domingo, no seio da família, das relações humanas e na diversão, deve ser vivido com espirito cristão, sendo por isso questionável muitos eventos e atividades e alguma diversão que se faz, que pouco ou nada têm de cristão. O Domingo também deve ser santificado pela reunião familiar mais alargada, em clima de alegria e de festa, pela oração familiar, por mais oração individual e comunitária, pela prática das obras de misericórdia, pela peregrinação a algum santuário, leitura da Escritura, catequese, convívio fraterno.
Alguns cristãos perguntam às vezes sobre o valor da missa vista pela televisão, e ainda bem que as rádios e as televisões o fazem. Não há nada que substitua o estar presente na Eucaristia dominical. O ver a missa pela televisão não serve para satisfazer a santificação do Domingo, mas é um bom meio e uma ajuda preciosa para se criar alguma comunhão com Deus e com a Igreja para as pessoas que estão acamadas ou gravemente doentes ou que sofram de alguma imobilidade. Jamais deve ser uma prática corrente para as pessoas que podem ir à Igreja. Seria desvirtuar o Domingo e os sacramentos da Igreja, assim como a vida. É completamente diferente ver um vídeo de um casamento e participar no casamento. Há uma diferença abissal e intransponível.



publicado por minhasnotas às 10:48 | link do post | comentar

O jantar tinha decorrido com serenidade, em amena cavaqueira, comentando-se de tudo um pouco, desde a política ao futebol, de vez em quando avivada por uma piada oportuna, que fazia nascer sorrisos nos rostos dos comensais, em alguns sonoras gargalhadas. Já refastelados nas cadeiras robustas, a maioria com as faces rubicundas, a atestarem o opíparo pitéu que foi servido, o chefe da casa, que reverentemente ficou na cabeceira da mesa, sugeriu:
- Vai agora um chupito para a malta?
- De preferência uma velhinha, e já cá devia estar - resmungou alguém do meio da mesa, piscando o olho e acotovelando levemente o comparsa da direita.
Depois do primeiro trago, retomámos as conversas soltas, que ainda aguçavam a conversação. À minha frente ficou um senhor, aí com setenta e tal anos, calvo até às orelhas, com barba grisalha farta, de voz suave e aragem espirituosa, que quando falava todos prestavam atenção. Reverente e sibilino, continuou:
- Pois é, pois é, a nossa democracia, se não arrepia caminho, entra em decadência, se já não está. Noto que a qualidade dos nossos políticos tem vindo a diminuir, os bons não estão para aturar o povo, que se habituou sempre erradamente a falar mal dos políticos, os medíocres e oportunistas lá arranjam um cursito e vão se safando…
- Rouxinóis e melros de horta sem pauta nunca faltaram - acrescentou o magricelas, de nariz aquilino e cabelo curtinho, que estava à sua esquerda, com olhos semicerrados.
-Bem – continuou - os interesses tomaram conta dos partidos, que pura e simplesmente fazem campanhas para tomar o poder, mas depois preocupam-se com a agenda dos interesses partidários e das sedentas clientelas, ter emprego e manter privilégios tornou-se prioridade em vez de se servir o povo com dedicação e competência, há uma torpe promiscuidade entre politica e negócios, há um preocupante decréscimo moral e cívico, em que cada um se procura safar segundo a lei do menor esforço, sem olhar a meios, sem qualquer preocupação pelo bem dos outros e do bem comum, a honra e a probidade estão quase esquecidas. Não acredito numa vida individual e social sem valores, sabe. O pior que nos pode acontecer é deixarmos imperar o reino do vale tudo.
Nada disto era novo, mas como persistia a olhar para mim, fui tentado a intervir:
- O poder e os seus vícios serão sempre sedutores e polémicos e não há regimes perfeitos - redargui eu, com voz professoral e mão no queixo.
- Mas sabe, senhor padre – continuou o senhor da barba grisalha – o que mais me custa é o desperdício de possibilidades e oportunidades que temos à nossa frente. Quando vivíamos em ditadura, quantos lamentos não escutei de que não se podia fazer isto ou aquilo, ser isto ou aquilo, que podíamos ser outro país, com mais liberdade, justiça, igualdade, educação, paz, proclamámos que nos uniríamos para construirmos um país desenvolvido e moderno e já lá vão quarenta anos de democracia e somos um país permanentemente adiado, não nos conseguimos unir a sério, nem instaurar um desígnio para darmos um rumo certo ao país.
- Já reparou - argumentei eu, pensativo - que quando se vive em guerra ou ditadura, em que há um inimigo que está bem definido, é mais fácil mobilizar as pessoas? Quando cessam os bichos papões e as ameaças e regressa a paz e a liberdade, ficamos um pouco perdidos sem saber o que fazer com elas. Mobilizar as pessoas para um fim nobre torna-se uma tarefa hercúlea. Infelizmente, acabamos por estragar tudo, deixando prevalecer o regime dos interesses e a libertinagem, que não é liberdade.
- Todos querem fazer grandes coisas, mas no fim queremos sempre caminhos fáceis e que sejam os outros a tomar a dianteira – prosseguiu. Outra coisa que me custa muito é ver agora alguns figurões, que noutros tempos foram lambe-botas e sabujos da ditadura, a alardear o seu amor à democracia e à liberdade e com que destreza o fazem. Claro: as ideias e as convicções compram-se e vendem-se, não é verdade? O que importa é estar sempre perto do poder, para que os seus mui nobres interesses não fiquem adiados. E a Igreja, que me diz da Igreja? Não lhe parece estranho um Papa tão consensual?
- É um bom Papa – respondi eu – trouxe de novo o Evangelho para o centro da vida da Igreja e está-se a impor pela sua simplicidade, proximidade e frontalidade.
- Um Papa tem de ser alguém que nos ponha a pensar e não só alguém que nos impressione pela candura dos seus gestos e palavras, embora também seja importante – ripostou. Acho que a Igreja deitou fora depressa de mais o inferno. Boa parte da minha catequese e da minha prática cristã nasceu do medo do inferno, com que nos aterrorizaram na infância e na adolescência. O padre da minha terra até era bom homem, mas os seus sermões eram medonhos. Se aquilo era Boa Nova… Bem, agora parece que se passou para o oitenta, Deus perdoa tudo, Deus é só misericórdia. Não acredito na misericórdia sem exigência e emenda e de certo que vai ter de haver justiça. Se assim não for, deixamos de levar a vida a sério. O que o inferno nos ensinava era que na vida não vale tudo, é preciso viver com exigência ética e moral. Um homem sem ética não vale nada. De vez em quando ainda gosto de ir à Igreja, porque acredito em Deus e tenho necessidade de pensar.
- Talvez se tenham cometido alguns excessos, é verdade – retorqui - e convém lembrar que a misericórdia de Deus, de facto, exige conversão e compromisso. Fico admirado é que, de facto, nos tempos em que se exagerava a falar de pecado e inferno e se propunha uma disciplina rigorosa, as igrejas estavam cheias, agora que se acentua mais, e bem, a dimensão amorosa e misericordiosa de Deus, parece que estamos a relaxar no cumprimento dos nossos deveres e na exigência moral. O deus do medo parece sobrepor-se ao deus do amor.
- Vocês, padres, nas homilias, falam muito da fé, e não tenho dúvidas de que muitas pessoas vão à igreja porque têm mesmo fé, mas há três causas que têm muita força na prática religiosa: o medo, a necessidade e o consolo, não esquecendo também o ir com os outros.
- Em parte concordo – redargui – basta ver que, em tempos de guerra ou penúria, aumentam os fiéis.
- Não defendo que falem do inferno como no meu tempo, mas vão lembrando às pessoas que, de certo, existe e que a vida não poderá deixar de ter um crivo, um dia. Há um sério problema ético e uma falta de respeito pelo ser humano atualmente, que é de bradar aos céus. Face aos níveis de devassidão e imoralidade a que estamos a assistir, penso que não será demais lembrar que vamos ter de prestar contas.
- Só mais um chupito para irmos embora? – propôs o chefe da casa.
- Nem mais - anuiu um cinquentenário, que tinha estado impávido e sereno.
Boa noite, meus senhores. Até outro dia.



publicado por minhasnotas às 10:40 | link do post | comentar

Terça-feira, 29.03.16

No dia 19 de Fevereiro, na sua casa em Milão, morreu Umberto Eco, com 84 anos de idade, já há vários anos a lutar contra um cancro no pâncreas. Era um grande intelectual italiano, diria mundial, da velha guarda (segundo muitos, dos poucos que ainda existem), professor universitário, escritor, filósofo, ensaísta, romancista, linguista, crítico literário, investigador e leitor obstinado e insaciável, considerado pelo jornal italiano La Reppublica «o homem que sabia tudo». De carácter, era bem-humorado, irónico quanto baste, muitas vezes desconcertante, e polemista cativante, quase imbatível, pela sua capacidade argumentativa e reflexiva, mas, sobretudo, pela erudição. Religiosamente, tornou-se ateu, depois de ter concluído a sua tese de doutoramento sobre a estética de S. Tomás de Aquino, não culpando, no entanto, este grande pensador da Igreja. Mas não deixou de ter uma relação franca e cordial com algumas figuras da Igreja e era estudioso da Bíblia.
Morava num duplo apartamento na zona turística de Milão, servindo um deles de biblioteca e escritório, atafulhado com pelos menos 50 mil livros, segundo as suas contas. Demorava 6 a 8 anos a escrever os seus romances, fascinado pela conspiração delirante, pelo falso, o esotérico, o fantasmagórico, as ciências ocultas, as sociedades secretas, a magia, a bruxaria, o hipnotismo. Era um apaixonado pela estupidez humana, como gostava de afirmar a sorrir, com o charuto ou a cigarrilha apagada num canto da boca. Foi pena não ter estado em Montalegre, onde poderia ter recolhido dados interessantes para algumas páginas dos seus romances ou comido uma posta demoníaca feita por alguma bruxa malparida decrépita, acompanhada com queimada espantas espíritos, revisitando a obscura e malfadada Idade Média. Estava na lista, mas nunca recebeu, incompreensivelmente, o prémio nobel.
Recomendo-vos os seus romances. «O Nome da Rosa» foi o que o catapultou para a ribalta, logo no início da sua carreira literária, mas tem outros muitos bons. Muito boas são também as entrevistas que foi dando a revistas e jornais, de que me sirvo para deixar algumas frases marcantes da sua reflexão. Numa das suas últimas conferências, defendeu que a ética vai passar por maus tempos: «Qualquer doutrina moral consiste em apresentar um modelo de comportamento que cada um de nós deve tentar imitar. Daí a função modeladora do santo, do sábio, do guru, do herói. Agora, acontece que a televisão tende cada vez mais a apresentar como modelos pessoas normais, de tal modo que não há esforço nenhum em sermos iguais a eles. Nós queremos ser como eles porque eles receberam a graça de aparecer na televisão. Em muitos casos haverá pessoas que se tornam modelos não por causa do seu comportamento normal, mas antes por causa dos seus pecados espetaculares (desde que estes pecados lhes tenham dado visibilidade e sucesso). Assim, a Monica Lewinsky será um modelo mais forte (e mais fácil) do que a Florence Nightingale ou a Madre Teresa de Calcutá. Por isso mesmo o sucesso ético (a procura do Bem) não terá em breve qualquer ligação com a procura da virtude, mas apenas com a luta para ser visto." Reparem como isto é tão clarinho na sociedade em que vivemos.
Sobre a internet, defendeu que se verifica o fenómeno da imbecilização da sociedade, e afirmou sem papas na língua: «As redes sociais têm gerado uma invasão de imbecis, a quem dão o direito de falar a legiões de imbecis. Antes apenas falavam no bar depois de um copo de vinho, sem prejudicar a comunidade e agora têm o mesmo direito de falar que um prémio Nobel. É a invasão dos tolos». «A internet está cheia de falsidades e o grande problema é a capacidade de filtrar o que é verdade. E o excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar.» «É impossível pensar o futuro se não nos lembrarmos do passado. Da mesma forma, é impossível saltar para a frente se não se der alguns passos atrás. Um dos problemas da atual civilização - da civilização da internet - é a perda do passado.»
Quanto aos gostos e à superficialidade da sociedade atual, basta ver o sucesso que teve um livro e um filme sobre fantasias sexuais nos últimos tempos, afirmou: «Creio que quem enche os livros de sexo (e a vida, diria eu) é porque tem pouco na sua vida.»
Ultimamente, foi muito crítico com algum jornalismo errante que se pratica atualmente, que vive de falácias e de meias verdades, da manipulação histórica e noticiosa, de pendor sensacionalista, mexeriqueiro e difamatório. «Houve um homicídio em Lisboa, passados dois dias outro no Porto, no mesmo dia outro em Finisterra. Bem, é normal estatisticamente que haja homicídios. Mas colocá-los todos na mesma página, é dar uma notícia falsa, como se exista uma epidemia de homicídios, o que não é verdade».



publicado por minhasnotas às 12:15 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Já lá vai mais de meio ano que a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima passou por Barroso. Foi um acontecimento memorável, como já o tinha sido em 1954, certamente que com outra participação e com outros números (estes pouco importam). Alguns cristãos não resistiram a fazer comparações, mas os tempos são completamente diferentes: em 1954, Barroso tinha mais de trinta mil pessoas, foi tudo centralizado na Vila de Montalegre, o fervor por Fátima estava no seu auge, a vivência religiosa tinha outros predicados que hoje não tem. Sessenta e um ano depois, a realidade é outra: Barroso terá pouco mais de dez mil pessoas, a imagem peregrinou por vários centros e santuários, a vivência religiosa é difusa e frouxa.
Ainda assim, Barroso esteve à altura, mais uma vez, desta visita inesquecível e desta odisseia mariana por todas as terras de Portugal. Os pergaminhos de Barroso notaram-se: colaboração, entreajuda, hospitalidade, generosidade, respeito e piedade. Em todos os lugares por onde passou, Maria foi aclamada e acolhida por multidões, não havendo a menor dúvida de que Nossa Senhora tem grande devoção e continua a ter um lugar especial no coração do povo barrosão. E assim o merece, por tudo o que contribuiu para a salvação da humanidade. Por todas as dioceses por onde anda a peregrinar, está sempre a ser acolhida por multidões, que a recebem com emoção, afeto e encanto.
Mas, nem tudo são rosas. Ainda continuo a digerir e a refletir sobre o significado desta visita às comunidades cristãs de lés a lés de Portugal. Duas perguntas persistem nas minhas lucubrações: porque é que estas multidões de cristãos não se veem ao Domingo? A devoção a Maria, reforçada com tantas aparições em vários países, não se estará a tornar em mariolatria sem Cristo?
Quanto à primeira pergunta, nunca me iludi, nem deixarei iludir por multidões de motivação religiosa, que, por norma, têm muito mais de folclore religioso do que de verdadeira fé. Jesus diz-nos isso sabiamente nos Evangelhos. E vai mal a Igreja se se deixa iludir também. A impressão que fica é que temos, em Portugal, uma grande maioria de cristãos que vive a sua fé de forma convicta, esclarecida e comprometida com Cristo e com a Igreja, mas não é verdade. A realidade da Igreja, atualmente, vê-se ao Domingo e é bem diferente: a prática cristã é fraca, em muitas comunidades há grande absentismo, desistência cristã e indiferença, uma falta de compromisso gritante com os sacramentos e com a comunidade, na sociedade há uma clara falta de intervenção e militância católica, a doutrina da Igreja e a moral cristã já pouco importam para um bom número de ditos cristãos. O que eu esperava desta visita de Nossa Senhora às comunidades, e acho que é o seu melhor fruto, era que muitos cristãos indiferentes despertassem para uma vivência consistente e coerente da sua fé e se pusessem de novo a caminho com Cristo e para a comunidade, mas não vejo isso acontecer. Fica-se tudo, mais uma vez, na pobreza do sentimentalismo momentâneo e na instalação da frivolidade cristã.
Quanto à segunda pergunta, penso que com uma sobrevalorização das aparições marianas se pode cair no perigo da mariolatria. Em primeiro, convém lembrar que Maria merece toda a devoção do povo de Deus, porque é mãe de Deus e mãe da Igreja, mas jamais deve ser adorada. Embora conduzida por Deus a um privilégio impar e a uma condição única, não deixa de ser uma mulher igual às outras mulheres. O que mais nos deve seduzir nela é forma admirável como se disponibilizou diante de Deus e se submeteu à sua vontade. Maria impõe-se pelo seu exemplo e não pelos seus poderes milagrosos, que nunca teve. Em segundo lugar, costuma-se dizer, e bem, que Maria é o melhor caminho para chegar a Cristo. Mas o que se vê, afinal, é que muitos cristãos não querem chegar a Cristo, mas simplesmente ficar em Maria, onde sempre poderão dar azo a uma vivência religiosa mais sentimental e protetora, ao sabor dos interesses e conveniências pessoais. Um culto mariano assim está errado. Sem compromisso com Cristo e com Igreja não tem sentido a devoção a Maria.



publicado por minhasnotas às 12:10 | link do post | comentar

Terça-feira, 01.03.16

Ninguém terá dúvidas em aceitar que vivemos num nível de civilização muito bom, ou, pelo menos, razoável. Ainda há muitos progressos a fazer, no campo dos direitos e dos deveres humanos (seria bom que se falasse dos dois ao mesmo tempo), da justiça social, da igualdade, do trabalho, da educação, da saúde, dos direitos individuais, das oportunidades, mas o que já se alcançou até agora é assinalável. Mesmo uma pessoa pobre pode viver com o mínimo de dignidade. Temos hoje ao nosso dispor uma oferta de bens, produtos e serviços que nenhuma outra sociedade teve. A conclusão é óbvia: temos uma sociedade que vive com altos índices de satisfação, realização e felicidade. Mas, não é bem assim.
Vários estudos e relatórios de entidades portuguesas, de inquestionável competência e seriedade, que não vou nomear, traçam um cenário mais núbio e complexo da sociedade portuguesa. Reparem nestes dados: o suicídio aumentou 16 % no ano de 2014, com maior incidência sobre as mulheres. Os homens continuam a ser a esmagadora maioria, com grande ocorrência nos idosos, mas está a subir nas mulheres jovens. Estudiosos afirmam que o número ainda será superior, o que nos faz integrar o grupo dos países com mais suicídios no mundo, apesar de sermos um país do sul da Europa, região onde se registam menos suicídios. A faixa etária onde se registou o maior aumento foi entre os 55 anos e os 64 anos. Um em cada cinco portugueses vive com sofrimento psicológico. 23 % sofrem de doenças mentais, sobretudo perturbações depressivas e ansiedade, a mais alta da Europa. Andar em psiquiatras tornou-se um hábito. Aumentou o consumo de antidepressivos e de tranquilizantes, assim como do álcool, sobretudo da parte das mulheres, dos idosos e das pessoas com menos escolaridade. Concluímos, assim, pungentemente que uma boa parte do Portugal profundo vive com sofrimento psíquico e está envolta num turbilhão de tristeza, nervosismo, insatisfação e desespero.
São dados que não nos podem deixar indiferentes. Um bom número de portugueses não vive, mas sobrevive na angústia e com grande desconforto, sem esperança, sem alegria de viver, sem um sentido, sem prazer e felicidade. Chega-se mesmo ao ponto de não ter qualquer razão para continuar a viver, sem qualquer amor por nada nem por ninguém. Relativamente às causas desta tempestade melancólica e depressiva, seremos lestos em apontar o arrastamento da crise económica, as permanentes dificuldades económicas, o desemprego crónico, que estão a fazer regredir a qualidade de vida e a promover a decapitação de perspetivas e desafios para o futuro. É inegável que a crise económica tem um peso muito grande nesta desesperança. Mas seria redutor ficarmos só por aí. Há pessoas pobres que não perderam o entusiasmo e a alegria de viver. Há outras causas mais profundas.
A verdade é que muitas pessoas, hoje em dia, vivem num grande vazio existencial. Têm como grande objetivo de vida atingir um certo nível de bem-estar e gozar uma série de prazeres mundanos considerados sagrados para se ser feliz. E deixou-se de pensar a vida para além disto. Quando a segurança material cai, fica-se perdido numa encruzilhada, sem saber que rumo dar à vida. Estamos a perceber assim que reduzir a vida ao bem-estar, ao materialismo e ao hedonismo (prazer e menor esforço) leva-nos para um beco sem saída e chegamos à penosa conclusão de que a vida está construída com alicerces de areia. Temos de abordar e pensar a vida de outra maneira, com horizontes mais largos e com outra profundidade, que o pensamento curto atual não tem. Decretou-se que a fé era anacrónica, que a religião era uma perda de tempo e um passatempo de beatos e beatas, o tema de Deus passou a suscitar a maiores objeções, deitou-se fora o saber e a sabedoria milenar de santos e santas e das tradições religiosas, excomungaram-se a doutrina e a moral religiosas, calou-se a consciência, desprezou-se a espiritualidade sã e a interioridade humana, a troco de quê? Nada ou quase nada. Lá diz o cântico: «não é fome de pão, não é sede de água, são razões de viver, o que nos falta».



publicado por minhasnotas às 10:35 | link do post | comentar


Pelos vistos, vivemos tempos de desencanto e indiferença. Criámos um ser humano saturado de tudo, abúlico, acrítico, farto de tudo, sem vontade e motivação para se entregar a convicções, sãs utopias e causas e lutar por metas e objetivos pessoais e sociais, que não sejam os imediatos, que foge da exigência e do esforço, anestesiado pela vida fácil e divertida, obviamente, não generalizando. Daí que se ouçam com muita frequência já muitos psicólogos, analistas sociais, pedagogos, educadores, bem como pais e peritos mestres da motivação, a incitar à cativação e à sedução. É preciso organizar operações de sedução às crianças, aos jovens, às pessoas em geral para tudo e mais alguma coisa, senão ninguém as arranca do desinteresse, do marasmo e da modorra espiritual e intelectual em que alegremente ou, diria, pobremente vivem. As pessoas desinteressaram-se da política porque os políticos não cativam, daí, dizem, o número vergonhoso da abstenção. As pessoas afastaram-se da Igreja porque a Igreja não cativa. Presidentes e orientadores de associações, instituições e movimentos e lançadores de iniciativas vão afirmando que há um absentismo generalizado e uma grande desmotivação, o que mais se vê é pessoas desinteressadas e esquivas. O admirável mundo da indiferença!
Que ser humano temos andado a construir? Será que estamos a chegar ao esperado ponto final da sociedade do bem-estar e da diversão, que não poderia produzir senão um ser humano passivo, amorfo, entediado e enfastiado por ter tudo e não ter conquistas para alcançar? O que mais me espanta nisto tudo é que, pelos vistos, as pessoas estão ocas por dentro. Não têm um ideal de vida consistente, que procuram atingir, para além dos interesses individuais, a não ser os fúteis que a cultura dominante propõe. Não têm convicções e um programa ou um projeto de vida. Não têm códigos de conduta e de moral claros, que as façam vencer o hedonismo imediato e a conveniência, respeitando a fidelidade a compromissos. Não têm objetivos nobres para si e para a sociedade, que as leve a gastar uma boa parte do tempo da sua vida a se dedicarem aos outros e a transformar e a renovar a sociedade. Bastava que muitas pessoas tivessem um pouco disto e são seria preciso andar a toda a hora com a palavra cativação na boca.
Se é verdade que a nossa educação e formação se aprimoraram nalguns conteúdos e nalgumas estratégias, de comprovada eficácia, também temos de dolorosamente concluir que ainda estão imersas numa grande vacuidade, que a médio e longo prazo terá um grande preço. A escola e a família não se podem preocupar apenas com a instrução de conhecimentos intelectuais, com o bem-estar e com o exercício de um ofício para se assegurar a estabilidade de vida. O importante é formar um ser humano responsável, comprometido, ativo, crítico, audaz, que procure dar mais do que receber, que procure ser inovador e enriquecedor para a sociedade, que procure com grandeza e nobreza a realização da sua humanidade e a dos outros, que procure ver e ir sempre mais longe, numa obstinada superação de si mesmo. Eduquemos e formemos melhor, para não termos de passar o tempo a dizer que é preciso cativar.
Natalidade
No ano de 2015, registou-se uma ligeira melhoria dos nascimentos em Portugal. Lembro que somos o sexto país mais velho do mundo e temos a mais baixa natalidade da Europa. A natalidade é um tema de elevada importância. Está em causa o equilíbrio, a sustentabilidade e o futuro da sociedade portuguesa. Custa ver como os sucessivos governos não atacam de forma firme e determinada o problema, apenas lançando pequenos incentivos ou ténues medidas corretivas. As Câmaras estão a dar melhor exemplo. O problema não tem uma solução fácil, mas já era tempo de se ir fazendo caminho, como repensar urgentemente na cultura do trabalho, nos horários de trabalho e na liberdade que a mulher ou a família em si pode recuperar e não me interpretem mal neste tema. Muitos casais também podem ir mais longe, sendo questionável a indolência e a submissão aos valores frívolos que hoje imperam. Eu já teria tomado algumas decisões, por pífias ou insuficientes que possam ser: não deixar que uma mãe chegue a casa às onze horas da noite e tenha que entrar no emprego às seis ou às sete da manhã, pelo menos nos primeiros anos da criança; impor as 19 ou as 20 horas a todos os serviços e comércios; libertar o fim de semana para a família; dar uma remuneração a uma mãe desempregada, que quisesse criar outro filho, dinheiro muito mais bem empregue do que alguns apoios e subsídios que criam parasitas e alimentam vidas inúteis; aumentar os abonos e outros apoios às famílias. Venham outras.
Sexualidade
Nesta sociedade erotizada e pansexualista em que vivemos, a maior parte das vezes, sobretudo nos media, em que se fala de sexualidade não é pelas melhores razões. Ou é para se falar da sensualidade de uma mulher impúdica, ou de estados de ninfomania e de satiríase, ou de desvios e abusos. O tema da sexualidade parece, assim, um tema estranho, confuso, perverso, vergonhoso, incómodo. A sexualidade faz parte da vida, não é um tabu nem um tema amaldiçoado. Exige formação e educação. Seria bom, sobretudo na família e na escola, que se fale e apresente a sexualidade de forma positiva, saudável, responsável, humanizadora, casta, para além das muitas vivências erradas dela que a sociedade mais publicita.



publicado por minhasnotas às 10:34 | link do post | comentar

Segunda-feira, 21.12.15

Já a celebrarmos o Jubileu da Misericórdia na vida da Igreja, proclamado pelo Papa Francisco desde o dia 8 de Dezembro até à festa de Cristo Rei do próximo ano, e em pleno Advento, tempo de preparação para o Natal, deixo-vos aqui o testemunho do nosso atual selecionador nacional, Fernando Santos, um homem de fé. Sirvo-me da sua entrevista ao Jornal Expresso, no dia catorze de Novembro, e da sua participação no ciclo de conversas sobre Deus da distinta jornalista Maria João Avillez, na Capela do Rato, em Lisboa. Hoje falam mais os testemunhos e os exemplos, aliás, como sempre, do que as homilias ou a oratória arrebicada. O nosso povo assim o confirma: ainda mal começou a missa ou a homilia e já há bocas a bocejar. Estar ali e não estar significa quase a mesma coisa. Bem, cala-te boca. Com que motivação vão os nossos cristãos à Igreja? Deixemos isto para outro dia.

Vejamos o percurso da sua fé. Nasceu numa família tradicional de Lisboa, que acreditava em Deus, mas sem grande fervor religioso, sem prática cristã, que se limitou a cumprir a tradição: batizou o filho e fê-lo entrar tardiamente na catequese. Por causa de um pequeno atrito com o seu catequista numa peça de teatro, abandonou a catequese e a Igreja e nunca mais voltou. «Saí como entrei». Mais tarde casou pela Igreja, de que gostou da preparação, batizou os filhos, mas continuou desligado da vida da Igreja. Entretanto, acontece um primeiro momento decisivo, em que algo começa a mudar: foi com a filha à preparação do Crisma e ficou inquieto com o que ouviu, não compreendia, mas sentiu necessidade de compreender (o Deus castigador, o pecado...). Passados uns dias, foi a uma inauguração, onde estava um padre que lhe pediu boleia. Pediu-lhe uma conversa para falarem sobre a fé. Assim aconteceu, combinaram um almoço e o padre ofereceu-lhe o livro «A Fé Explicada». Começou assim um tempo de maior esclarecimento e de aproximação a Deus e à Igreja. Começou a ir à Missa com a esposa, mas ainda não tinha um grande envolvimento na vida da Igreja e a fé ainda não o tinha tocado. Até que surge o momento determinante: foi despedido do Estoril, clube que serviu vinte anos como jogador e treinador. Ao chegar a casa, visivelmente chateado, estava um casal amigo à sua espera. Para além de o confortar, o casal fez-lhe ver que chegou a hora de participar num curso de cristandade, convite que era sempre recusado. Desta vez, aceita. Julgando que iria descansar três dias, acabou por realizar a grande reviravolta da sua vida: nas suas palavras, encontra o Cristo vivo e ressuscitado, abraça definitivamente a fé e passa a participar ativamente na vida da Igreja.

Hoje, é um cristão convicto e comprometido, é um homem de oração diária, lê as leituras do dia logo pela manhã, participa na missa diária sempre que pode e não prescinde da missa dominial onde quer que se encontre. Gosta de rezar preferencialmente diante do Sacrário e anda com uma cruz no bolso, na qual se refugia, sobretudo, nos momentos difíceis da vida. Tem S. Paulo como figura inspiradora e personagem bíblico de eleição, pelo seu amor apaixonado por Cristo, pela sua frontalidade e profundidade do que diz. E não é para mais: ambos tiveram o seu caminho para Damasco e o encontro decisivo com Cristo ressuscitado, que lhes abriu os olhos para a fé e mudou radicalmente as suas vidas. Fernando Santos sentencia: «encontrar Cristo foi a maior sorte da minha vida».

É um testemunho que não nos deixa indiferentes, até mesmo a um padre. Sou um grande admirador das pessoas apaixonadas, que se envolvem a sério e com tudo nas opções que tomam. Podem andar um tempo à procura, mas quando encontram, mergulham totalmente, dão tudo por aquilo em que acreditam e vivem-no a sério. São estas pessoas que arrastam o mundo. Ele mesmo já o experimentou, quando recebeu uma carta de um senhor de Guimarães a informá-lo de que o seu exemplo o tocou, quando o viu a fazer a via-sacra em Fátima, às sete horas da manhã, passando, assim, a dar mais valor à sua fé.

Estamos a viver o Jubileu da Misericórdia na vida da Igreja. As portas da misericórdia de Deus, que a seu tempo saberão onde se encontram, abrem-se para todos aqueles que, definitivamente, se querem converter a Deus e começar a viver d’Ele e do seu amor. Muitos cristãos, infelizmente, só ainda ficam na porta da fé, não entram para ver as maravilhas que a casa do Pai oferece, como fez Fernando Santos. Durante este ano, não percam a oportunidade de se reconciliarem com Deus e com a Igreja e dar um rumo verdadeiramente digno e santo à vida.



publicado por minhasnotas às 12:19 | link do post | comentar

Já repararam que aproveito este espaço, que agradeço ao digníssimo diretor deste nobre jornal, para oferecer um pouco de doutrina, formação e cultura religiosa católicas, porque vou encontrando lacunas, mal-entendidos e desvios sobre a fé cristã. São os artigos que me dão mais gozo. Comentar a atualidade, e que rica, aterradora e complexa ela está, por vezes, é um trabalho insípido, porque a realidade está sempre em acelerada mutação. Fica sempre a sensação de que andamos atrás do efémero. Há que dar mais importância ao que é sólido e traz firmeza e formação à vida. Faço-o a partir da minha pobreza e auxiliado pela minha preciosa instrução e pelas minhas amantes (tenho algumas, não digam nada, uma delas é a leitura). Bom proveito.

A doutrina do pecado original vai merecendo alguns reparos de teólogos e pensadores cristãos e não cristãos. Alguns já quase a rejeitam, condenando a importância excessiva na doutrina e no pensamento da Igreja, outros reinterpretam-na com alguma consistência (vale a pena ler o que vai saindo, numa releitura dos difíceis e polémicos primeiros capítulos do Livro do Génesis, com o contributo do pensamento cientifico), outros ainda reafirmam a sua validade. Para todos os efeitos, ainda não foi revogada pela Igreja e continua em vigor. No ritual do batismo, está lá muito bem claro: «Deus todo-poderoso e eterno, que enviastes ao mundo o vosso Filho para expulsar de nós o poder de Satanás, espírito do mal, e transferir o homem, arrebatado às trevas, para o reino admirável da vossa luz, humildemente Vos pedimos que esta criança, libertada da mancha original, se torne morada do Espírito Santo e templo da vossa glória.»

O que é que queremos dizer, afinal, com o pecado original? Aqui original significa o pecado que vem das origens, do início da humanidade, pecado que inquinou a história do mundo e do homem, que transformou a natureza do homem e das coisas. Que pecado foi esse?

O projeto inicial de Deus em relação ao homem foi que este alcançasse a plenitude integral do seu ser numa relação de amor e de vida com Deus. O homem seria o interlocutor livre, que livremente responderia ao convite livre do amor de Deus, para ambos viverem em comunhão e aliança.

Mas, ao convite de Deus, o homem respondeu com desprezo e rejeição. Julgou que esta aliança seria uma servidão e uma dependência. O homem decidiu não viver de Deus, que, como seu criador, seria a fonte da sua vida plena, e escolheu seguir o seu próprio caminho, dispor de si mesmo e da sua vida como muito bem entendesse, sem depender de nada nem de ninguém (não é esta tentação diabólica que anda sempre de nós?). Da harmonia sonhada por Deus entre a sua vontade e a vontade do homem, resultou uma cisão trágica entre as duas vontades.

Esta rutura com Deus revestiu-se de um caráter dramático: por orgulho e iniciativa do homem, o mundo começou a ser construído contra a vontade de Deus, e assim a realidade do pecado e do mal contaminaram o mundo e todo o desdobramento cultural da existência humana. O veneno do mal e do pecado passou a inquinar toda a história humana. Quebrou-se de modo irreversível a comunicação e a comunhão entre Deus e homem. Este desviou-se tragicamente da verdade que estava inscrita na sua natureza, alienando-se do seu ser mais autêntico, procurando a verdadeira vida onde ela não está, em si mesmo ou nos muitos sucedâneos que ele inventa para a encontrar. A negação da comunhão e da relação com Deus implicou uma outra forma, deteriorada, de se relacionar consigo mesmo, com o outro e com a criação. O homem torna-se estranho a Deus, tornando-se estranho a si mesmo. A história humana foi assim indelevelmente marcada pela presença do pecado, que corrompe o homem, o afasta de Deus e o vira contra si mesmo, contra os outros e contra a criação.

Por pecado original não queremos isolar ou identificar um pecado concreto, que exista em estado puro, de forma abstrata e irreal, ou uma força malévola que influencia o ser humano, mas afirmar que a nossa história humana está marcada pela presença do mal e queremos destacar o ambiente, o espaço vital, o estado nocivo da humanidade em que nasce cada ser humano, estado que o corrompe, que o diminui e aliena, não o deixando ser o homem que deve ser, em comunhão com Deus, com os outros e com a criação.

Podemos ver manifestações do estado nocivo da humanidade em situações concretas, tanto pessoais, como estruturais e sociais: nas injustiças, violências, marginalizações, no ódio destruidor, na vontade pura de domínio e de poder, na avareza humana, no orgulho, no egoísmo, nas ideologias totalitárias, na sobrevalorização das coisas em relação à pessoa humana, que uma sociedade de consumo gera, a exploração e degradação do homem que a economia do lucro origina, a destruição da natureza, a ciência manipuladora e mortífera, entre outras. Todas estas situações alienam o homem, ou seja, privam-no do seu ser verdadeiro. O homem, chamado ser homem e a ir mais além de si mesmo, fica abaixo de si mesmo. Dentro de nós mesmos, não podemos deixar de experimentar ainda, mesmo depois de batizados, um grande dilema e uma grande tentação e divisão: queremos fazer o bem, mas experimentamos uma atração para fazer o contrário. Ainda estamos feridos no nosso ser profundo e somos facilmente influenciados pela cultura e pelo ambiente pecaminoso em que nascemos. Como disse Bento XVI, «todos trazemos dentro de nós próprios uma gota do veneno, chamado pecado original».

O pecado e o mal entranharam-se de tal maneira na mentalidade e na cultura humana, que o homem, só por si, se tornou incapaz de os vencer. Tornou-se necessária uma redenção, uma libertação desta servidão, esta sim, uma servidão a sério, para o homem recuperar a sua dignidade e a sua vocação, redenção que seria ao mesmo tempo uma recriação do homem, do mundo e da história, redenção que certamente já estaria nos planos de Deus. Criar o homem livre teria os seus riscos.

Deus envia o seu Filho ao mundo. Pela sua morte e ressurreição redimiu e deu vida nova (salvação) à humanidade, colocando-a na senda do projeto inicial de Deus. Diz Bento XVI: «A ressurreição de Jesus Cristo significa precisamente a libertação desta servidão, desta e de todas. Aceitar Jesus Cristo, na fé, e dispor-se a segui-lo, significa aceitar que com Ele saímos da opressão do pecado e do mal e vencemos a alienação interior que não nos deixar ser o que de verdade devemos ser, que impede a nossa realização plena e que alcancemos o nosso verdadeiro destino.»



publicado por minhasnotas às 12:18 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Estamos no mês de Novembro, em que se ouve muitas vezes que é um mês para se sufragar as almas dos defuntos e se rezar pela salvação dos falecidos. Sobressaltou-me a pergunta: que ideia fazemos da salvação? Saberão muitos cristãos qual é a salvação que a fé cristã anuncia e oferece ao mundo?

A palavra em si, salvação, tem dois grandes significados: em sentido corrente, significa libertar de um perigo que ameaça a vida (religiosamente, uma escravidão ou uma perdição). Mas também significa dar saúde, fazer com que o homem viva bem, viva são e salvo, de boa saúde mental, física e espiritual, fazer com que o homem se realize a partir da sua verdade mais profunda e genuína: como pessoa humana, e na fé, como filho de Deus.

O significa mais enraizado é o primeiro. No entanto, reparo que muitos cristãos têm uma ideia muito incompleta e pobre, uma ideia parcial da salvação. Escutamos: fazer isto ou aquilo para «salvar a minha alma». É errado dizer isto e viver a fé cristã a partir desta convicção. É uma visão individualista e desencarnada, com desprezo pelas dimensões comunitária e corpórea do ser humano, que não existe na doutrina e na vivência do Cristianismo. Certamente que temos a nossa responsabilidade na nossa salvação, mas tem de ser integrada noutras dimensões. Também se ouve com frequência: «o que importa é evitar o pecado, para não sermos condenados». Que visão tão pobre e negativa da salvação! Entende-se a salvação a partir do inferno e não do céu. Ainda andam por aí muitos resquícios desta doutrina e desta espiritualidade deformada que se entranhou no espírito de muitos cristãos, que fomentou o calculismo, o legalismo e o mero cumprimento formal de regras na vivência cristã, disseminando a ideia de que para se salvar o que importa é ter a documentação em dia. Devia dizer-se: «o que importa é amar e fazer o bem, para um dia se estar em comunhão plena de amor com Deus e com os outros». Para a salvação, o importante é que o ser humano se aperfeiçoe e atinja o máximo das suas capacidades, sendo proactivo, buscando a excelência da sua humanidade, que é a santidade, em união com a ação de Deus sobre nós, e não que se prenda ao cumprimento frio de uma disciplina ou de uma lei, vivendo no medo de uma perdição. Outros afirmam que não precisam dos outros ou da Igreja para se salvarem: «falo diretamente com Deus e confesso-me diretamente a Deus». Se foi a Igreja que nos fez cristãos, é pela igreja e pelos sacramentos que também nos salvaremos. Ninguém se salva sozinho, sem os outros. Por fim também anda por aí difundida a ideia de que a salvação será algo de sobrenatural, mas sobrenatural entendido de forma errónea, como um piso superior em relação ao natural, uma realidade nova que não tem nada a ver com o que já se vive atualmente. O sobrenatural para o cristianismo é um aprofundamento do ser do natural e uma maior participação no ser de Deus. A nossa história pessoal e comunitária, a história do mundo, acompanham-nos sempre. A salvação vai-se realizar em progresso e consumação e não em separação e aniquilação do que está para trás.

Nestas conceções distorcidas de salvação são facilmente percetíveis influências de algumas correntes filosóficas e antropológicas, alheias ao pensamento bíblico e cristão, como o platonismo, o maniqueísmo, o individualismo greco-romano que o Renascimento promoveu na Europa, correntes que urge depurar na vivência cristã.

Aqui chegados, põe-se a pergunta: qual é a salvação que o Cristianismo oferece ao homem? Libertação da servidão e da escravidão do mal e do pecado que o homem introduziu no mundo, e consequente alienação, a que fica sujeita toda a pessoa humana que vem ao mundo, libertação realizada por Jesus Cristo e oferecida no batismo; integração da pessoa humana numa relação de amor com Deus e com as outras pessoas, centro da saúde plena do ser humano; realização plena e total da condição humana, pela ação de Cristo e do seu Espírito; a plenitude da vida, a que são chamados a participar a história e o mundo, uma felicidade suprema em plena comunhão com Deus e com os outros, o que denominamos vida eterna, eterna não só porque não tem fim, mas porque realiza totalmente o ser humano, a ser vivida desde já pela adesão a Jesus Cristo e à sua Igreja, em tensão para o seu estado definitivo.



publicado por minhasnotas às 12:16 | link do post | comentar

O Jesuíta Carlos Carneiro, na primeira conferência que foi proferida no simpósio do clero este ano, na fase introdutória da mesma, criou algum silêncio grave na plateia, quando afirmou que não era um católico praticante e que dificilmente alguém é um católico praticante perfeito. Claro, explicou-se. Começou por manifestar o seu desacordo pelas expressões criadas católico praticante e não praticante. Porque a fé não se reduz a participar em atos de culto ou em celebrações e rituais. A fé cristã é um estilo e uma forma de vida, uma maneira diferente de estar na vida e no mundo, em sintonia com os princípios e os valores de Jesus Cristo. E não há dúvidas de que quando confrontamos o que somos e o que devíamos ser, não podemos deixar de reconhecer, por mim falo, que somos cristãos católicos não praticantes, porque não vivo tudo em que acredito e que professo e a minha ação e a minha prática de vida, por pecado ou omissão, estão aquém da doutrina e da moral da minha fé. Vou aprendendo a ser um católico praticante, que une o culto à vida e a vida ao culto, procurando viver os princípios da fé e pôr em prática no dia-a-dia da vida os valores e consequentes atitudes e comportamentos da minha fé.

Habitualmente, usa-se a expressão católico praticante para aquele que participa assiduamente na vida litúrgica da comunidade a que pertence, nomeadamente na missa dominical, algo que devia fazer parte da vida de qualquer cristão católico. O não praticante é aquele que, apesar de aceitar formalmente a fé católica, alheia-se da vida da comunidade, fica-se pela mera adesão intelectual, não percebendo que faz parte de uma comunidade e que a fé se vive em comunidade. Reparem que a tónica destas expressões está na participação no culto. E a vida? Na verdade, estas expressões são enganosas. Podemos ter católicos que vão à missa e que no dia-a-dia metem a doutrina e a moral cristãs no bolso (e então pomos a pergunta - são praticantes?) e podemos ter católicos que até não frequentam a vida da Igreja e têm uma postura e uma conduta de vida assinaláveis (e também pomos a pergunta – serão não praticantes?). Quem é verdadeiramente praticante: o que vai à missa ou aquele que, de facto, pratica a sua fé no dia-a-dia da sua vida?

Não pensem que estou a desvalorizar ou a diminuir a importância da participação na vida litúrgica e pastoral da comunidade ou que as duas coisas se têm de antepor uma à outra. Há católicos que pensam que pelo facto de terem uma ética razoável, já estão livres de ir à Igreja. Era o que faltava. Uma coisa não substitui a outra. A comunidade e a vida litúrgica são pilares fundamentais na vida de um cristão católico. Fé que não celebra e não caminha com os outros, morre. A comunidade é o ambiente natural para a fé se alimentar, crescer e amadurecer. Não se consegue ser um bom católico sem a comunidade e não há verdadeira relação com Jesus Cristo e com a Igreja sem os sacramentos, sobretudo a Eucaristia. O que eu quero sublinhar é o equívoco daquelas expressões. Um cristão católico que vai à missa e depois na vida não vive e não pratica a sua fé, não é um católico praticante, quando muito é um cristão católico ritualista, que limita a fé à Igreja e que na vida concreta vive na incoerência entre fé e vida e dá o contratestemunho, que não pode deixar de escandalizar, de dizer uma coisa e andar a fazer outra. É uma grave deturpação da vivência da fé cristã e uma lamentável hipocrisia.

No fim da nossa vida, pelas indicações que Jesus nos deixa nos Evangelhos, seremos julgados pelo critério do amor efetivo, operante e concreto para com os outros. Não nos será perguntado quais as devoções que tínhamos ou as vezes que fomos à missa. Deus nos livre de uma vivência cristã que se fique nos ritos e nas intenções, sem a prática efetiva do Evangelho.



publicado por minhasnotas às 12:15 | link do post | comentar

Segunda-feira, 26.10.15

De cinco em cinco anos, os bispos são obrigados a ir a Roma, na denominada visita ad limina apostolorum. Na imprensa só sai ad limina, mas falta acrescentar apostolorum, para se entender o verdadeiro sentido das palavras: «visita aos túmulos ou moradas dos apóstolos», nomeadamente S. Pedro e S. Paulo. Nesta visita, os bispos apresentam ao Papa e às várias congregações do Vaticano um relatório da atual situação das Dioceses e da atividade pastoral e ouvem uma série de recomendações e diretrizes para o futuro.

Em muitos dos relatórios apresentados, possivelmente, constou o abandono da Igreja por parte dos jovens, após a celebração do crisma, fenómeno facilmente constatável em muitas paróquias portuguesas de Norte a Sul. No discurso, que dirigiu aos bispos portugueses, o Papa manifestou a sua inquietação: «Não pode deixar de nos preocupar a todos esta debandada da juventude, que tem lugar precisamente na idade em que lhe é dado tomar as rédeas da vida nas suas mãos. Perguntemo-nos: A juventude deixa, porque assim o decide? Decide assim, porque não lhe interessa a oferta recebida? Não lhe interessa a oferta, porque não dá resposta às questões e interrogativos que hoje a inquietam? Não será simplesmente porque, há muito, deixou de lhe servir o vestido da Primeira Comunhão, e mudou-o? É possível que a comunidade cristã insista em vestir-lho?». E deixou uma chamada de atenção a todos aqueles que trabalham ou que estão perto dos jovens: «Hoje a nossa proposta de Jesus não convence. Eu penso que, nos guiões preparados para os sucessivos anos de catequese, esteja bem apresentada a figura e a vida de Jesus; talvez mais difícil se torne encontrá-Lo no testemunho de vida do catequista e da comunidade inteira que o envia e sustenta».

O Papa sabe tão bem como nós que o assunto é complexo e não tem uma receita ou uma solução fácil, como pensam, se calhar, alguns cristãos ingénuos e simplistas. Mas tem muita razão no diagnóstico: é preciso repensar a iniciação cristã, porque já poderá estar desatualizada nos seus métodos e formas e poderá sofrer do vício da domesticação, e, sobretudo, porque no fim da catequese é notório que os jovens não têm convicções cristãs e pergunto-me até se terão fé.

A Igreja portuguesa já está há muito ciente desta necessidade. D. Manuel Clemente, numa entrevista ao semanário Ecclesia, em 2013, afirmava: «há necessidade de apostar na formação cristã. Cada batizado precisa de ter consciência do que significa “ser batizado”. E é preciso que as comunidades cristãs proporcionem uma iniciação cristã séria, forte! Numa sociedade plural como a nossa, onde há tantas ideias, contraditórias ou convergentes, só assim interessa: quando alguém perfilha não apenas uma ideia mas um tipo de vida, como é o caso de uma cristã ou de um cristão, deve saber o que isso significa.»

As causas do afastamento da juventude da Igreja são muitas. Temos, antes de mais, a componente cultural. Hoje, os jovens crescem num ambiente social que desvaloriza a vivência da religião e da fé, esquece a interioridade e a espiritualidade, promove um estilo de vida individualista e hedonista, desvaloriza a fidelidade aos compromissos e a vivência de um ideal. Temos a componente familiar. A família, na sua realidade multifacetada, deixou de fazer a transmissão da fé e uma educação consistente dos valores morais e espirituais. Muitos jovens são filhos de pais que quase cortaram o cordão umbilical com a Igreja. Vai-se cumprindo uma tradição a muito custo, com pouca motivação, mas que, ainda assim, vale pelos seus momentos festivos (que milagre pode fazer um padre, quando no fim de uma festa de comunhões uma mãe desabafa para outra que ainda bem que a filha fez a comunhão porque já estava farta de ir à missa?). Temos a componente eclesial. Muitas comunidades cristãs estão absorvidas por hábitos e tradições, sem ação evangelizadora, de tal forma que não se preocupam muito em acompanhar os jovens e em dar espaço à sua vivência e expressividade. Temos também a componente testemunhal. Os jovens precisam de exemplos e de referências sólidas. Faltam, talvez, testemunhos interpelantes e saudáveis da fé cristã junto da juventude. Muitos cristãos, no dia-a-dia, misturam-se no meio da multidão, mas não fazem a diferença e não deixam um cunho cristão no que dizem e no que fazem, de tal forma que não interpelam e não marcam. Por fim, temos a componente hierárquica. Algum clero tornou-se indiferente para com a juventude e certo discurso da Igreja, na forma e na linguagem, na apresentação da moral e dos conteúdos doutrinais, está um pouco desfasado no tempo. Juntando todas estas componentes, temos o caldo perfeito para que os jovens se desinteressem da Igreja e se escapem depois do crisma, porque, como desabafava um bispo português, «andamos a crismar pagãos».

Há cristãos que pensam que tudo se resolveria com uma operação de sedução e de cativação e que os padres (coitado do padre, tem de ser um superdotado com solução para tudo) têm de ter estratégias sedutoras. É uma forma simplista de ver a questão. A sociedade já não é a sociedade homogénea e monocórdica de há 50 ou 60 anos. Tem de ser uma ação concertada de todos: família, comunidade, clero. Quem tem de começar por seduzir é o pai e a mãe em casa e, em primeiro lugar, sim, os pais têm de se questionar porque é que a forma de eles viverem a fé não cativa os filhos. O que é que falha? Estranho é que só se fala de cativação para a Igreja, mas não para as outras coisas. Alguém precisa de cativar os jovens para os festivais de verão? E, no entanto, estão a abarrotar de jovens. Alguém os cativa para encherem os bares à noite? E, no entanto, não faltam bares noturnos cheios. Alguém os cativa para os desportos radicais e para o futebol? E, no entanto, não faltam jovens no desporto, e para isso nunca falta dinheiro. Pois é meus amigos: é tudo uma questão de convicção, de educação e de formação. Hoje importam mais o prazer e a diversão do que as convicções e os ideais, que humanizam e realizam a vida, mas que muitos pais descuram na educação dos filhos.



publicado por minhasnotas às 09:38 | link do post | comentar

Segunda-feira, 05.10.15

Já aqui manifestei mais do que uma vez que a forma como celebramos a liturgia, o culto público que prestamos a Deus, diz muito do Deus em que acreditamos e da fé que temos. A liturgia é a cara da Igreja. Também o são outras ações, como a presença junto dos mais pobres e das muitas formas de sofrimento que batem à porta da vida de muitas pessoas, mas penso que a liturgia cristã continua a ter um papel decisivo na apresentação de Deus e da transcendência ao mundo e no testemunho da fé cristã diante da sociedade. Diz-me o que celebras e como celebras e eu dir-te-ei que fé tens e em que Deus acreditas.

Há muitos cristãos que ainda não conseguiram abandonar a condição de «assistentes» da missa. São meros observadores, por vezes distraídos e alheados, que vão respondendo secamente às interpelações do presidente da celebração. Persiste a ideia de que a missa é do e para o padre e uns quantos «ativos» da paróquia. À assembleia cabe a função de acompanhar e ouvir. O Vaticano II reformou a liturgia e salientou que todos os cristãos são participantes. A liturgia não é um teatro, onde existe uma peça com vários atores, neste caso, o padre, os cantores, os acólitos, os leitores, e o público. Na liturgia cristã não há público, mas toda uma assembleia que celebra e participa. O padre simplesmente preside. Assim sendo, é importante que todo o cristão tenha uma atitude participativa, como estar atento, responder, cantar, fazer um esforço para que a inteligência e o coração estejam numa atitude de escuta, encontro, contemplação e adoração. Precisamos de rever seriamente o formalismo e o ritualismo que a deformada moral da obrigação criou. Quantas vezes não seremos como muitas pessoas que participam nos funerais, que só estão ali para ver e cumprir, mas com total indiferença para o que estão a ouvir e a celebrar.

É importante que uma missa seja mesmo missa, ou seja, momento fervoroso de louvor a Deus, de celebração da Palavra de Deus e do acontecimento central da fé cristã, a morte e a ressurreição de Jesus, encontro e comunhão com Cristo ressuscitado e dos cristãos uns com os outros, numa atmosfera serena e alegre, festiva, mas não festeira, solene, santificadora, com os cânticos apropriados, que ajudem a rezar, a celebrar e a interiorizar e a expressar o mistério da fé, num equilíbrio entre som, palavra e silêncio. Tenho vindo a reparar que, paulatinamente, estamos a deixar que o ruído do mundo, com a sua leviandade, se intrometa na celebração da missa. Se há serviço importante que a missa ainda pode oferecer às pessoas é que lhes oferece algo que habitualmente não encontram no dia-a-dia: uma palavra diferente e interpelante, como é a Palavra de Deus, a reflexão, a meditação, o encontro pessoal e comunitário, o olhar um pouco mais para a interioridade, a adoração, o canto, o silêncio, o pensar um pouco mais nos outros, abrir-se ao divino. É preciso resistir à tentação de atafulharmos a missa com diversão e com ruído superficial, nesta onda de se querer tudo leve, ligeiro, festivaleiro, pouco pesado, até divertido, que outra coisa não faz que banalizar a missa e a deturpar. Andam por aí cânticos que não dignos da missa, nem dos outros sacramentos. Já viram tocar uma música pimba numa parada militar? Tudo tem a sua expressão e a sua linguagem. Alguns até são adaptações razoáveis, mas outros têm letras vagas e piegas, que facilmente se poderiam ouvir na boca da última estrela pop ou letras de intervenção, que poderiam ser cantadas pelo partido comunista.

Um aspeto que deve merecer maior atenção e cuidado é a preparação da liturgia. É preciso evitar-se a improvisação. Só se celebra bem, quando se prepara bem. Um jornalista cristão, que tem uma prática cristã intermitente, conta, num artigo que escreveu e colocou na internet, que está perplexo e até dececionado com a forma como, por vezes, se celebra a missa em algumas comunidades cristãs, por onde vai passando. Eis os defeitos que encontra: está a começar a celebração e ainda está a chegar um grande número de cristãos (nunca se chega em cima da hora para as coisas importantes); leitores escolhidos no momento das leituras; os cantores desfazem-se em pressas ao longo da celebração para escolher cânticos, em permanente cochicho e algazarra; sussurros entre os acólitos, os cantores, os leitores e alguns elementos da assembleia e até entre os padres; cânticos desapropriados com a festa e a mensagem do Evangelho do dia (é o que dá só andar atrás dos cânticos mais melodiosos ou bonitos); padres que rezam depressa; saída de cristãos antes da celebração findar. Nas palavras do jornalista, fica a sensação de que a celebração não é muito importante e que significa muito pouco para as pessoas que estão ali presentes. Estão muito pouco convencidas de que estão a celebrar algo de importante, como de facto estão. Não resta senão a derradeira impressão de desatenção para com aquilo que se está a celebrar, indiferença, ritualismo, banalização, superficialidade. A celebração está reduzida a um passatempo ou a entretenimento. É uma liturgia medíocre, que não convence nem interpela, que é indigna dos grandes acontecimentos que se celebram. É preciso prestar muita atenção a este aspeto. Dificilmente liturgias mal preparadas e com uma participação desadequada, até quase indecorosa, de alguns cristãos, podem falar de Deus e comunicar a fé a alguém.



publicado por minhasnotas às 09:36 | link do post | comentar

Entre os dias 31 de Agosto e 3 de Setembro, decorreu, em Fátima, o Simpósio do Clero, que teve como tema o padre, irmão e pastor. Estiveram presentes padres de todas as dioceses e alguns bispos. Saliente-se que a nossa Diocese de Vila Real foi das mais bem representadas, tendo-se em conta o número de padres. Durantes três dias e meio, foram servidas boas conferências de estudiosos e pensadores da Igreja, servidos painéis de debate com figuras da Igreja e do saber e da cultura portuguesa, bons momentos de convívio, celebração e oração.

A figura que esteve mais em destaque foi o Beato Bartolomeu dos Mártires, proeminente arcebispo de Braga, de quem no ano passado celebrámos os 500 anos do seu nascimento, e de quem se espera que avance o processo de canonização. Foi, de facto, um pastor exemplar, terno e jovial, mas ao mesmo tempo exigente e rigoroso, que viveu uma vida sóbria, de grande fidelidade ao Evangelho e de grande amor aos pobres e desafortunados do mundo. Serviu uma diocese que se estendia até Bragança, que tinha cerca de 1400 paróquias. Na Igreja do Castelo de Montalegre, como sabemos, está uma lápide que recorda a sua passagem pelas terras do Barroso.

Destaco algumas boas intervenções e tiradas que se foram recolhendo ao longo do Simpósio, que podem servir para a reflexão das comunidades cristãs. O jesuíta Carlos Carneiro, a quem coube refletir sobre a missão e a identidade do padre segundo o Vaticano II, sublinhou que o grande inimigo da Igreja, com quem, aliás, até tem sabido conviver, não são os ateus, os agnósticos, os tradicionais detratores e opositores da religião, as forças e os poderes da sociedade que procuram hostilizar e até eliminar as crenças, os credos e a presença das religiões nas instituições e nos ambientes sociais. O grande inimigo da Igreja é quando a Igreja deixa de fazer uma leitura espiritual da realidade, preferindo optar pela condenação ou pelo lamento, refugiando-se no comodismo do passado, com os seus esquemas e mentalidades, não se dando conta do chamamento e dos sinais e desafios da presença de Deus na realidade que tem de enfrentar no presente.

O comentador do Governo Sombra da TSF e crítico de cinema e de literatura, Pedro Mexia, salientou que a Igreja não pode cair na tentação de adocicar o seu discurso e as suas liturgias para atrair fiéis a qualquer preço, como, por exemplo, as televisões fazem com os seus programas para terem audiência. A Igreja tem de anunciar o Evangelho, com toda a sua verdade, Evangelho que nem sempre é agradável para as multidões, e ter preocupação pelo sublime e pela beleza. A Igreja desempenha o papel importante de ser consciência crítica da vida e da sociedade e é importante que nunca deixe de o fazer. A escritora Lídia Jorge pediu mais presença de bons textos dos escritores e da poesia no discurso e nas homilias da Igreja. Talvez a Igreja seja demasiado prosaica. O físico e investigador, Henrique Leitão, Prémio Pessoa em 2014, apresentou uma série de grandes cientistas que nasceram do mundo católico, estimulados pela convicção católica de que a realidade é inteligível, o que só comprova que a Igreja promoveu e viu na ciência um bem, apesar de episódios menos dignificantes neste campo e de algum confronto duro que se gerou, por vezes, entre Igreja e ciência.

O Professor Adriano Moreira, que não deixa de surpreender pela frescura dos seus 93 anos de idade, douto observador da política e da economia nacional e internacional, destacou que o cenário mundial é de guerra por todo o lado, porque se impôs a ditadura do mercado e dos interesses sobre os valores, de forma que é urgente recuperar o poder da palavra sobre a palavra do poder e restaurar a centralidade dos valores face ao mercado e aos interesses, no respeito inquestionável pelo ser humano e sua dignidade.

No último dia, o Provincial dos Jesuítas em Portugal, o padre José Frazão Correia, referiu que o entusiasmo não é uma estratégia pastoral e que não faz muito sentido recorrer ao entusiasmo postiço para se anunciar o Evangelho ou para se ser sedutor na Igreja e para fora da Igreja. Anda por aí a moda, ou se quiserem, a convicção parola, de que aquilo que não é alegre e não tem graça não cativa e não seduz, o que leva a que grupos e pastores na Igreja se mascarem de uma alegria artificial e fingida para cativar a todo o custo. Para além de colocar pressão sobre quem escolhe este critério (quem consegue ser alegre e engraçado a toda a hora?), acaba por mais tarde ou mais cedo não dar frutos porque não está revestido de autenticidade. Um cristão deve testemunhar com naturalidade a sua pertença a Cristo e a sua condição de salvo em Cristo, que permanentemente alegra e dá sentido à sua vida. Se o fizer com verdade e autenticidade, não deixará de contagiar os outros.

Foi uma bela mensagem para concluirmos mais um Simpósio do Clero.



publicado por minhasnotas às 09:34 | link do post | comentar

Quinta-feira, 17.09.15

Os caminhos que vão dar a Santiago de Compostela estão outra vez na moda e não param de ter peregrinos estoicos e obstinados todos os dias, de diferentes identidades e organizações e com as mais variadas motivações. Convém percebermos um pouco como é que estes míticos e afamados caminhos nasceram e com que espírito os devemos percorrer.

Em primeiro lugar, no respeito pela verdade histórica, vale a pena lembrar que dificilmente o Apóstolo S. Tiago terá estado em Compostela ou terá andado a evangelizar a Hispânia. Não há nenhum documento da Igreja que o comprove, nem qualquer outro documento histórico fidedigno que o ateste. S. Tiago terá ficado por Jerusalém e arredores, sendo o primeiro apóstolo a sofrer o martírio em nome da fé cristã, como tão bem a liturgia nos ensina. A sua viagem pela Hispânia foi uma «invenção».

S. Jerónimo (séculos IV e V) deixou o rastilho: expressou nos seus escritos que a Hispânia foi evangelizada por um apóstolo. Se assim foi, ao longo dos tempos, foi ganhando força a convicção de que o túmulo desse apóstolo estaria algures num lugar desconhecido da Hispânia. Mas como criar o «facto»? Recorreu-se ao estratagema habitual: criou-se e divulgou-se uma lenda ou um fenómeno espantoso. No século IX (820-30), um eremita chamado Paio contou que, numa certa noite, viu umas estrelas ou umas luminárias a arder sobre um bosque (Compostela). Outros fiéis confirmaram que também viram o mesmo. O então Bispo da Galiza, Teodomiro, deu crédito ao testemunho do eremita e dos fiéis e resolveu ele mesmo inteirar-se do assunto e desvendar o mistério. Dirigiu-se à zona densa do bosque, onde descobriu um pequeno oratório. Não teve a menor dúvida que se tratava do túmulo do Apóstolo S. Tiago. Mandou construir no local uma Igreja (mais tarde até o bispo ali estabeleceu a sua residência), que foi dotada de privilégios régios pelo rei das Astúrias, região a que a Galiza estava anexada, Afonso II, também ele convencido que se tratava de um facto com marcas de autenticidade. Assim nascia o culto hispânico de S. Tiago, centro de uma das peregrinações mais concorridas da história do Cristianismo. Uma rede de vias e caminhos, tanto terrestre como marítima, foi construída para que peregrinos de todo o mundo, cada vez em maior número, sobretudo da França, país mais povoado da época, pudessem vir tocar as relíquias do apóstolo ou pedir ou agradecer alguma graça ao apóstolo.  

Sabiamente instrumentalizado por bispos e reis, o culto jacobeu (culto de santiago) teve duas grandes finalidades: fortalecer a fé dos cristãos hispânicos, «enraizada» no ensino e «abençoada» por um dos apóstolos mais importantes de Jesus, no combate contra a investida do islão pela Península Ibérica, investida que teve o seu início em 711, e retirar do isolamento e alfabetizar a região hispânica, então pouco civilizada, que tinha grandes territórios semisselvagens, incultos, rudes, ecléticos, cheios de contradições e de desordem cultural e social. Para o poder político, o culto a S. Tiago foi uma bênção vinda do céu, que, como motor agregador e unificador, serviu para se reconstruir a Hispânia e se criar unidade e consistência social, cultural e religiosa. Grande intervenção neste campo teve o monaquismo cluniacense (Ordem de Cluny, mais tarde também a Ordem de Cister), nascido no século X, desde cedo detentor de grande respeito e prestígio, que gozava da simpatia dos reis hispânicos (Astúrias e Leão), estabelecendo-se em zonas nevrálgicas dos caminhos, assim como da Hispânia.

 Hoje, como sempre, os caminhos de S. Tiago são uma escola de vida e uma ação que possibilita o encontro com a vida, consigo mesmo, com os outros e com Deus. Segundo os peregrinos, são muitas as motivações, umas mais nobres do que outras, que os levam a calcorrear estes caminhos históricos e míticos: libertação do peso do quotidiano, testar os limites, solidariedade e atenção aos outros, aprender que se pode viver com sobriedade, contemplação e encontro com Deus através da natureza, desporto e aventura, busca de Deus e aprofundamento da fé. Se esta última é a motivação que nos leva a Santiago de Compostela, tão importante como o ir até lá, é depois a viagem de regresso, porque seremos pessoas diferentes, mais humanas e mais maduras, cristãos mais autênticos e comprometidos, seres humanos mais polidos e solidários. Oxalá muitos peregrinos possam experimentar esta graça de Deus.



publicado por minhasnotas às 11:42 | link do post | comentar

Sexta-feira, 21.08.15

Neste ano de 2015, celebram-se os 500 anos do nascimento de uma grande santa da Igreja Católica, S. Teresa de Ávila, também conhecida por S. Teresa de Jesus. Vale a pena lembrar o percurso da sua vida. Nasceu a 28 de Março de 1515, na barrenta cidade espanhola de Ávila, não muito longe aqui de nós. Seu pai, Afonso, inquieto e desassossegado com as aventuras e as ousadias juvenis da filha e querendo livrá-la das perniciosas influências mundanas, abrigou-a no Convento de Santa Maria de Grácia, orientado pelas monjas agostinhas, tinha ela os seus 17 anos. Passados três anos, entra no Mosteiro da Encarnação, em Ávila, onde fez votos como carmelita, com a bênção do pai. Retratando o sentimento que lhe atravessava a alma nesta fase da sua vida, sentindo-se profundamente unida a Cristo, deixou escrito: «Já me entreguei completamente, e de tal sorte estou mudada, meu amado é para mim e eu sou para o meu amado. Feriu-me com uma seta arvorada de amor, e minha alma ficou feita uma com o seu Criador. Já não quero outro amor, pois ao meu Deus me entreguei, meu amado é para mim e eu sou para o meu amado.»

 Apesar de dizer às suas monjas que o Mosteiro da Encarnação, onde esteve 27 anos, era bom, contudo, havia alguns aspetos que lhe desagradavam no estilo de vida e no ambiente, que a vão estimular a empreender uma grande reforma na ordem carmelita: individualismo, diferença de classes, ausência de clausura, falta de partilha, de comunhão e de fraternidade, trivialidade e opulência. Enfim, seria talvez um mosteiro excessivamente mundano para se viver o ideal cristão, com toda a sua verdade e exigência.

Movida pelas suas ideias e convicções contracorrente e revolucionárias para o tempo, defendendo, por exemplo, o direito das mulheres à instrução, à espiritualidade, à oração e a terem um lugar digno na Igreja, abandonou o Mosteiro da Encarnação e, com a ajuda do dinheiro de uma irmã e seu cunhado, comprou um terreno fora das muralhas de Ávila, onde construiu uma pequena casa, berço da reforma que levou a cabo na ordem, fundando as carmelitas descalças. Ao longo de 20 anos, fundou 17 conventos. A sua reforma teve uma direção clara: sobriedade de vida e regime de clausura, para ela sinal de liberdade para quem deseja uma união profunda e mística com Deus e viver em exclusividade para a interioridade, a contemplação, a oração e a reflexão.

Desde que manifestou uma certa índole vanguardista para a época, passou a ser vigiada pela Inquisição, que desde logo procurou esconder os seus escritos e controlar os danos que a monja arisca lançava na cómoda e controlada normalidade da Igreja. Faleceu a 4 de Outubro de 1582.Pressentindo a visita da morte, escreveu desassombradamente: Olha que o amor é forte. Vida, não me sejas molesta, olha que só te resta para ganhar-te, perder-te. Venha já a doce morte, o morrer venha ligeiro. Que morro porque não morro.» Foi beatificada em 1614. Em 1970 foi proclamada por Paulo VI «Doutora da Igreja», pelos méritos dos escritos místicos e doutrinais, que nos deixou, cheios de sapiência, próprios de uma alma que se deixou abrasar pelo amor de Deus. Já houve em tempos, e não sei de ainda haverá, os caminhos de S. Teresa.

 A forma intensa e apaixonada como os santos viveram a sua fé e o seu amor a Deus, à Igreja e aos outros, e por isso mesmo provocadores de ruturas e de convulsões, é para nós um modelo e um estímulo, mas também não pode deixar de ser um questionamento ao cristianismo tradicionalista e ritualista a que nos acomodámos, ao cristianismo sociológico em que nascemos (somos cristãos porque o ambiente à nossa volta é cristão, falta de convicção) e à forma desfervorosa, rotineira, costumeira, desencantada e morna como vivemos a fé, sobretudo na Europa. Será que já descobrimos e acreditamos mesmo no amor de Deus e na fonte de vida plena e eterna que Ele é?



publicado por minhasnotas às 10:37 | link do post | comentar

Terça-feira, 28.07.15

1.O semiólogo e escritor italiano, Umberto Eco, concedeu há uns tempos uma entrevista à revista brasileira Época, onde afirma: «A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. A internet só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.»

Já aqui o referi mais do que uma vez e volto de novo a lembrá-lo, exprimindo uma forte impressão que tenho dos tempos atuais: o termos muita informação não significa que estejamos a adquirir conhecimento. Há um trabalho fundamental, que tem de se fazer no silêncio: fazer a síntese, ajuizar o que está certo e o que não está certo, o que é verdadeiro e o que é falso, o que é verdadeiro conhecimento e o que não é, o que é confiável e o que não é confiável. Temos de fazer o trabalho da abelha: retirar da flor (informação) apenas o néctar (conhecimento). Duvido que muitas pessoas o façam. E que alicerces e solidez terão para o fazer? O mundo atual acelerou a vida e enche-nos o tempo com mil e uma ocupações e atividades, possivelmente, muitas delas inúteis. Sem se aperceberem, muitas pessoas fazem da vida uma resposta tresloucada a estímulos e sugestões que a sociedade habilmente lhes faz entrar pelos olhos dentro. Saiu há dias um estudo que referia o facto de as crianças serem educadas com a rigidez do horário de um executivo. Querer estar sempre em tudo e estar sempre ativo e ocupado é considerado o estilo de vida do homem moderno. No meio desta bizarrice e desta fanfarronice atual, nem nos lembramos de algo fundamental, que nos distingue do resto: o pensar. Se não damos tempo ao pensamento e à reflexão, estamos condenados à ignorância, à superficialidade, ao sem sentido e a vivermos na espuma da vida. Uma sociedade que não tem tempo para pensar está condenada ao empobrecimento humano, intelectual, espiritual e moral. E acho que já são notórios.

Há dias, no Jornal de Notícias, o conhecido empresário e inflexível adepto do Porto, Manuel Serrão, escrevia no Jornal de Notícias: «Nunca houve muita gente a pensar, mas nos dias de hoje o número de pessoas que se dedicam a essa atividade do espírito é confrangedoramente diminuto. Num exercício que todos podem fazer em suas casas ou no seio das suas famílias, tentem recordar-se de alguma criança, adolescente ou adulto que tenham visto a pensar nos últimos cinco anos. Tirando algum recanto milagroso em algum convento recatado como o das Carmelitas Descalças, vai ser muito difícil que esgotem nesta tarefa os dedos de uma só mão. (…) O comunicar substituiu hoje quase completamente o pensar e só isso explica o grau, perto do zero, que pauta a maioria das comunicações.» Reparem na pobreza em que tornaram o twitter e o facebook.

2.Com a chegada em força dos meios de comunicação social às sociedades contemporâneas, entrámos na era da mediatização e com a internet nasceram as denominadas redes sociais, cada vez mais invadidas por malcriados e moralistas demagogos. Há talvez uma sensação que paulatinamente se poderá apoderar das pessoas: quem não aparece e se faz notar parece que não é gente e não existe ou é um medíocre ou uma triste pessoa vulgar. E há quem viva obcecado e não faça uma boa gestão desta sensação, a que eu chamaria a síndrome ou o complexo da insignificância (o medo de não aparecer e de não ser notado, sentir-se inferior por não aparecer ou ser mediático). Daí que ande por aí muita gente em bicos de pés a ver se finalmente tem a sua aparição pública e se satisfaz o gozo de ser conhecido e ser falado, pelo menos durante algumas horas ou dias, por muito banal e irrelevante que seja o que diz e o que faz, quanto mais não seja até divulgar a vida toda nas redes sociais. De uma vez por todas, metamos na cabeça o seguinte: o que importa na vida não é viver para os outros ou seguir as modas e os parâmetros que uma sociedade define como a vida deve ser vivida, e muito menos ser um imitador de comportamentos e atitudes para parecer igual ou superior aos outros. O que importa na vida é vivê-la com autenticidade, como gostamos de a viver, na fidelidade ao que pensamos e ao que sentimos, sem adotarmos máscaras e comportamentos farsantes. Ser mais ou menos conhecido ou mediático é uma vaidade inútil. Na vida vivida na fidelidade a nós mesmos é que está a nossa realização e a nossa felicidade.



publicado por minhasnotas às 10:52 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 06.07.15

Já aqui escrevi sobre as festas cristãs e volto de novo a abordar o tema porque há alguns aspetos que devem ser repensados. Faço-o, aproveitando uma nota pastoral que o Bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, dirigiu à sua Diocese, nota que me parece oportuna. Vem aí o tempo do Verão, estação pródiga em festas. Este mesmo mês de Junho, que chegou ao fim, foi um fartote de patuscadas e de pândega com os denominados santos populares. Será que as nossas festas cristãs são verdadeira expressão da fé cristã?

As festas são momentos importantes da vida. O ser humano sente necessidade da festa. Quebram a rotina, retiram a vida da vulgaridade, favorecem a alegria, o encontro e a fraternidade entre as pessoas. Enfim, são momentos de celebração da vida, que ajudam a crescer em humanidade e alegria de viver e ser com os outros. Na nossa memória, não podemos deixar de conservar a vibração, ou até mesmo a comoção, e as ressonâncias agradáveis das festas que nos vão passando pela vida, como eu tenho por exemplo da grandiosidade da Senhora da Livração de Boticas ou do Senhor do Monte de Pinho, ou até da festa da minha terra e das festas que já vou celebrando como pároco.

 É importante que a festa seja mesmo festa, momentos de verdadeiro encontro com Deus e com os outros, que acrescentam força, vida, alegria e esperança autênticas à vida, momentos que ajudam a fazer da vida uma experiência admirável. Isto é que é o essencial de uma festa digna desse nome. Como diz D. José Cordeiro, «falamos da festa cristã e não apenas de um mero passatempo festivo e que hoje, como é frequente, faz parte do circuito comercial. A festa traz em si mesma a afirmação do valor da vida e da criação, tornando o nosso viver mais humano e mais digno». A motivação mais profunda da festa cristã é o amor de Deus. «Festejar é próprio de quem sente que é amado por Deus. Deus ama e chama, no quotidiano, no trabalho e na festa, a participar do Seu Amor.»

 Nas festas cristãs, tudo deve ser organizado para se agradecer, celebrar e fortalecer o valor da fé, dom de Deus, com toda a sua riqueza e exigência. Estamos ali porque somos cristãos, porque somos Igreja, que deseja celebrar e cantar a obra de Jesus Cristo e as maravilhas que Ele faz naqueles que o seguem (os santos) e o papel e exemplo de Nossa Senhora na História da Salvação. Não estamos ali apenas como meros amigos que se juntam para comer e beber, como, infelizmente, sobressai demasiadas vezes, com muito ruído e barafunda.

 O momento central de uma festa cristã, dentro da configuração habitual, é a celebração da Eucaristia, em que celebramos o acontecimento central da vida de Jesus Cristo, e por isso mesmo, também de todos os cristãos, a sua Morte e a sua Ressurreição, fonte de toda a festa cristã. Nas festas, tudo parte de Cristo e tudo é para chegar a Cristo. Mesmo nas festas dos santos, o objetivo não é fixarmo-nos no santo, mas celebrarmos momentos solenes que «proclamam as grandes obras de Cristo nos seus servos e oferecem aos fiéis os bons exemplos a imitar», como diz o Documento do Vaticano II, Sacrosanctum Concilium , no seu número 111. A Eucaristia deve ser participada por todos, preparada com todo o esmero e solenidade e celebrada com piedade e não com desordem, desinteresse, displicência e aridez, como impacientemente se vai vendo em algumas festas. A procissão não é o momento mais importante da festa. É um cortejo solene, onde se manifesta publicamente a fé e onde deve imperar o canto e o louvor a Deus. É inaceitável que em muitas festas cristãs se secundarize a importância e a celebração da missa ou que se deseje a sua celebração rápida, para se realizar a procissão.

 É preciso repensar o espírito meramente comercial e lúdico com que se fazem muitas festas cristãs. Como afirma D. José Cordeiro, «verificamos que alguns mordomos e comissões de festas se movem mais nas vertentes económica e lúdica das festas do que na sua dimensão cristã fundamental. É um enorme desafio para nós, superar o aspeto pagão, comercial, utilitarista e laicista da festa. Algumas organizações ou comissões de festas chegam até a contradizer o Evangelho e a fé da comunidade cristã, devido ao desequilíbrio, às vezes escandaloso, nos seus gastos com os elementos exteriores, entre eles a excessiva quantidade de foguetes ou as somas avultadas para conjuntos musicais.»

 Não podemos deixar de sentir o incómodo pelos objetivos balofos de algumas comissões de festas: buscar pura e simplesmente diversão, disputa com outras comissões anteriores, realização da festa para se fazer ver a não sei quem, recolha de receita a todo o custo (seria bom que se começasse a retirar o dinheiro dos andores, é um triste espetáculo) para ser gasta em atos e ações de duvidoso valor e importância. Não é esta a motivação para a realização de uma festa cristã. As comissões de festas fazem parte da Igreja e as prioridades e as necessidades desta, como Igreja universal, devem estar sempre em primeiro lugar. Por isso, como afirma D. José Cordeiro, «precisamos de recuperar ou não deixar perder o sentido cristão da festa. Temos de ter o maior cuidado com a gestão das esmolas, salientando bem que as colectas (ofertórios) e as promessas levadas ao altar da Eucaristia devem reverter exclusivamente para o culto, a evangelização e a caridade. O Papa Francisco diz claramente: «o dinheiro faz adoecer o pensamento e a fé e faz-nos ir por outros caminhos». 



publicado por minhasnotas às 18:48 | link do post | comentar

Possivelmente, andamos todos impressionados, por mim falo, com a falta de educação e com a carência de formação moral e ética que são manifestas nos comportamentos e atuações de muitas pessoas. Desde o simples cumprimento na rua (será que hoje se ensina cortesia?), aos relacionamentos cívicos e laborais, desde a estrada à resolução de atritos e conflitos, e desde a conduta à frente de cargos políticos e sociais até ao mínimo que se exige para se saber viver em sociedade, é de ficar reduzido ao silêncio, porque as palavras começam a esgotar-se, como as pessoas parece que desaprenderam a saber falar umas com as outras com simpatia, doçura e gentileza, no respeito mútuo e com verdadeiro interesse e atenção umas pelas outras, sem fingimentos e hipocrisias, independentemente de convicções políticas, clubísticas e religiosas, e a saberem estar na família, no trabalho e nos outros âmbitos da vida social com estatura moral e cívica. Acho que é o mínimo que se exige a pessoas humanas. Como muito bem diz o povo, pode-se ter mais ou menos cultura e ter mais ou menos importância e reconhecimento social, o que nunca se pode deixar de ter é boa educação e ética, que ficam sempre bem. Uma pessoa sem maneiras, rude, áspera, fria, desonesta, irresponsável, calculista, violenta, sem princípios, duvido que tenha o respeito e a consideração de alguém.

Dois grupos etários que hoje acusamos com alguma facilidade de falta de educação e de moral é a adolescência e a juventude. E de facto, pelo que vamos vendo e lendo, muita juventude (não generalizemos) não exibe a boa educação que lhe ficaria bem e há um conjunto de valores e princípios de que deveria ser portadora, porque vai conduzir a sociedade amanhã, e de que parece não ser, como a responsabilidade, a retidão, a honestidade, o sacrifício pela família e pelos outros, o altruísmo desinteressado, a capacidade de saber vencer as dificuldades, a tolerância, o respeito pelos compromissos, o bom trato com todos, entre outros, valores e princípios fundamentais para se ser pessoa com os outros e em sociedade. Já não é de agora acusar os jovens. Já o filósofo Sócrates, quinhentos anos antes de Cristo, se queixava no seu tempo, mais ou menos com estas palavras, de que «os jovens de hoje gostam do luxo. São mal comportados, desprezam a autoridade. Não têm respeito pelos mais velhos e passam o tempo a falar em vez de trabalhar. Não se levantam quando um adulto chega. Contradizem os pais, apresentam-se em sociedade com enfeitos estranhos. Apressam-se a ir para a mesa e comem os acepipes, cruzam as pernas e tiranizam os seus mestres». A verdade é que, possivelmente, os jovens são os menos culpados das muitas acusações que lhes dirigimos. Nós, sociedade, é que temos de nos questionar que educação transmitimos e como a transmitimos e, neste campo, acho que existem muitas falhas. As principais instituições sociais que devem veicular uma boa educação fazem-no de forma confusa e desarticulada.

Não existem sociedades ou tempos perfeitos. Todas as eras têm aspetos positivos e negativos, progressos e retrocessos. Temos tendência para idolatrar o passado. «Antigamente é que era, agora é outra coisa». «No meu tempo tudo era diferente, agora está tudo mudado, não para melhor. Isto vai de mal a pior». Que estranha forma de vermos a vida! O paraíso não está no presente ou no futuro, está no passado. Lá trás é que foi bom, agora nem tanto. Não é assim que devemos ver a vida e, se somos crentes em Deus, muito menos ainda. Primeiro porque ninguém tem o seu tempo. Somos de todos os tempos. Há que saber acompanhar cada tempo e cada era. Depois porque o que verdadeiramente conta é construir e viver o presente, ajudando o mundo e a sociedade a serem cada vez melhores. O passado já não está nas nossas mãos. Serve apenas para sabermos e respeitarmos as nossas raízes e nos ajudar a evitar os mesmos erros no presente e no futuro. Por fim, como crentes, acreditamos que o melhor está ainda por vir, porque caminhamos para uma plenitude. Se há algo que vale a pena salientar, sem idealizar, é a articulação e a complementaridade que existia há quarenta ou cinquenta anos ou mais, e que hoje não existe, entre as principais instituições da sociedade: tropa, Igreja, família e escola. Hoje, estas instituições estão pouco presentes na vida dos adolescentes e dos jovens ou estão presentes de forma deficiente e intermitente. A maioria deles cresce no meio de atividades e de diversões, que, de facto, divertem e entretêm, mas não educam.

A tropa exercia um papel importante na transição para a idade adulta e na integração social, para além de permitir o encontro de pessoas da mesma geração de todo o país. Ajudava a interiorizar a disciplina de vida, o aprumo, o saber viver com regras, o comportamento adequado, o saber trabalhar em equipa, o respeito saudável pela hierarquia, a organização e o método, o brio e a responsabilidade. Não defendo o regresso da tropa, até porque do dia da minha inspeção só me lembro dos muitos nomes desapropriados com que massacraram os mancebos, ditos por capangas militares que empertigavam as veias do pescoço, mas acho que faz falta uma instituição que comunique estes valores e que promova o salto para a adultez. A Igreja contribuía muito para a formação humana, social e espiritual das pessoas. A fé não é só um credo. A fé também é um conjunto de valores humanos e sociais e um conjunto de sentimentos que dão densidade à interioridade. Muita gente que passou pela Igreja, nos seus muitos movimentos e instituições, saiu com outra riqueza interior e com uma postura de que são visíveis as suas marcas. A Igreja formava pessoas. A família tinha também uma ação basilar. Os pais tinham a preocupação de acompanhar os filhos, dando-lhes o exemplo antes de mais, e exerciam a autoridade, possivelmente, com alguns excessos, mas havia um caminho e um discurso claro quanto ao ser e estar na vida. Hoje a família está muito instável e tem um discurso desordenado e difuso, subjugado aos «peritos da educação» e agrilhoado ao hedonismo e ao materialismo. A escola completava a família. O professor, para além de comunicar os conteúdos do saber e do conhecimento, que não sofriam grandes flutuações, era também um educador rigoroso e exigente, que promovia o desenvolvimento das capacidades, a interiorização de valores e o crescimento humano.

Recuperar o protagonismo na educação e promover uma nova articulação e complementaridade entre estas instituições sociais, enriquecidas pelos conhecimentos e a experiência que temos atualmente e configuradas às novas realidades que enfrentamos, será um contributo decisivo para formarmos pessoas melhores e transmitirmos a educação que é essencial num ser humano, porque é nas instituições que se cresce. Infelizmente, vamos percebendo que, hoje, educa mais a comunicação social e a Internet e seus sucedâneos do que a família ou a escola e o resultado, como vemos, não é bom.



publicado por minhasnotas às 18:45 | link do post | comentar

Sexta-feira, 05.06.15

Duas enfermeiras do Centro Hospitalar do Porto queixaram- se de que foram obrigadas a fazer um teste de amamentação, espremendo as mamas diante de médicos de saúde ocupacional, para se comprovar que de facto ainda estavam a amamentar e assim terem direito a menos duas horas de trabalho, como manda a lei.

 O caso, mal foi conhecido, gerou imediatamente polémica, ganhou rapidamente os contornos de um «escândalo», e, como não podia deixar de ser, alguns partidos pediram urgentemente esclarecimentos ao Centro Hospitalar do Porto e ao governo, manifestando a sua indignação por tamanho atentado à dignidade das mulheres. O governo, pelo seu ministro da saúde, informou que desconhecia esta metodologia e que iria averiguar e o diretor do Centro Hospitalar do Porto informou que este método será abandonado, sendo substituído por outro procedimento mais correto e menos vexatório.

 Temos de concordar que, de facto, o método é indecoroso e abusivo. Se existem outras formas de o fazer, mais dignas e menos humilhantes e intrusivas à intimidade das pessoas, há que as pôr em prática. Uma entidade patronal tem direito à verdade e a pedir a devida comprovação para determinadas exceções ou direitos que o trabalhador reclame, em conformidade com a lei ou até apelando à bondade da entidade patronal, mas isso não lhe dá o direito a usar todos os métodos possíveis. A decência que a razão nos dita e o respeito pelo trabalhador e pela sua dignidade humana são fronteiras que nunca devem ser ultrapassadas.

 A razão invocada para o uso deste método impróprio foi a suspeição de que existem atestados fraudulentos de mães que já não amamentam, para continuarem a usufruir da redução das duas horas no seu horário de trabalho. É muito provável que existam fraudes e falsidades. Engraçado que contra isto nunca vimos um partido político inflamado e indignado ou organismos e entidades a exigirem mais ética e honestidade aos trabalhadores. Não faz parte do politicamente correto da nebulosa sociedade em que vivemos e vai contra a moralidade oca que o turvo discurso mediático nos impõe. O trabalhador é sempre o pobre explorado e o patrão é o rico explorador. Por isso, convencionou-se que só se deve dar pancada no patronato. Mas a realidade mostra-nos que existem bons e maus dos dois lados. Sermos justos com todos é a melhor atitude a adotar.

 O método para se provar a amamentação é inaceitável, mas também o é a mentira, a fraude e o engano. E não sejamos ingénuos: existem muitas trafulhices, trapaças e falsidades de muitos trabalhadores para com as suas entidades patronais ou outras entidades. E parece que há um acordo tácito que legítima o direito a cada um fazer o que muito bem lhe interessa de acordo com as suas conveniências. Vale a pena lembrar que o fazer pela vida não pode ser feito à margem das leis, nem à custa da transgressão da moral que se exige a uma pessoa humana.

 O que este dito escândalo mais uma vez transparece é que vivemos numa sociedade em que a moral e a ética andam pelas ruas da amargura. Há uma preocupante degradação moral no mundo atual. Há falta de seriedade e de verdade. Criámos um ambiente social em que desconfiamos todos uns dos outros e já quase ninguém confia em ninguém. Quando é assim, burocratizamos a vida: tudo tem de se provar e comprovar. Temos de andar todos de papel na mão e carimbo no bolso. A palavra dada não tem valor nenhum e os compromissos valem até onde as conveniências e os interesses ditarem. Louva-se a esperteza saloia e a astúcia desonesta e apelida-se de parvo e ingénuo quem age com honestidade e integridade. A ditadura dos interesses corrompe tudo. Paulatinamente, temos vindo a condimentar o caldo para fazermos da vida um pequeno inferno onde todos vivemos. É lamentável que vivamos numa sociedade assim. Uma sociedade que não tenha na sua base a moral e a ética é uma sociedade que se constrói com alicerces de areia.



publicado por minhasnotas às 11:20 | link do post | comentar

Quarta-feira, 13.05.15

Mónica Lewinsky, num vídeo TED, conta-nos a experiência fulminante e dolorosa por que passou desde que em Janeiro de 1998 foi conhecido o seu caso com o ex-presidente americano, Bill Clinton. Começa por nos informar de que está profundamente arrependida desta aventura amorosa, que trouxe consequências devastadoras para a sua vida. Sabe que jamais encontrará o tira-nódoas para limpar esta mácula inapagável. Mas, no fim do vídeo, vemos uma Mónica a olhar em frente, a dizer com convicção que sobreviveu. Todos têm direito a recomeçar.

 O seu caso rebentou na era da revolução digital. Ao fim de meia dúzia de horas de ser mediático, a sua fotografia estava espalhada por todos os cantos do mundo e por todas as redes socias, sites e jornais. Sem qualquer dó nem piedade, Mónica foi sugada para o centro de um turbilhão de humilhação pública, com comentários ignóbeis, piadas torpes, julgamentos cruéis, mails infames, facilmente criados por muitos atiradores de pedras anónimos e covardes que nascem como cogumelos na internet e espalhados por muitos de forma inconsciente e insensível. Todos os nomes ultrajantes lhe foram aplicados. Não havia dia em que não sentisse que era o alvo preferido para todo o tipo de escárnio, zombaria e irrisão. «Vista por muitos, mas conhecida por poucos». Em poucos dias, perdeu toda a sua reputação e dignidade. Quase ia perdendo a vida, mas, graças à família, «sobreviveu».

 Impressionada com a tragédia do jovem americano Tyler Clementi, que em 2010 se suicidou depois de ser divulgado na internet um vídeo de uma relação sexual com outro colega, Mónica decidiu fazer este vídeo para alertar sobre dois graves problemas nas sociedades atuais, que nos obrigam a refletir: a crueldade e a falta de ética no submundo da internet e a indústria da humilhação. Já aqui o referi mais do que uma vez, o submundo da internet, onde qualquer pessoa minimamente habilidosa consegue construir um site ou um blog ou participar em redes socias, com posts, artigos e comentários ao sabor da sua libertinagem e dos seus humores, veio pôr a nu a malcriadez, a boçalidade, a incivilidade e a ominosa falta de valores dos tempos atuais. É de ficar estupefacto com a facilidade com que hoje em dia se insultam e se humilham os outros e se comenta e expõe a vida das pessoas, sem a mínima capacidade de escuta e de diálogo e sem qualquer mínimo respeito pelos outros, o que não deixa de ser sinal de um profundo mal-estar no íntimo das pessoas e de como estamos empobrecidos como pessoas humanas. Na sociedade da globalização e da mediatização, como é esta em que vivemos, há uma execrável indústria da humilhação, comandada por alguns órgãos de comunicação social e seus apaniguados, que anda só em busca do que é escandaloso, abjeto, vergonhoso e imoral, ou seja, o sensacionalismo. E quanto pior, melhor, tudo fazendo para que o falatório e o impacto sejam cada vez maiores. Assim poderá vender mais e quanto mais vende, mais lucros pode ter. É uma indústria que vive à custa do rebaixamento e do aniquilamento das pessoas, decepando irremediavelmente vidas a toda a hora na guilhotina escabrosa da sua ignomínia. E o que é terrível constatar é que a sociedade consome e devora esta indústria. Que mau gosto e que estranha forma de estar na vida! Qual é o diário português mais vendido em Portugal?

No seu vídeo, Mónica aponta algumas soluções, com as quais concordo: temos de empreender uma revolução humana e uma revolução digital, com ética. Vivemos numa sociedade que nos tem vindo a tornar frios e insensíveis para com os outros, vive-se numa surdez alarmante. É preciso recuperar valores fundamentais na convivência e na relação entre pessoas humanas, como são a compaixão e a empatia. Jesus Cristo disse isto, por outras palavras, há dois mil anos. O outro que está a meu lado, seja ele quem for, merece ser atendido, escutado e amado e não desprezado e humilhado. Toda a pessoa humana quer ser feliz, realizando a sua humanidade. Logo, isso implica acolhimento e total respeito pelo seu nome, pela sua diferença e pela sua dignidade. A internet é um meio fabuloso e poderosíssimo, que revolucionou o mundo. Foi criada para se comunicar e partilhar dados e para facilitar e agilizar a vida das pessoas. Não deve ser usada para denegrir e humilhar os outros, nem para descarregarmos os nossos ódios, invejas e azedumes sobre os outros ou sobre a sociedade, sem o mínimo respeito por nada, nem por ninguém. A liberdade de expressão não dá o direito a insultar e a falar mal sem preocupação pela verdade e pela retidão.

Em mês de revolução, que estas também não deixem de estar nos nossos horizontes, mantendo-nos alerta para lá das muitas anestesias em que vivemos ou em que nos querem fazer viver. Temos um grave deficit de humanidade na sociedade atual, que não nos pode deixar indiferentes.



publicado por minhasnotas às 12:00 | link do post | comentar

Quarta-feira, 22.04.15

Na vida, confrontamo-nos com vários tipos de críticos: os imprudentes, que sem conhecerem a nossa vida e as verdadeiras razões porque atuamos de determinada maneira, fazem juízos de valor generalistas injustos; os acríticos e oportunistas, que quando os outros criticam também aproveitam para criticar, para fazer coro, na convicção de que picadas de vespa nunca mataram ninguém; os invejosos, que não podem ver o sucesso e a sombra dos outros; os verrinosos e cáusticos, que têm gosto, mau, diga-se de passagem, em só dizer mal e salientar e depreciar exageradamente o que dizemos e fazemos; os figadais, que se deixam guiar por ódios e inimizades, passando boa parte do seu tempo a descarregar sobre os outros a sua bílis intratável. Jesus Cristo mandou-nos rezar por eles e é o melhor que temos a fazer. Possivelmente, são pessoas que nunca na vida se sentiram bem consigo mesmas, quanto mais com os outros; os oportunos, que encontramos esporadicamente e que devido à sua experiência e sabedoria, nos ajudam a evitar erros e a corrigir atitudes e excessos; para o fim, entre outros que ainda se poderiam enumerar, deixo os bons críticos, pessoas amigas que nos querem bem e nos querem ver melhorar e progredir e que, para isso, com sinceridade, nos fazem boas críticas. Ter humildade suficiente para os ouvir é sinal de maturidade, porque ninguém é perfeito e faz tudo perfeito. Quem não sabe conviver com a crítica justa e construtiva ainda tem uns bons centímetros para crescer. Os bons críticos favorecem a perfeição e ajudam a abater tontices e credulidades tansas.

Erasmo de Roterdão foi um desses críticos para a Igreja do seu tempo, ou de todos os tempos, como vamos ver. Foi um teólogo e um humanista holandês que viveu nos séculos 15 e 16. Em 1509 publicou um pequeno livro, «Elogio da Loucura», obra dedicada a Tomás More, onde, com irreverência e sarcasmo, faz uma grande crítica à vida monástica e aos excessos e práticas grosseiras e balofas da Igreja Católica. Na introdução dirigida a Tomás More, diz: «Uma sátira que não exclui género de vida, não ataca qualquer homem particular, mas os vícios de todos, (…) procurei mais a volúpia do que a mordacidade, cataloguei as coisas ridículas e não as vergonhosas.» Algumas da suas críticas continuam atuais e é importante escutá-las com atenção e serenidade. Afinal, o ser humano tem tendências que se refletem em todas as épocas e tempos. A ignorância espreita todos os cantinhos para se tornar nossa conselheira a toda a hora.

Nas homilias, é preciso algum cuidado. Diz Erasmo: «São, sem dúvida, da nossa farinha os homens que se deleitam com histórias de milagres e prodígios, quer escutando-as, quer narrando-as, e que não se saciam com fábulas portentosas, de espectros, lémures, fantasmas e infernos. Quanto mais longe estiverem da verdade, maior crédito merecem àqueles que para as ouvirem estremecem as orelhas com alegria. Estas narrativas não tendem só a matar o tédio das horas, mas dão também algum proveito, especialmente aos clérigos e aos pregadores».

Temos uma cultura do elogio fácil, para se agradar às pessoas ou porque pensamos que as pessoas não conseguem viver sem elogios. E há quem viva só para os elogios, porque a «a adulação é uma grande parte da tão louvada eloquência, maior ainda na medicina, máxima na poética: é o mel e o condimento de todos os costumes humanos.»

Interessante também é a crítica que ele faz aos nossos gostos auditivos e à qualidade da nossa vida intelectual e como é penoso constatarmos como isto está mais entranhado em nós do que pode parecer: «O ânimo do homem é de tal maneira esculpido que muito mais lhe agrada a ficção, do que a verdade. Experimentai. Ide ao templo ouvir o pregador. Se este narra coisas sérias, bocejam ou dormitam de aborrecimento. Mas se o declamador (desculpai o lapso, queria dizer o pregador) procedendo como quase sempre, entra no exórdio por uma fábula, todos despertam e prestam ouvidos. Do mesmo modo, quando se trata de um santo fabuloso e poético, como por exemplo S. Jorge, S. Cristóvão, Santa Bárbara, vereis que eles têm muito mais devotos do que S. Pedro, S. Paulo ou o próprio Cristo.» Como padre, acho que o entendo muito bem.

A teologia é fundamental dentro de uma religião. Sem teologia, a religião fica reduzida a uma crendice e a um rebanho de piedosos ignorantes. Mas convém que os teólogos não se estiquem: «A erudição dessa gente é tanta, tantas são as dificuldades que eles apresentam, que os próprios apóstolos teriam de receber outro Espírito Santo para discutirem esses assuntos com os novos teólogos».

Inaceitável também é a crendice e a religiosidade mágica, a roçar o bacoco: «A turba oferece à Virgem, mãe de Deus, uma vela, até mesmo ao meio-dia, que não lhe serve para nada. Mas poucos se esforçam por imitar as virtudes, a caridade, a modéstia, o amor das coisas celestes.»

Infelizmente, vivemos tempos em que a verdade e as coisas sérias da vida não estão no cimo das prioridades. A diversão, a fantochada, o pagode, a troça e a ficção são senhoras do tempo, porque «destruir a ilusão é destruir a arte. Eram a ficção e o disfarce o que prendia a atenção dos espectadores. Toda a vida dos mortais não passa de uma comédia, na qual todos procedem conforme a máscara que usam, todos representam o seu papel, até que o contra-regra os mande sair de cena.»

E será fácil mudar mentalidades? «A razão pode gritar até enrouquecer para fazer cumprir as fórmulas da honestidade; é rainha a que os homens não obedecem, a que os homens replicam com injúrias, até que emudeça ou se declare vencida.»

Isto foi escrito há quinhentos anos!

 



publicado por minhasnotas às 11:02 | link do post | comentar

Segunda-feira, 13.04.15

No dia 7 de Março, O Papa Francisco assinalou os cinquenta anos da primeira missa celebrada em italiano pelo Papa Paulo VI, visitando a mesma paróquia onde a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II (1962-65) foi inaugurada, a paróquia romana de Todos os Santos. Por determinação do Concílio, a liturgia passaria a ser celebrada nas línguas vernáculas, ou seja, nas línguas próprias de cada país. É apelidada como «a grande mudança». Como sabemos, excetuando-se a homilia do presidente da celebração, toda a liturgia era celebrada em latim, língua que o povo não compreendia. 

O latim deixou de ser rei e senhor na liturgia, mas não foi ostracizado. Aliás, o Concílio sublinhou o grande valor que o latim tem na vida e na história da Igreja e recomendou que «deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos», ou seja, que certas partes da liturgia sejam cantadas e rezadas em latim, recomendação que nem sempre é acautelada nas celebrações cristãs. Continua ainda a ser a língua oficial da Igreja Católica.

A reforma do Concílio foi orientada por um regresso aos inícios e à prática original do Cristianismo. Jesus Cristo falou o aramaico palestinense. Os primeiros cristãos falaram e usaram, sobretudo, o grego. Só no século IV é que surge a tradução da Bíblia para latim, feita por S. Jerónimo. Com o tempo, por força da reforma gregoriana na Idade Média e com o Concílio de Trento no século XVI, o latim monopolizou a liturgia e a vida da Igreja. Não é correto dizer-se, como se ouve muitas vezes, que o latim é o mais genuíno e o mais original da história da Igreja. Não é. É o vernáculo. Os primeiros cristãos falaram e escreveram na sua própria língua.

Como seria de esperar, devido a sensibilidades díspares, não houve unanimidade à volta da reforma. Um bom número de católicos, por vezes denominados de saudosistas ou de conservadores, ou até de tridentinos, defendeu o senhorio do latim na vida da Igreja e na liturgia. Em parte, alguma da sua argumentação tem sentido: o latim dá um certo carácter sagrado à liturgia, isto é, retira a liturgia da vulgaridade e fá-la parecer uma ação de Deus, como realmente é, sobre o povo. Mas esbarra num problema de fundo: não é compreendido.

Não há línguas sagradas. Deus e os seus dons é que são sagrados. Lembro-me de uma entrevista a um jornal da grande Agustina Bessa Luís, aqui há uns anos, quando afirmou que pelo facto de a Igreja deixar de usar maioritariamente o latim, retirou à liturgia muita da sua sacralidade. Por sacralidade entende-se o que é de outro mundo e que não se entende, misterioso. É uma conceção errónea da fé cristã e da liturgia. O Cristianismo não é uma religião misticísta e mistérica. Quando a Igreja usa a palavra mistério quer dizer algo que já se compreende e saboreia, mas não ainda em toda a sua profundidade e plenitude, e não no sentido do mistérico ou do puramente desconhecido.

Cinquenta anos passados da «grande mudança», a Igreja deve rejubilar pelo grande passo que foi dado, sobretudo porque foi um progresso que veio de encontro à identidade e à essência do Cristianismo, que tem na sua base a comunicação, o Verbo, o Logos. A fé é a resposta do homem à iniciativa de Deus em se revelar e comunicar aos homens, para com eles viver em relação e celebrar uma aliança. E Deus fê-lo de forma sublime: fez-se igual a nós. «O Verbo incarnou e habitou no meio de nós». Para haver verdadeira relação é fundamental a comunicação. Não tinha sentido celebrar uma liturgia e ler leituras, que são Palavra de Deus, que a esmagadora maioria dos ouvintes não entendia. S. Paulo, na sua Carta aos Romanos, diz algo de fundamental: «A fé surge da pregação». A liturgia parecia mais uma ação do padre e não de todo o povo, que se habituou erradamente a «assistir à missa» ou a «ouvir a missa». O povo era mero assistente ou espectador, criando o hábito de rezar o terço enquanto o padre se virava para os altares. Agora que todos falamos a mesma língua, sentimos Deus mais próximo e percebemos que somos todos participantes. É todo o povo que celebra. O padre ou o bispo preside.



publicado por minhasnotas às 15:29 | link do post | comentar

Terça-feira, 24.03.15

A missa é o sacramento mais importante da vida da Igreja, sem esquecermos, claro, a importância de todos os outros. Ela é o centro. Todos os outros estão ordenados para ela. Não foi por acaso que o Concílio Vaticano II a definiu como «a fonte e o cume da vida da Igreja», ou seja, é a partir dela e para chegar a ela que vive a Igreja. Na celebração da missa, Cristo atualiza a sua vida e obra a favor da humanidade e une a si a Igreja, o conjunto dos batizados, que, assim, se torna em Corpo de Cristo e Povo de Deus, e com Cristo e em Cristo, toda a Igreja dá graças a Deus, oferece a sua vida a Deus e suplica pelas necessidades da Igreja e do mundo. Com a simbólica da mesa como pano de fundo, a missa realiza a comunhão dos crentes com Deus e dos crentes entre si. Toda e qualquer missa que se celebre deve ter única e exclusivamente este fim. E não se deve querer outra coisa senão esta: que a missa seja mesmo missa e só missa e mais nada.

Não faltam por aí opiniões de muitos cristãos e não cristãos sobre como deveria ser celebrada a missa. Há sugestões e opiniões para todos os gostos e feitios. A verdade é que poucos captam o essencial da missa: ela é celebração e acolhimento da presença de Cristo ressuscitado, que nos dirige a sua Palavra e nos dá o Pão do seu Corpo, para que a Igreja seja mesmo Igreja e se realize a comunhão entre todos. A primeira motivação para se ir à missa é a vontade de se ir escutar uma palavra que salva e adorar uma presença que renova e transforma, em espírito de ação de graças. O mais importante não é aquilo que levamos para a missa, embora também o seja, ou que forma que lhe vamos dar. Ela já está feita e bem feita. O mais importante é a disposição e a vontade que levamos para ouvir, acolher, saborear e adorar aquilo que Cristo tem para nos dar. Quem faz a missa, primeiro que tudo, é Cristo e não nós. Nós somos os felizes convidados. São poucos os cristãos que aqui chegam.

Infelizmente, porque é considerada a celebração e o momento mais importante da vida da Igreja e porque nem sempre é devidamente entendida, também é o sacramento mais instrumentalizado, manipulado e banalizado na vida da Igreja e na vida social, dado que urge refletir. Está instalada uma cultura de se rezar missa por tudo e por nada e para tudo e para nada, sem se acautelar devidamente a séria razão de ser da sua celebração, a sua preparação, a verdade da sua vivência e o compromisso que gera em quem a celebra.

Mesmo dentro da vida da Igreja ainda há muito a fazer para se celebrar a missa com a dignidade e a solenidade que ela merece, sem nunca deixar de ser um encontro festivo. Mas festivo não quer dizer festeiro. Há muita falta de compressão e de formação sobre a missa. Vejamos alguns exemplos. Para muitos cristãos, a missa é um simples convívio. Assim sendo, o que importa são os cânticos e as «coisas engraçadas» que se vão fazer e o desempenho que se vai ter. Temos assim as missas festivaleiras. Há cristãos que dizem que vão a tal paróquia porque gostam dos cânticos. Esta nunca pode ser a principal razão de se ir à missa. Os cânticos devem estar na liturgia para ajudar a viver a liturgia, isto é, a aderir mais a Cristo e a interiorizar a sua palavra, no justo equilíbrio com o silêncio. Os cânticos não são para entreter nem para distrair agradavelmente as pessoas. Para isso temos outros momentos. Podemos correr o risco de reduzir a missa a um festival para passar o tempo e nos entretermos e passamos ao lado do essencial da missa.

Temos também as missas para crianças, que em muitas paróquias se celebram. Para crianças não quer dizer missas infantis.Com uma linguagem mais simples e acessível, têm como objetivo ajudar as crianças a descobrir a beleza da missa e a educá-las na sua celebração, juntamente com toda a família. O que acontece muitas vezes é que se fica muito no desempenho e na forma e não se vive o essencial da missa, reduzindo-se a missa a uma peça teatral, em que os adultos se tornam meros espectadores dos pequenos atores.

Durante a semana, a Igreja costuma rezar a missa pelos defuntos. Mas é bom que se lembre que ela primeiro que tudo é para os vivos. Não se vai à missa da semana simplesmente para se ser um assistente ou um espectador de uma missa em que é lembrado um familiar ou um amigo. Vai-se à missa porque é missa e se todos os dias puder participar na missa, tanto melhor. Porque a ideia que fica é que, para muitos cristãos, a missa da semana é só para fazer memória e rezar pelos mortos. A missa da semana, como qualquer outra missa, é encontro com Cristo e uma ação d’Ele sobre o mundo e a Igreja.

Depois também temos, algumas vezes, as missas folclóricas, em que a atenção recai num certo tipo de roupas ou no cumprimento de certos protocolos ou costumes, imposição de insígnias, etc. Isto acaba por ter uma relevância que deixa na sombra a missa em si. Estas coisas poderão ter o seu espaço dentro da celebração da missa, se é que têm, mas atualmente são feitas com excessos. E temos também as missas de tradição, em que celebram porque «é costume ou tradição» que assim se faça. Cumpre-se a tradição e vai-se à vida. Não é motivação válida para se celebrar a missa.

Na vida social, não há festa ou evento que não se dê ao luxo de ter no seu programa a celebração da missa, que não passa de mais um adorno, solicitada, muitas vezes, por cristãos que raramente participam na vida da Igreja e que não têm comunhão eclesial. É um abuso e uma grave banalização da missa celebrá-la só para cumprir e embelezar programas. Na missa do Domingo, de que muitos andam arredados, cabem lá todas as boas intenções, homenagens e ações de graças.



publicado por minhasnotas às 10:12 | link do post | comentar

Segunda-feira, 16.03.15

Tenho dedicado algum tempo a tentar compreender o que é que leva jovens europeus a tomarem a decisão de ir combater no Iraque ou na Síria, ou noutras partes do mundo, e a serem atores de carnificinas diabólicas e de vídeos bárbaros, para espalhar o terror. O assunto é complexo e deve ser motivo de grande reflexão na Europa. O que leva jovens a abandonarem uma das regiões do mundo onde se vive melhor, onde há abundância material, liberdade, paz e democracia, para irem para terras de guerra e de grande instabilidade política, económica e social? Alguns cidadãos atentos, por norma, pragmáticos, e alguns estudiosos apontam algumas motivações: desilusão para com a sociedade europeia, que lhe coartou o futuro e os empurrou para um beco sem saída; desemprego; protesto ou até frustração contra a rivalidade e a competição que se instalou nas sociedades europeias, nas instituições e nas empresas; tédio face ao individualismo e ao hedonismo que vigora no estilo de vida europeu, que tem arrastado muitos jovens para o mar da indiferença angustiante e do sem sentido da vida; desgaste político, social e económico das sociedades europeias, que se encontram sem líderes e sem soluções para os problemas; diluição da instituição familiar e ausência do acompanhamento e da educação sólida que ela veiculava; persistência de preconceitos e de uma certa sobranceria dos europeus face a outras culturas; má integração e socialização; educação deficiente dos sistemas e conteúdos de ensino, excessivamente técnicos e intelectuais, com pouca preocupação pela moral e pela ética e pelas grandes inquietações humanas; culto da violência e da agressividade e busca incessante de sensações novas, para se colmatar o marasmo e o vazio da vida; falta de reconhecimento e busca de glória e de projeção a qualquer custo, entre outras.

 Não há dúvidas de que tudo isto está presente nas sociedades europeias e poderá motivar a procura de outras paragens. Eu apontaria, sobretudo, o grande vazio que reina na vida de muitos jovens. Na Europa, preocupámo-nos sobretudo com o bem-estar psíquico, psicológico, material e social das novas gerações. Fizemos da diversão e do entretenimento, o mais personalizado possível, a fonte da felicidade para jovens e crianças. Mas esquecemo-nos do essencial: transmitimos visões superficiais da vida e não lhes comunicámos causas e ideais, não lhes comunicámos razões de vida e motivações profundas para que a vida se realize verdadeiramente, seja fecunda, e tenha verdadeiro sentido. Não nos preocupámos com a sua forma de estar e de viver e de interagir com os outros. Não se pode andar aqui muito tempo sem se ter uma razão e um motivo nobre e válido que dê sentido à vida e que a torne justificável. O vazio tem vindo a tomar conta das sociedades europeias, vazio que é urgente repensar e preencher. O filósofo francês, Gilles Lipovetsky, no livro «A Era do Vazio», escreve: «Já nenhuma ideologia política é capaz de inflamar as multidões, a sociedade pós-moderna já não tem ídolos nem tabus, já não possui qualquer imagem gloriosa de si própria ou projeto histórico mobilizador; doravante é o vazio que nos governa, um vazio sem trágico nem apocalipse». E ainda: «A res publica encontra-se desvitalizada, as grandes questões filosóficas, económicas, politicas ou militares suscitam mais ou menos a mesma curiosidade desenvolta do que um qualquer fait divers; todos os cumes se abatem pouco a pouco, arrastados pela vasta operação de neutralização e banalização sociais. Viver sem ideal e sem fim transcendente tornou-se possível». Tornou-se possível até que se torna impossível.

 Mas coloca-se, agora, a pergunta: Porque que é que estes jovens optaram pelo mal e não pelo bem? Não faltam regiões no mundo onde poderiam ser extremamente úteis, colaborar para o bem dos outros, viver bem e realizar a maioria dos seus anseios e projetos, em vez de irem combater para exércitos como mercenários, em nome de ideologias diabólicas, que têm como fim a barbárie e o terror. A verdade é que nas sociedades europeias somos tolerantes com uma certa cultura de violência e até fazemos da violência entretenimento, com grave prejuízo para as relações humanas e sociais. Muitos vídeos das redes socias e as notícias diárias assim o atestam. E já nem falo dos vídeo jogos e de outros entretenimentos, que têm sempre como fim eliminar e violentar. Não pensemos que esta cultura de violência que toleramos não tem consequências. Estamos pobres como pessoas humanas e perdemos a noção dos limites. E isto é muito preocupante. O bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, no dia 24 de Janeiro, no II Encontro Nacional de Leigos, dizia na sua homilia: «O modelo predominante da sociedade europeia contemporânea diz-nos que as crianças são ensinadas mais para «ter» do que para «ser». Preparamos as novas gerações para a competitividade e para a rivalidade. Educamos muitas vezes mais para a afronta e para a violência do que para a reconciliação, para o diálogo, para a mansidão e para a paz. Vivemos assim num modelo de sociedade que facilmente empobrece as pessoas, lhes retira generosidade e lhes provoca um vazio de sentido e uma ausência de esperança. A procura de liberdade, de comunhão e de paz é atendida com objetos que o dinheiro compra mas que o amor de Deus, o afeto do coração e a dádiva da vida não trabalharam suficientemente. E por isso verificamos por entre tristezas, desilusões e medos que esta sociedade que aparentemente crescia depressa em bem-estar, progresso e abundância não cresceu em solidariedade, em respeito, em gratidão, em responsabilidade e em preocupação pelos outros».



publicado por minhasnotas às 18:58 | link do post | comentar

Sexta-feira, 27.02.15

Na visita às Filipinas, durante o mês de Janeiro, o Papa Francisco escutou o testemunho emocionado de duas crianças, que antes tinham sido meninos de rua, experienciando o mundo desumano onde existem todos os tipos de abusos, drogas e prostituição, abandonadas pelas famílias.  Diante das lágrimas sinceras e comoventes de uma das crianças, o Papa Francisco colocou de parte o discurso que levava preparado e fez um de improviso, falando com o coração. Na palavra de alguns teólogos, o Papa expôs a teologia das lágrimas. As palavras, de que fiz uma compilação, não nos deixam indiferentes: «A grande pergunta que se põe a todos: Porque sofrem as crianças? Porque sofrem as crianças? Precisamente quando o coração consegue pôr a si mesmo a pergunta e chorar, então podemos compreender qualquer coisa. Há uma compaixão mundana que não serve para nada! Uma compaixão que, no máximo, nos leva a meter a mão na carteira e dar uma moeda. Se esta tivesse sido a compaixão de Cristo, teria passado, teria curado três ou quatro pessoas e teria regressado ao Pai. Somente quando Cristo chorou e foi capaz de chorar é que compreendeu os nossos dramas. Queridos moços e moças, no mundo de hoje falta o pranto! Choram os marginalizados, choram aqueles que são postos de lado, choram os desprezados, mas aqueles de nós que levamos uma vida sem grandes necessidades não sabemos chorar. Certas realidades da vida só se veem com os olhos limpos pelas lágrimas. Convido cada um de vós a perguntar-se: Aprendi eu a chorar? O meu chorar não passa do pranto caprichoso de quem chora porque quereria ter mais alguma coisa? Se vós não aprenderdes a chorar, não sois bons cristãos».

 O Papa Francisco chama atenção para a compaixão oca e estéril de que somos portadores tantas vezes. A palavra compaixão significa saber sofrer com, entrar no sofrimento do outro e fazê-lo nosso, experimentar com toda a força a dor e o desespero do outro, que nos leve a estar ao pé dele e a agir para o aliviar ou libertar do seu sofrimento. Como diz o Papa, é saber chorar o sofrimento do outro. E nós não fomos muito habituados a chorar o sofrimento dos outros.

 Infelizmente, muitas vezes, diante do sofrimento alheio, só nos limitamos a expressar meia dúzia de palavras sentidas, nem sempre sentidas, a ter pena da sua dolorosa situação e a ter um pequeno gesto, por norma, passageiro e sem grande incómodo para nós, e vamos para casa felizes da vida, ilusoriamente consolados de que somos muito amigos dos outros e que fizemos uma grande obra de caridade, quando não fizemos. A verdade é que, e o mundo atual que o diga, vivemos muito pouco preocupados com o bem-estar e o sofrimentos dos outros e não queremos perder muito tempo com quem possa estorvar os ganhos e o êxito e o sucesso imediatos, que o nosso egoísmo e os nossos interesses reclamam, a não ser, possivelmente, que esteja em causa algum grande amigo ou um familiar de quem se goste. De resto, vamos vivendo muito bem com os calvários dos outros. Deixamos que a vida nos abra os olhos e quebre o gelo que toma conta do coração.

 Há uma grande crise de bondade e de compaixão na sociedade atual. Recordo aqui uma frase aguda de José Saramago: «O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses».

 Uma prática que nos adormece e ofusca a consciência é a esmola, julgando muitos que é nela que se esgota o espírito caridoso de um cristão ou da moral cristã. Poderíamos dizer que ela é o mínimo dos mínimos da ética cristã. A esmola, noutros tempos, foi usada para os ricos ostentarem a sua riqueza e o seu poder face aos mais pobres e até para os humilhar ou manipular. E hoje também pode continuar a servir para se ir praticando a caridade das sobras e para os bem remediados se desenvincilharem dos mais desfavorecidos e até para os instrumentalizar. Não digo que ela não seja útil e eficiente em casos pontuais, como de facto é. Mas a verdadeira caridade cristã (amar e fazer o bem continua e desinteressadamente,  como Deus o faz) está muito para lá da esmola. Implica diariamente a real e sincera preocupação pelos outros, o dispor da vida para permanentemente se acrescentar libertação, salvação, amor, dignidade e realização à vida dos outros ou da sociedade em geral. A verdadeira esmola é dar a vida. A caridade não se resume a gestos ou atos, é toda uma forma de estar na vida, como Jesus Cristo o fez. Parece-me que é uma caridade que não está muito em voga.

Na sociedade em que vivemos, vão surgindo muitas iniciativas denominadas de solidariedade, por exemplo na televisão, na rádio ou outras que partem da iniciativa de instituições. Não duvido das boas intenções e dos bons sentimentos de quem as organiza, mas corremos muito o risco de nos anestesiarmos numa solidariedade light pontual e efémera, numa solidariedade cosmética, com muitos famosos e endinheirados à mistura, mascarada e maquilhada de verdadeiro amor aos outros e de verdadeira preocupação pelos outros, quando, na verdade, não é bem isso que nos orienta e preocupa, mas ir na onda para parecer bem e sossegar a consciência. A verdadeira solidariedade é o compromisso diário com os outros e seus problemas e necessidades, por muito que isso nos desarranje a vida, e com as causas socias e humanas que podem humanizar a vida e a sociedade. Se assim não for, mais não fazemos do que andar iludidos numa compaixão mundana que, de facto, não serve para nada.



publicado por minhasnotas às 11:46 | link do post | comentar

Segunda-feira, 09.02.15

Nos últimos dias, não pudemos deixar de acompanhar e partilhar a consternação e a indignação que invadiu os espíritos pelo atentado terrorista abominável que ocorreu em França. Para além de atingir valores fundamentais das sociedades democráticas ocidentais, o que choca, sobretudo, é a banalização da morte e do mal e o total desrespeito pela vida humana, que é sagrada. E fazê-lo em nome de um deus ou de um profeta, é uma gravíssima manipulação e instrumentalização da religião. Mais um contributo para duas inquietantes constatações: a mentalidade e a consciência humanas não têm acompanhado o progresso e a evolução científica e tecnológica das nossas sociedades e a sociedade do conhecimento e da informação não formou nem fez evoluir o ser humano, ou, pelo menos, não o tem feito como era expectável. Acusamos outras épocas da história se serem tempos de ignorância e de aviltamento da pessoa humana. E se olhássemos um pouco mais para nós? Temos atualmente um homem rico na materialidade e na cientificidade, mas pobre na interioridade e na humanidade.  É isto que nos deve fazer refletir. Andamos centrados na técnica e nos instrumentos e nos meios e não na pessoa humana. É preciso inverter este caminho errado e trazermos para o centro do debate e das nossas preocupações a ética e a humanização, com todos os valores e princípios que lhes estão umbilicalmente ligados.

 Acontecimentos destes dão origem a manifestações espontâneas e arrebatadoras.  As grandes figuras mundiais da vida política e social acorreram a elas. Mas é incompreensível que, no ano passado, tenham morrido quase quarenta mulheres em Portugal vítimas de violência doméstica e que só meia dúzia de cidadãos se tenha manifestado e que nem um único político tenha levantado a voz com a indinação que os dados exigem. É incompreensível que todas as semanas morram africanos nas águas do Mediterrâneo, para tentar alcançar a Europa, em números assustadores, e que nenhuma manifestação se tenha feito em defesa da vida e da dignidade humana, com a total passividade e indiferença da comunidade política e das sociedades europeias, salvando-se o Papa Francisco que, com frontalidade e coragem, alertou para o drama. Não dá para entender a nossa inconstância e inconsistência europeias:  diante dos mesmos valores e das mesmas violações e desrespeitos, umas vezes reagimos e outras vezes não reagimos. Só andamos atrás das ondas mediáticas do momento. É próprio dos incoerentes. E é incompreensível que nós, europeus, que nos damos ao luxo de invadir as terras arábicas e de obter as suas matérias-primas mais valiosas e de ainda por cima achincalharmos a sua cultura, vivamos ingenuamente pensado que isso não tem um preço ou uma consequência.

Sem dúvida que um dos valores inquestionáveis da cultura ocidental e da democracia é a liberdade de expressão. Cultivar o humor, com a justa dose de ironia e sátira,  é saudável, porque o humor faz crescer e ajuda-nos a abater as nossas megalomanias e as nossas contradições, e, sobretudo, cria momentos de boa disposição.  Mas a liberdade de expressão não é absoluta. Tem limites. E já se ouviram muitos disparates nos últimos dias. Passar o tempo todo a insultar e a ridicularizar a fé dos outros não é liberdade de expressão. As religiões devem estar abertas à crítica e à sátira, até porque lhes fazem muito bem, para purificarem as suas representações de Deus e a validade dos seus ensinamentos, mas há limites. Muito do que o jornal francês publica é insultuoso e de muito mau gosto. Como compreender que se viva só quase para insultar as convicções dos outros? Não consigo compreender a necessidade persistente e quase mórbida de denegrir e escarnecer convicções religiosas alheias. Lá no fundo também é uma forma de fanatismo: é dizer aos outros que eles é que têm razão e que os outros deviam pensar como eles. De qualquer forma, que fique bem claro: não é motivo para tirar a vida a ninguém. Mas temos de aprender a não insultar. Há um dado da cultura ocidental, que, talvez, cause assombro ao Oriente: perdemos a noção e o respeito pelo sagrado, perdemos o contacto com a transcendência e tornámo-nos sociedades sem espiritualidade. É uma visão da vida que um árabe não consegue entender.



publicado por minhasnotas às 09:51 | link do post | comentar

Segunda-feira, 02.02.15

Tenho acompanhado com algum interesse todo o circo mediático que se montou à volta da prisão do cidadão José Sócrates. De dia para dia só sinto aumentar a minha perplexidade, sobretudo, porque vemos cair por terra a sã não intromissão da política na justiça, que muito bom político se fartou de proclamar aos quatro ventos e nos tentou impingir durante quarenta anos de democracia, e porque vemos ruir a firmeza e a credibilidade do maior pilar do regime democrático, sem o qual jamais haverá democracia, a justiça. Lá diz  o povo: se a justiça não faz nada, a justiça só quer saber dos seus interesses e não temos justiça, se atua, faz tudo mal e age em nome de poderes obscuros.  

 Os cidadãos têm-se dividido entre a culpabilização e a inocência, ambas sem fundamentação. É bom lembrar mais uma vez que a presunção da inocência é um princípio fundamental e inquestionável e todos têm direito a ela até a justiça provar o contrário. É inaceitável o julgamento injusto, e até desumano, na praça pública, com a colaboração de alguma justiça e dos meios de comunicação social, de que são vítimas muitas pessoas que se encontram no cárcere ou em casa à espera de uma sentença judicial.  Do que é verdade ao que parece que é verdade vai uma grande distância. Quantas pessoas inocentes, atiradas para o meio de armadilhas e intrigas, têm vidas arruinadas pela pressa imprudente e pelo espírito justiceiro da praça pública, onde não faltam os atiradores furtivos morais com bolsos cheios de pedras! Até prova em contrário, o cidadão José Sócrates é inocente e ponto final.

 É incompreensível (será?) que ainda pouco ou nada se tenha feito para se combater a violação do segredo de justiça, que é uma transgressão gravíssima no funcionamento sério e discreto que se exige à justiça.  Sempre que ela acontece, os partidos repetem a velha lamúria da sua existência e proferem um conjunto de boas intenções para a combater, mas, até agora, nada. Será porque a violação do segredo de justiça vai servindo para enfraquecer o adversário e para alimentar a triste e estéril guerrilha mediática em que gostam de viver os partidos? A própria defesa do cidadão José Sócrates tem clamado com veemência contra esta violação, mas também usufruiu dela. Como é que o cidadão José Sócrates sabia que ia ser preso quando pisasse terra firme em Portugal? Não deveria o cidadão José Sócrates permanecer em silêncio na prisão,  não revelando o que tem acontecido nas suas audiências com o juiz? Que outro cidadão teve a possibilidade de se defender na praça pública, dizendo o que muito bem lhe interessa,  depreciando a própria justiça que o prendeu?  É salutar que assim seja? Isto também não é violar o segredo de justiça? Parece que a violação do segredo de justiça só é má quando se vira contra nós. A nosso favor ou contra, não devia existir e é preciso que seja seriamente combatida.

 Durante umas semanas, os meios de comunicação social viveram um frenesim e uma excitação invulgares. Claro, estamos no tempo em que a própria informação se tornou um espetáculo. Pareciam um vulcão que há muito  desejava expelir a lava. Conclusão: a informação tornou-se uma maçada, diretos vazios atrás de diretos vazios, com carros da judiciária a entrar e a sair, lampejos da figura do cidadão José Sócrates por entre os intervalos das persianas, esperas ridículas, como as que ainda acontecem à porta da prisão onde se encontra José Sócrates, debates atrás de debates para se estar sempre a dizer o mesmo, entre outras coisas. Enfim, um trabalho jornalístico com pouca qualidade, que não tem como grande fim informar o essencial, mas fazer do leitor e do telespectador um voyeur que se entretém a ver banalidades.  

 Dignas da maior estupefação têm sido as palavras e o procedimento de alguns membros da classe política. Começa logo pela habitual manifestação de solidariedade. Ninguém sabe a vida toda de ninguém. Recomenda-se sempre, por isso, a prudência. Se a justiça reclama esclarecimentos e justificações, espera-se pelo apuramento da verdade. Depois, algumas figuras políticas condenaram a atuação da justiça, na minha ótica, um dos maiores ataques que já se fez à justiça depois do 25 de Abril, depreciando-se, inclusive, o estilo e o caráter do juiz. O que é que o juiz fez até agora que não deveria ter feito? Que se saiba, o juiz tem cumprido a lei, usando todos os recursos que a lei lhe dá, e não cometeu nenhuma ilegalidade. Se assim é, ninguém tem o direito de questionar a ação do juiz. Se só agora descobrimos que as leis estão mal feitas, pergunta-se então à classe política o que é que andou a fazer durante estes quarenta anos de democracia. Só agora, que a justiça está a chegar às suas fileiras, é que constataram que há muita coisa a mudar na justiça? O que é que têm a dizer aos muitos cidadãos que foram julgados por esta lei e por este sistema durante quarenta anos?  

Infelizmente, fica-se sempre com aquela sensação de que quando a justiça só toca nos pequenos e imprudentes deste mundo, tudo está bem, mas quando chega aos grandes e ao poder, alto lá que isto está tudo mal. Ela é para todos. Respeitá-la e deixá-la trabalhar, imune ao dinheiro e às influências, é o quanto é necessário para haver o mínimo de democracia.



publicado por minhasnotas às 19:15 | link do post | comentar

Quarta-feira, 24.12.14

Convidado a participar num congresso sobre astronomia em Espanha, numa entrevista ao jornal El Mundo, o astrofísico inglês Stephen Hawking surpreendeu ao proferir uma afirmação tonitruante: «No passado, antes de entendermos a ciência, era lógico acreditar que Deus criou o Universo. Agora a ciência oferece uma explicação mais convincente. O que quis dizer quando disse que conheceríamos ‘a mente de Deus’ (escreveu isso no livro “Breve História do Tempo) era que compreenderíamos tudo o que Deus seria capaz de compreender se por acaso existisse. Mas não há nenhum Deus. Sou ateu. A religião acredita em milagres, mas estes são incompatíveis com a ciência». A afirmação causou algum impacto no mundo científico, religioso e intelectual em geral, sendo objeto de comentários para todos os gostos, mas também rapidamente caiu no esquecimento. Penso que a sociedade começa a estar farta da gratuidade e da ligeireza com que se nega Deus, mesmo que essa negação venha de reputados cientistas. Deus está muito longe de ser um tema arrumado e descartável.

 Stephen Hawking tem sido das mentes mais brilhantes da astrofísica e da cosmologia. A ele se devem algumas das descobertas mais importantes dos últimos anos, como os buracos negros, e outras investigações importantes para a ciência. E interpela-nos também, sobretudo, pela determinação e coragem como tem vivido há mais de 50 anos com a doença que lhe foi diagnosticada aos 21 anos, a esclerose lateral amiotrófica, doença neurodegenerativa, altamente incapacitante e letífera. É um herói para muitas pessoas e digno de toda a nossa admiração. Neste aspeto é consensual, mas quanto às suas afirmações não é consensual. A mim não me interessa só o texto, mas também o contexto. Para quem acompanha a ciência nos últimos anos, não vejo nada  de novo e de estrondoso e provocante nas suas afirmações porque, de facto, não têm nenhuma novidade e, honestamente, não me parecem genuínas.  

 Porque é que o astrofísico teve necessidade de dizer afirmações tão radicais sobre a não existência de Deus? Quando publicou o livro «Breve História do Tempo» (1988), Hawking escreveu que um dia seria possível conhecermos a mente de Deus. Para uma grande parte do universo científico, esta afirmação gerou pasmo e foi encarada como uma heresia científica, porque o mais comum para um cientista é ser ateu ou agnóstico (nem todos o são, longe disso). Ora, naquela afirmação Hawking abria a porta à crença na existência de Deus. A ciência ateia ficou perplexa. De alguma forma, Hawking sentiu a necessidade de se retratar e de pacificar a sua relação com a sua ala científica, lançando um novo livro, denominado «O Grande Desígnio», editado em Setembro de 2010, onde procura dizer algo de novo, polémico de preferência, adotando uma postura mais rígida quanto à não existência de Deus. Para mim, a afirmação que fez em Espanha vem nesta onda: continuar a ter protagonismo no mundo científico e nos media, fazer marketing do seu livro e sanar alguma desconfiança e especulação sobre as suas convicções e crenças dentro da comunidade científica.

 A verdade é que Hawking não nos dá nenhum argumento convincente para sustentar a sua teoria, parecendo-nos deambular pelo campo da suposição ou do fanatismo científico. Defende ultimamente que as leis da física fornecem a explicação para a origem do universo. Nada a contestar. O universo tem as suas leis físicas, que nos permitem compreender o seu funcionamento. Na sua opinião, devido às leis da física, como por exemplo a lei da gravidade, aconteceu o Big Bang, explosão que deu origem ao mundo, que fez com que tudo se criasse do nada. Acho tudo isto criticável e contestável. Como é que existia a lei da gravidade? Quem é que a pôs lá? Como é que tudo que não era nada passou a ser alguma coisa? Como é que se pode ser e não ser ao mesmo tempo? O que está para trás do Big Bang continua a ser um mistério, como nos lembra o professor catedrático da Universidade de Coimbra, Carlos Fiolhais: «O mundo existe, sobre isto não há dúvidas. Mas hoje sabemos que no início do Big Bang há uma transição da não-existência para a existência. Passa-se do nada para o ser. Como? Isto sempre foi uma questão filosófica. Ele diz que as modernas teorias da Física permitem o aparecimento do Universo. Mas a Física não pode falar sobre o que aconteceu antes do Big Bang. Não tem informação sobre isso. Não há experiência nenhuma, observação nenhuma. Aquilo foi um acontecimento de tal forma violento, com tanta energia, que apagou qualquer informação sobre o mundo atrás do nosso mundo».

 Para Hawking, o mundo é um amontoado aleatório de moléculas, que, por acaso, o acaso juntou e colocou a funcionar na perfeição. É uma visão do mundo muito discutível. Na verdade, se eu for fiel à minha inteligência, na contemplação do mundo, eu reparo que se passa do nada ao ser pela intervenção de alguém. Noto que o mundo não é um caos, mas tem uma ordem e uma coordenação exímia, que lhe permitiu desenvolver-se e aperfeiçoar-se, há uma harmonia e uma interação, noto que tudo está feito com critério e com padrões de beleza, que nos deixam estarrecidos. E o ser humano? Como compreender uma obra tão bela e perfeita? Todo um conjunto de dados, de sinais, de «evidências», se quiserem,  que me fazem perceber que por detrás de tudo que me é dado a contemplar há uma liberdade e uma inteligência organizadora e uma fonte do ser eterna que a tudo deu ser e sustenta esse mesmo ser. O fato que eu visto teve um alfaiate, o almoço que eu como teve um cozinheiro, o pão que eu saboreio teve um padeiro, o quadro que eu contemplo teve um pintor. O mundo que habito, belo e harmonioso, tem de ter um autor. Dizer-se que o mundo teve um acaso feliz é muito questionável.  

 Nos últimos anos, a ciência tem ganho protagonismo no debate das ideias e tem feito descobertas estupendas para o homem se compreender a si mesmo e ao meio que o rodeia. Tem tido um papel fundamental no progresso material e social. Devemos muito à ciência e não há a menor dúvida de que é um dos maiores bens que temos, apesar de arrastar também atrás de si algumas sombras e misérias. Mas, alguma parte dela, já está a cair num velho vício, com todos os laivos da petulância: chamar a si o estatuto de ser a dona da verdade. Seria bom lembrar que nem a física, nem qualquer outra ciência, ou pessoa ou instituição, conseguirá explicar tudo e compreender tudo. A ciência é limitada. Não consegue saber tudo. Não sabe a verdade toda. Sobre a existência de Deus, ninguém tem todas as provas e todas as certezas. Daí que se recomende sempre a prudência e a humildade. Como diz Carlos Fiolhais: «Não é através do telescópio, do microscópio, do acelerador de partículas, que se consegue chegar a Deus. É mesmo impossível. Não há nenhuma prova científica, e nunca vai haver, da existência de Deus». Mas isto não quer dizer que Deus não exista. Estamos é escolher o método e o caminho errado para lá chegar. Deus é uma questão de fé, mas uma fé assente na racionalidade e na contemplação dos sinais e das evidências de Deus no homem e na criação.

Enquanto uns vão dizendo que Deus é uma causa perdida e ultrapassada na história da humanidade, outros dizem que Ele vem aí e que é preciso esperá-lo com uma vida santa. De que lado estaremos: do acaso, que nos faz caminhar para o nada, ou do lado da sabedoria e do amor que tudo criou com beleza e para uma plenitude de vida no amor? Boas festas e feliz natal.



publicado por minhasnotas às 11:10 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 09.12.14

Durante todo o mês de Novembro, mais uma vez percorremos todas as freguesias do Concelho de Montalegre para se fazer memória e se rezar pelos defuntos, com o canto do ofício dos defuntos, antecipado pela celebração do sacramento da penitência. O objetivo é claro: fortalecer a comunhão entre todos os discípulos de Cristo, os que ainda caminham na terra, Igreja terrena, e os que já se encontram na glória, Igreja celeste. A verdade da comunhão dos santos em Cristo e a fé na vida eterna são a inspiração e as luzes orientadoras para todo um mês de recordação viva e de oração por aqueles que jamais devem ser esquecidos. Enquanto se entoam os salmos a Deus, o pensamento sobre a nossa fragilidade e sobre a morte não podem deixar de estar presentes. Um tema que já começa a suscitar algumas perguntas de cristãos é a cremação, que já começa a ser recorrente e parece que se está a tornar «moda». O que dizer da cremação?
Diga-se antes de mais que a Igreja católica recomenda que «os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade. A sua cremação é permitida, se não puser em causa a fé na ressurreição dos corpos», assim diz o artigo 479 do Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. Desde o ano de 1963 que a Igreja permite a cremação a cristãos que assim o entendam, se a prática for feita com fé e não para desacreditar ou provocar a fé cristã. Antes de 1963, a Igreja proibiu a cremação porque foi usada por ideologias, movimentos e correntes culturais para combaterem a fé na ressurreição e na imortalidade da pessoa humana. O nada e o pó seria o destino de todo o ser humano, depois da vida, assim defendiam. Não lhes passava pela cabeça que o poder criador de Deus não tem limites e que até do pó Deus nos ressuscita. Lembro também algo importante: uma pessoa que manifeste em vida que não acredita em Deus, na ressurreição e na vida eterna e que para o testemunhar recorre à cremação, não tem direito a exéquias eclesiásticas (funeral católico), o que faz todo sentido. Não se pede para o defunto aquilo em que ele não acredita.
Para a Igreja Católica, a prática mais digna e nobre continua a ser a sepultura do corpo humano, porque o corpo humano merece respeito e reverência. O nosso corpo não é um mero objeto ou instrumento descartável, que se usa e deita fora, sem mais nem menos. Diz muito da pessoa que somos e sem ele não seríamos pessoas. O corpo é um templo onde habita e se realiza uma pessoa. E para quem é crente, o corpo torna-se templo de Deus. É um lugar digno onde Deus se digna habitar. O corpo humano é o templo por excelência. Se tratamos e cuidamos tão bem dos nossos templos ancestrais, que fazem parte da nossa história, muito mais o temos de fazer em relação ao corpo humano, merecedor de todo o respeito. Assim o fez Jesus, que quis ser sepultado, e nisto também de alguma forma somos convidados a imitá-lo. E notemos como a liturgia é mais rica e bela diante do corpo humano. Fala-nos mais à memória e ao coração.
Certamente que a cremação tem toda a dignidade e não belisca em nada a fé cristã, embora ainda cause alguma estranheza aos nossos costumes mais sagrados. A Igreja permite-a, mas não a incentiva e não a recomenda abertamente e já compreenderam porquê. Sepultar o corpo humano é a prática mais cristã e o gesto mais correto e justo para o corpo humano. A cremação deve ser um recurso para casos excecionais, como epidemias, em que se comprove que o cadáver humano propicia o contágio de doenças, por razões psicológicas (há pessoas que ficam gravemente afetadas psicologicamente por verem uma pessoa a ser sepultada, preferindo a cremação), ou até por razões de espaço, como já se verifica em algumas partes do mundo, ou por qualquer outro motivo sério e consistente.
O destino que se dá às cinzas do defunto merecem a nossa reflexão. Acho que, neste campo, se estão a cometer alguns abusos. Há quem deixe escrito que quer ser cremado e que deseja que as suas cinzas sejam deitadas ao mar ou num qualquer outro lugar que tem uma grande carga simbólica ou sentimental para a pessoa. Transparece, assim, uma certa visão romântica da morte. Não acho que este seja o destino correto a dar às cinzas. O lugar mais digno para o depósito das cinzas são os cemitérios, na sepultura da família, ou num outro espaço digno onde se registe a memória dos defuntos e se lhes possa prestar a devida homenagem. E menos aceitável é ainda conservar as cinzas do defunto em casa, prática um tanto ou quanto macabra. Ninguém tem o direito de privatizar e dispor como muito bem entende da memória de uma pessoa. Pertencemos a uma família, mas também pertencemos a uma sociedade, constituímos um grupo de amigos, desempenhou-se um papel social e laboral. A memória de uma pessoa deve estar num espaço digno de recordação e veneração, onde todos a possam homenagear.



publicado por minhasnotas às 17:04 | link do post | comentar

Segunda-feira, 01.12.14

Entre os dias 9 e 16 de Novembro, a Igreja dedicou uma semana aos seminários e a rezar e a refletir sobre as vocações sacerdotais, como sempre o faz todos os anos. A motivação já vem do tempo de Jesus: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara». Hoje, mais do que nunca, a Igreja sente o desconforto e o transtorno desta necessidade. Há dioceses que já começam a ter grandes dificuldades com a falta de padres, com grande prejuízo para o bem espiritual e religioso do povo de Deus.

Ainda assim, recomendo sempre nas minhas comunidades que não se fale em «crise de vocações». Para quem confia e acredita em Deus, não há tempos de crise, porque Deus nunca deixa de estar presente com a sua graça e o seu amor em todos tempos, apontando sempre caminhos de vida nova e de esperança para a humanidade. As nossas leituras mundanas e «descrentes» é que nos levam a ter horizontes estreitos e a ver terra queimada onde já rebentam flores. Deus nunca deixou ou deixa de chamar e de proporcionar todos os meios para o homem responder. O homem é que pode não andar muito sintonizado com os apelos e os chamamentos de Deus. O mais correto é falarmos em falta de identificação e de consolidação de vocações, ou se quisermos, por outras palavras, não se tem promovido um verdadeiro ambiente para Deus ser escutado, porque do lado de Deus vocações não faltam. E se se estipulou que esta «desgraça» veio para ficar, lembro que há dioceses que vão ordenando padres quase todos os anos, embora, como é notório, as ordenações não são suficientes para as necessidades. Há falta de vocações e não «crise» de vocações.

Devido à sua fé madura e ao seu amor à Igreja, há cristãos que manifestam alguma preocupação e se empenham na oração e no apoio aos jovens, procurando perscrutar e incentivar sinais vocacionais. Mas também há muitos cristãos que ainda vivem absortos na indiferença, na convicção de que Deus continuará a fazer milagres e que o tempo tudo compõe. Para além de uma atitude errada perante Deus, enquanto assim se pensa, estão-se a desperdiçar vocações e a lesar a organização e a vitalidade da Igreja. As vocações sacerdotais exigem uma ação concertada de todos e a disponibilidade e a atenção de todos.

São muitas as causas que se apontam para o decréscimo das vocações. Uma que é incontornável é a baixa natalidade. Hoje as famílias, na sua esmagadora maioria, têm um ou dois filhos, três no máximo. E serão muito poucas as que desejam que um filho seu seja padre, o que noutros tempos era uma honra e uma alegria. Se a natalidade baixou drasticamente, as vocações, obrigatoriamente, também baixaram. Decisivas são, sobretudo, as causas culturais e da mentalidade dominante do tempo atual: a secularização da sociedade (viver sem qualquer referência ao religioso, ao espiritual e ao transcendente); o individualismo e consequentes subjetivismo e relativismo, proclamando-se um claro antropocentrismo, o homem e só o homem e seus interesses e desejos no centro de tudo, em detrimento da abertura aos outros e a Deus; o descrédito nos compromissos vitalícios; a falta de fé e de vivência espiritual ou a sua deficiente formação e vivência, a falta de valores espirituais, não frequência dos sacramentos e participação na vida da Igreja; débil interpretação do celibato, vulgarmente entendido como castrador e fonte de solidão e de atrofia existencial; caricaturização e crítica injusta permanente ao padre e despromoção social do estatuto do clérigo; cultivo do gozo e do sarcasmo à volta do ser padre e dos conteúdos e das práticas religiosas; uma conceção exageradamente materialista e hedonista da vida; desconsideração e secundarização da religião; ausência de uma cultura de vocações em muitas paróquias. É toda esta «descultura» para as vocações que os cristãos têm de se empenhar por combater e transformar.

Há duas instituições que perderam o seu papel charneira no fomento das vocações: a família e a comunidade. Sem uma ação concertada e complementar destas duas instituições dificilmente se pode dar um forte impulso às vocações. Só em famílias em que se cultiva a fé, a oração, a escuta da Palavra de Deus, a participação nos sacramentos e na vida da Igreja, a piedade, o testemunho coerente e alegre da fé, enfim, famílias que são verdadeiros polos de missão e de evangelização à sua medida, é que podem surgir vocações sacerdotais consistentes. Qual é o pai ou a mãe que, hoje, propõe ao seu filho, de forma clara e sem complexos, o ideal sacerdotal? Depois, à comunidade cristã, corresponde o encargo de integrar na Igreja, de aperfeiçoar, completar e amadurecer o que a família transmite. Muitas comunidades cristãs estão apáticas e estáticas, tradicionalistas e rotineiras, sem dinamismo genuinamente renovador, liturgistas, festeiras, mas sem fervor espiritual, alheias aos sinais dos tempos, sem vontade de mudança e sem abertura à novidade, com pouca preocupação na interação com os jovens e com o testemunho, a evangelização, o anúncio e a intervenção na sociedade. D. José Cordeiro, Bispo de Bragança, dizia há dias num fórum sobre as vocações, em Fátima: «Se calhar Portugal não tem vocações porque não tem comunidades suficientemente amadurecidas na fé e porque faltam adultos na fé que acompanhem e proponham com credibilidade os caminhos do Evangelho». É uma realidade em muitas comunidades. Há muito a fazer em muitas comunidades cristãs para se proporcionar o despertar de vocações sacerdotais.

Uma causa que um bom número de pessoas aponta para o afastamento dos jovens do sacerdócio é o celibato. Poderá ter alguma influência, porque constituir família é um sonho de toda a pessoa humana, mas não será de todo impeditivo para quem deseja seguir Jesus de forma mais radical e no serviço à Igreja. O celibato é um dom, é um carisma, é uma graça que Deus concede ao ser humano por amor e para o amor. Fala-se sempre de forma negativa do celibato e não se salienta o seu conteúdo humano, espiritual e afetivo, os seus aspetos positivos, nomeadamente a liberdade e a disponibilidade para os outros e para se poder ser pai de uma comunidade, em nome de Deus, entre outros. Recordo que as confissões religiosas que permitem constituir família aos seus sacerdotes não têm mais vocações do que as outras. O que é estranho neste argumento do celibato é que é questionado por uma sociedade que descredibilizou o casamento e vulgarizou o divórcio, uma sociedade que já não se quer casar e que gosta dos estados livres e que evita a todo o custo compromissos duradoiros, mas que acha normalíssimo que «os padres deviam poder casar». Mas a ideia que a sociedade atual transmite é que o casamento não é muito importante e não é realizador. Na verdade, por detrás da argumentação contra o celibato, a toque do sensualismo reinante que por aí anda, está a dificuldade do mundo moderno em entender a vida sem o exercício da sexualidade. É um dos mitos modernos, ou até lhe poderia chamar uma das escravidões modernas. Há vida para além do sexo e lembro que a sexualidade não se reduz à genitalidade, mas tem uma componente afetiva e espiritual. E é simplório atribuir ao celibato o motivo da pedofilia na Igreja. O Papa Francisco recordava há dias que só 2 % do clero católico é pedófilo, mesmo assim com grande mágoa para os católicos, porque é uma ação execrável. A pedofilia é sobretudo um problema de homens casados, como os dados o comprovam.

Não tenho a mínima dúvida de que o Espírito Santo (não o banco, atenção) faz muito mais do que nós todos juntos. Mas também temos um papel insubstituível no despertar de vocações. Se achamos que não nos diz respeito, então há que questionar a verdade da nossa fé e o nosso amor a Cristo e à Igreja.



publicado por minhasnotas às 17:09 | link do post | comentar

Quarta-feira, 05.11.14

Alfred Nobel foi um químico sueco, do século dezanove, que inventou a dinamite, para facilitar a construção de obras públicas de grande utilidade para a sociedade. Mas rapidamente Nobel se apercebeu de que o seu invento também viria a ser causador de grandes atrocidades contra a humanidade, usada em conflitos e guerras. Possivelmente acossado por alguns remorsos, deixou grande parte da sua fortuna para ser distribuída por personalidades e instituições que contribuam para o bem e o desenvolvimento da humanidade. Assim nasceram os prémios nobel.

Este ano, o prémio nobel da paz foi atribuído a uma paquistanesa e a um indiano: Malala Yousufzai e Kailash Satyarthi, respectivamente. Dois países que têm vivido em grande tensão, com a agravante de serem duas potências nucleares. Mais uma vez fica claro que a atribuição deste prémio nobel tem sido feita de forma estratégica e cirúrgica e a pensar no futuro, como estímulo ao diálogo, à fraternidade e ao alívio de beligerâncias em muitas regiões do mundo.

Kailash Satyarthi tem feito um trabalho esplêndido na India, no combate à exploração infantil e ao trabalho infantil. Luta para que as crianças tenham direito à sua infância e à educação. Na India, é uma obra hercúlea. É considerado o líder mundial no combate ao trabalho infantil. Mas a pessoa e o percurso de vida que tenho acompanhado com alguma admiração e curiosidade é o de Malala, a pessoa mais jovem até agora a receber um prémio nobel, com 17 anos.

Malala tem revelado uma bravura e uma coragem impressionantes. Há já vários anos que no Paquistão, na sua tenra idade, tem sido uma voz defensora do acesso das crianças à educação e da igualdade entre homem e mulher, num país que tem sido assolado pela opressão e pelo extremismo perpetrado pelo movimento talibã. Em 2013, este movimento, que dominava a região onde Malala vivia, ordenou a instauração da Sharia, a lei islâmica, que, entre outras coisas, proíbe o acesso das mulheres à escola. Malala não se conformou. Decidiu continuar a ir à escola, sabendo que a todo o momento poderia ser barbaramente assassinada. Num certo dia, num período em que os talibãs já estavam a perder o domínio da região, num puro ato de maldade e vingança, dois soldados talibãs entram no autocarro escolar, dirigem-se ao lugar onde estava Malala com mais algumas colegas e desferem meia dúzia de tiros. Malala é atingida na cabeça e no pescoço, correndo perigo de vida. Ao fim de seis dias, uma equipa de médicos ingleses, que se encontrava no Paquistão, aconselhou a sua transferência para Inglaterra, onde ainda vive, para poder ter uma recuperação o mais perfeita possível. Chegou-se a temer que a jovem ficasse indelevelmente afetada na sua fala e na sua capacidade de raciocínio, mas não ficou. Está mais forte do que nunca e disposta a ser uma política ativa na defesa do direito das crianças à educação e uma intrépida combatente contra a repressão que é exercida sobre as mulheres em muitas partes do mundo.

Num deserto de grandes referências como é este em que vivemos, vale a pena dizer aos nossos jovens que, afinal, ainda existem pessoas exemplares e causas pelas quais vale a pena lutar, sem armas e sem violência, e que ainda há por muito por fazer para o bem e o progresso da humanidade, em vez de se andar a perder o tempo em futilidades e em diversão bacoca. A vida que nos foi dada não é para ser atrofiada no egoísmo e degradada nos seus prazeres, mas é para ser promovida e realizada no altruísmo e na dedicação aos outros, na construção de um mundo solidário e fraterno, onde todos possam viver com dignidade. Assim nos diz a jovem Malala: «Não interessa a cor da pele, a língua que falamos, a religião em que acreditamos, devemos considerar-nos todos seres humanos e devemos respeitar-nos e lutar pelos direitos das crianças, das mulheres e de todos os seres humanos”.

2.No caso do vírus do Ébola, o comportamento dos Estados Unidos da América e da Europa tem sido uma vergonha. Enquanto a doença não foi uma ameaça para americanos e europeus, pouco ou nada nos importou que morressem pessoas em África há vários anos. Agora que passou fronteiras, tocou a sirene e toca a mobilizar a ciência e a medicina para abater o vírus. E andamos todos os dias com os direitos humanos na boca. Os africanos não são pessoas?



publicado por minhasnotas às 12:27 | link do post | comentar

Sexta-feira, 24.10.14

Nas últimas décadas, verificaram-se mudanças significativas na sociedade em que vivemos, em todos os âmbitos. Um dos que levantou novos desafios e novas dificuldades foi, e continua a ser, a vivência e o tratamento a dar à velhice. Desde muito cedo se percebeu que nesta sociedade do ativismo, da produção e do lucro, da eficácia e do pragmatismo, da correria louca e do consumismo, do comodismo e do bem-estar, do economicismo e do utilitarismo, da idolatria da juventude e da inovação, os mais velhos seriam o elo mais fraco. Não se disse à boca cheia, mas em surdina lá se foi pensando e dizendo que são um «estorvo» ou um «peso», nesta sociedade que não pode «perder tempo» com quem já não tem força e já deu o que tinha a dar. Ó pobre sociedade! Tenho para mim que a grandeza de um povo ou de uma sociedade se vê no tratamento e na importância que dão aos idosos. Diz muito dos valores que imperam e da qualidade das conceções de vida que fazem a trama de um povo ou de uma sociedade. Diz muito, sobretudo, do nível de humanização e de civilização de um povo. Um idoso, mais do que um ser humano frágil e sem forças, é uma fonte de sabedoria e experiência e um museu vivo da memória, imprescindível para um povo se compreender a si mesmo e se projetar no futuro. Se desprezamos a experiência, a sabedoria e a memória, como é que podemos ter futuro? Os idosos são as pessoas mais importantes de uma sociedade, dignos de todo o respeito e reverência.

Um conjunto de fatores obrigaram a repensar a velhice. Destaco dois: o número reduzido de filhos na família e a qualificação educacional dos filhos. Há umas décadas atrás, muitas famílias viviam sobretudo da agricultura e da pecuária. Como estas exigiam mão-de-obra, os casais tinham muitos filhos, chegavam até aos dez ou doze, e até mais. Concluída a escola mínima, a lavoura era o destino da maioria dos filhos. Com o tempo, a vida ia proporcionando outras saídas e desafios. Aos poucos, os filhos abandonavam a casa paterna, mas ficava sempre um filho para cuidar dos pais e para organizar e cuidar da lavoura da casa. O pai e a mãe tinham a honra e a alegria de chegar ao fim da vida, com toda a dignidade e com todo o carinho, no seu lar, com tudo o que ele invoca e significa. Hoje, as famílias têm poucos filhos e, na sua esmagadora maioria, são filhos estudados, que têm cursos superiores. Os pais que deram qualificação aos seus filhos sabem que não lhes podem pedir que sacrifiquem o exercício dos seus cursos para se dedicarem exclusivamente ao cuidado dos seus pais, embora tenham sempre a obrigação de o fazer, mas terão de o fazer de outra maneira. A passagem de uma sociedade centrada na agricultura e na pecuária, com pouca instrução, para uma sociedade industrializada e qualificada, trouxe novas dificuldades e desafios, vantagens e desvantagens, e obrigou a repensar a vida familiar e social, rompendo-se com alguns hábitos e algumas soluções do passado, como não podia deixar de ser.

Ainda assim, convém lembrar o essencial: todo o filho e filha têm a obrigação e o dever de cuidar e de dar um fim de vida honrado e digno aos seus pais. E, de alguma forma, ainda sou conservador: se há a possibilidade de conciliar o trabalho com o cuidado dos pais, na sua própria casa, o seu lar, (há muitos filhos que ainda têm esta possibilidade) julgo que ainda é a solução ideal e mais condizente com a vontade e a natureza humana, já que todo o ser humano gosta de salvaguardar a sua privacidade e viver em contacto permanente com a sua família, com a sua obra e com a sua memória. Um dos males do mundo atual, como sabemos, é a separação das gerações. Não é geral, mas muitos avós são separados dos seus netos e o quanto é belo e vital o diálogo entre pais e filhos e netos e avós. E pior do que a falta de diálogo entre gerações é o abandono dos idosos por parte das famílias. Em alguns casos é mesmo vergonhoso e abominável. Todos os anos, antes das férias, não faltam notícias do abandono de idosos nas urgências, porque estorvam a comodidade e o bem-estar das famílias. Tudo isto não é senão consequência do individualismo e do egoísmo doentio que anda por aí nos corações das pessoas. Não sei como é que se tem coragem para cometer uma barbaridade destas! Como disse o Papa Francisco, no seu encontro com idosos e avós na praça de S. Pedro: «há também a realidade do abandono dos idosos: quantas vezes se descartam os idosos com atitudes de abandono que são uma verdadeira e própria eutanásia oculta! É o efeito da cultura do descarte que tanto mal faz ao nosso mundo. Descartam-se as crianças, descartam-se os jovens porque não têm trabalho e descartam-se os idosos sob o pretexto de manter um sistema económico «equilibrado», no centro do qual não está a pessoa humana, mas o dinheiro. Todos nós somos chamados a combater esta venenosa cultura do descarte!». E se algumas famílias não se «descartam» vergonhosamente dos seus idosos, mantém-nos no seio da família, mas, muitas vezes, arrumados a um canto da casa e continuamente submetidos a maus tratos. E quando digo maus tratos, não me refiro só à violência, mas à ausência da qualidade de vida que um ser humano merece.

Não esqueço, certamente, os bons exemplos e as boas práticas. Muitas famílias estimam os seus idosos e tratam-nos de uma forma excecional. É este o caminho que todas devem seguir. Também não podemos esquecer aquelas famílias que, de facto, não podem cuidar diariamente dos seus idosos, quer pela necessidade e pela mobilidade, quer pelas exigências de muitas doenças próprias da velhice. Para colmatar estas necessidades, criaram-se os lares, que têm toda a razão de existir. Em tempos, diabolizaram-se os lares, considerados casas de «exílio» e «depósitos» de idosos, albergues para melancolicamente se esperar a chegada da morte, deitado ao desprezo e ao esquecimento. Possivelmente, foram muitos profissionais do setor e muitas famílias que assim o deram a entender. Mas, olhando-se à organização e às exigências da atividade atualmente, aquela convicção não corresponde à verdade. Não tenho a mínima dúvida de que os lares fazem falta e são as casas mais bem preparadas para responder às mudanças socias e às necessidades da velhice, em interação com as famílias. Assim é a minha convicção, que aceitei colaborar num projeto destes. Se Deus quiser, antes do final deste ano, entrará em funcionamento um lar, na paróquia de Sarraquinhos, erigido pela Associação Fonte Fria, fundada em 2011, por 39 sócios, empreendimento levado a cabo sem qualquer comparticipação do Estado e que tem tido como mentoras a senhora Ana Maria Cova Lage Torrão, de Sarraquinhos, e a senhora Maria Aurora Ferreira do Fundo, dos Pisões. Terá capacidade mínima para 37 utentes e será mais um equipamento gerador de emprego para a Freguesia e para o Concelho.

Concluo com palavras fortes do Papa Francisco, que todos os lares devem ter em conta: «nem sempre o idoso, o avô, a avó, tem uma família que o possa acolher. E então são bem-vindas as casas para os idosos... contanto que sejam verdadeiramente casas, e não prisões! E sejam para os idosos, não para servir os interesses de outra pessoa qualquer! Não deve haver instituições onde os idosos vivam esquecidos, como que escondidos, negligenciados. Sinto-me solidário com os inúmeros idosos que vivem nestas instituições e penso, com gratidão, a quantos os vão visitar e cuidam deles. As casas para idosos deveriam ser «pulmões» de humanidade num país, num bairro, numa paróquia; deveriam ser «santuários» de humanidade, onde quem for velho e frágil seja curado e defendido como um irmão ou uma irmã mais velha.»



publicado por minhasnotas às 15:16 | link do post | comentar

Segunda-feira, 06.10.14

De vez em quando, alguns cristãos que raramente vão à missa (ainda não percebi como é que se pode ser cristão sem frequência dos sacramentos, sobretudo da eucaristia dominical), lá vão deixando escapar: «eu até ia à missa, mas aquilo também é sempre a mesma coisa, a missa é uma seca». Até os pais que têm os filhos na catequese, quando questionados sobre o escândalo que é andar na catequese e não ir à missa - eu digo mesmo escândalo, porque catequese que não chega à missa do Domingo e à comunidade é uma aberração, é uma catequese incoerente e sem sentido, é uma catequese de pernas para o ar - lá vão dizendo também: «O meu filho diz que a missa é uma seca». Não é o filho que diz. De certeza que já o ouviu muitas vezes aos pais e no seu grupo de amigos e até da boca de muitas pessoas que se dizem cem por cento católicas.

Confesso que tudo isto me mete impressão e até certo ponto deixa-me atónito. É um sacrilégio dizermos uma coisa destas! Como é possível que a celebração do maior acontecimento da vida de Jesus Cristo, logo também dos cristãos, que trouxe libertação, paz e reconciliação à vida de todos e do mundo, seja visto como uma seca? Como é possível que a atualização do maior gesto de amor que jamais alguém teve pelos outros e pela humanidade seja encarado quase como insignificante e merecedor de desprezo? Como é possível que cristãos que receberam o batismo e aprofundaram a sua fé na catequese (será que sim?) não tenham gosto em estar com Jesus Cristo na Eucaristia e não tenham gosto de se encontrar uns com os outros, à volta daquele que é a fonte da vida? Como é possível?

Na verdade, este pobre e triste desabafo de muitos cristãos põe a nu, mais uma vez, a falta de formação, a falta de maturidade e a falta de espiritualidade de muitos cristãos, que nunca, possivelmente, na sua vida entenderam uma missa, que muito provavelmente foram «obrigados a ir à missa», mas nunca entraram na beleza do seu mistério. Temos assim muitos cristãos. A missa acaba por sofrer com alguns defeitos deste tempo: ausência de vida interior e de espiritualidade, falta de oração e de contemplação na vida das pessoas, dificuldade em fazer e viver o silêncio, pouca reflexão, falta de atenção e de concentração, indisciplina mental, tédio pelo excesso de oferta, afastamento da linguagem simbólica. Para além disto, temos depois as características deste tempo, que não deixam entrar na vivência da eucaristia: individualismo, que tolda e atrofia a capacidade de se viver para um ideal e de pensar e viver para os outros, para a comunidade; o hedonismo, que confunde alegria e festa e até celebração só com euforia, prazer, sensação e diversão; a valorização excessiva do movimento, que vai convencendo tudo e todos que só aquilo que põe as pessoas aos pulos e aos gritos é que tem graça, sendo até «original» e «inovador», sendo o seu contrário uma «seca» ou cinzentismo. Enfim, a textura da suave superficialidade que vai reinando um pouco na vida de todos.

Saberão muitos cristãos o que vão fazer à missa? A eucaristia é o sacramento central da vida dos cristãos e da vida da Igreja. Como diz o Vaticano II, ela é o cume e a fonte da vida da Igreja: é dela que parte e nasce a vida do cristão e da Igreja e é para chegar a ela que tudo se faz e desenvolve. Foi instituída por Jesus Cristo (não somos nós os donos e os protagonistas da eucaristia) para celebrarmos o principal acontecimento da sua vida, o seu sacrifício na cruz e a sua ressurreição, e para Ele mesmo se encontrar e alimentar, fortalecer e constituir a sua Igreja. Em ordem a isto, está organizada em duas partes, em duas mesas, de que somos os felizes convidados: liturgia da palavra, em que nos é servido o pão da Palavra de Deus, para ser escutada, ruminada e vivida por todos, e a liturgia eucarística, parte em que se atualiza o sacrífico e a entrega de jesus a Deus Pai na cruz, ao qual nos unimos com a nossa vida, o nosso ofertório, e em que damos graças a Deus e apresentamos a Deus as necessidades da Igreja e do mundo, atingindo esta parte o seu ponto culminante na comunhão, momento em que a Igreja é unida a Cristo e constituída como seu corpo e se torna povo de Deus. Repare-se no que celebramos em cada eucaristia!

Muitos cristãos argumentarão que até têm consciência dos grandes momentos e dos grandes acontecimentos da Eucaristia, mas que fica sempre a sensação que é sempre a mesma coisa. Não é, meus amigos. Em cada eucaristia é-nos servida uma palavra sempre diferente, sempre nova e interpeladora, e cada eucaristia é sempre um novo encontro e uma nova ação de Cristo em nós. Se calhar, muito provavelmente, o problema está em nós, que não vivemos uma vida centrada em jesus Cristo e no seu Evangelho e vamos para a missa sem motivação, sem vontade em estar com Cristo e de receber dele para viver melhor e sem vontade para crescer e viver mais para Deus, para os outros e para Igreja. É verdade que ela se celebra sempre da mesma forma, mas não é sempre a mesma coisa. Nem tudo que se faz sempre da mesma maneira é uma seca. Se assim fosse, então temos de chegar à triste e desoladora constatação de que toda a nossa vida é uma seca: dormimos todos os dias na mesma cama, comemos todos os dias na mesma mesa, habitamos sempre na mesma casa, vamos todos os dias ao mesmo café, estudamos sempre na mesma escola, juntamo-nos sempre nas mesmas ruas e nos mesmos lugares, celebramos os anos sempre da mesma maneira, fazemos tanta coisa sempre da mesma maneira. E, no entanto, a nossa vida não é uma seca. Importa, sobretudo, é o sentido, a motivação e a finalidade que pomos naquilo que fazemos.

O arcebispo de Nova Iorque contava há dias: «Um homem contou-me, uma vez, sobre o seu jantar de domingo em família, a melhor parte da semana enquanto cresceu. A comida era ótima, porque a sua mãe cozinhava tão bem, e todos eram muito felizes, porque o pai estava sempre presente! Mesmo depois de casar e de ter os seus próprios filhos, todos iam a casa dos pais para aquele jantar de domingo. Quando os filhos ficaram um pouco mais velhos, perguntaram se "tinham de ir," porque às vezes achavam o jantar um bocado "chato". Sim, respondia, têm que ir, porque não vamos pela comida, mas por causa do amor, porque a mãe e o pai estão lá! Sentia uma angústia enquanto se lembrava que, conforme a mãe e o pai foram envelhecendo, a comida já não era assim tão boa e nem a companhia era tão agradável, mas ele nunca faltou, porque aquele acontecimento de domingo tinha uma enorme profundidade de sentido mesmo quando a mãe queimava a lasanha e o pai dormitava. E agora, concluiu, daria tudo para estar lá novamente, porque a mãe morreu e o pai está num lar. Por isso, ele e a sua mulher são agora os anfitriões e esperam ansiosamente que, um dia, os seus filhos tragam também os seus cônjuges e os seus próprios filhos para a sua mesa ao domingo. É que o valor daquele jantar de domingo não depende de quão boa é a comida; de quão caro é o vinho; de quão interessante é a conversa. Tudo isso ajuda, com certeza, mas é o acontecimento em si que tem o real valor».

Este homem diz-nos a todos como sabia sempre bem aquele encontro e aquele jantar sagrado, à volta do pai e da mãe. Que saudades sentia daquele jantar! Era sempre no mesmo dia e da mesma maneira, mas era sempre novo. Daria tudo para estar lá novamente, todos os Domingos, com o pai e a mãe. Como eram tão bons aqueles momentos familiares! Experimentavam e aprofundavam a alegria de serem família e de se terem uns aos outros. É até aqui que muitos cristãos ainda não chegaram.

Na celebração da eucaristia, celebramos a admirável obra de Jesus Cristo e o grande amor de Deus pela humanidade. Como celebração sagrada, ela tem de ser expressão do sagrado, do transcendente e da santidade de Deus. Não podemos ceder à tentação de a querermos domesticar como muito bem nos apetece, com invenções e improvisos tontos e com teatralidade para divertir, intoxicando-a com o ruído do mundo e com a nossa mediocridade. Ela não é nossa, é de Cristo e para ser sempre expressão da beleza e da grandeza do seu amor e da sua vida. No livro «Diálogos Sobre a Fé», o Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, afirma: «A liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A liturgia não vive de surpresas simpáticas, de invenções cativantes, mas de repetições solenes. Não deve exprimir a atualidade e o seu efémero, mas o mistério do sagrado. Muitos pensaram e disseram que a liturgia deve ser feita por toda a comunidade para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento. Desse modo, porém, terminou por dispersar o proprium litúrgico, que não deriva daquilo que nós fazemos, mas do facto de que acontece. Algo que nós todos juntos não podemos, de modo algum, fazer. Na liturgia age uma força, um poder que nem mesmo a Igreja inteira pode atribuir-se: o que nela se manifesta é o absolutamente Outro que, através da comunidade (que não é, portanto, dona, mas serva, mero instrumento), chega até nós.» Não é a eucaristia que é uma seca. Nós é que talvez andemos secos e acabamos por espalhar a nossa secura em tudo o que tocamos e vivemos.



publicado por minhasnotas às 11:05 | link do post | comentar | ver comentários (13)

Sexta-feira, 19.09.14

Habitualmente, nas suas intervenções, homilias e discursos oficiais, os papas, que a Igreja Católica tem tido, falam para o mundo e para a sociedade. Para dentro da Igreja, têm falado mais com o recurso a documentos de vária ordem, para esclarecimento de dúvidas doutrinais, ensino moral e espiritualidade cristã, melhoramento da celebração da liturgia, dinâmica e organização da vida da igreja, destacamento de linhas de pastoral, correção de excessos e desvios. O Papa Francisco também tem surpreendido porque, na minha opinião, fala mais para dentro da Igreja do que para fora. Se temos vindo a prestar atenção às suas audiências, homilias, visitas e viagens apostólicas, já se percebeu facilmente que uma das suas cruzadas é provocar e despertar a conversão e a reflexão nos muitos cristãos instalados e até «falsos cristãos» que existem dentro da Igreja e combater vários vícios que se intrometeram na hierarquia, na pastoral, na espiritualidade e na vida da Igreja, num retorno ao essencial e a uma maior fidelidade a Jesus Cristo e ao Evangelho. Já todos apanharam por tabela: cúria romana, cardeais, bispos, padres, religiosos, leigos e movimentos e instituições da Igreja. Está a ser um Papa desinquietante, perturbador, agitador, no bom sentido das palavras, das águas turvas e inertes em que a Igreja facilmente se acomoda e da sonolência em que caem os cristãos, numa vivência rotineira e morna da sua fé e da sua missão.

Na sua viagem apostólica à Coreia do Sul, onde o cristianismo está a crescer, no seu encontro com os bispos asiáticos, alertou, mais uma vez, para o perigo de o «espírito do mundo» (a maneira do mundo viver e entender a vida) se instalar na vida da Igreja e dos cristãos. Estes vivem no mundo e, por isso, convivem e experimentam a tentação de pensar e viver a vida como o mundo, ou se quisermos, como a sociedade em geral pensa e vive. Mas um cristão não pode pensar e viver como vive a maioria ou a sociedade em geral, porque se tornou cristão, ou seja, aderiu a Jesus Cristo e à sua palavra, adquirindo uma nova mentalidade e uma outra forma de estar na vida, em união com a Igreja. Para trás ficou o espírito do mundo e começou-se a viver uma vida nova de acordo com o espírito do Evangelho, o espírito de Jesus Cristo. Mas o espírito do mundo demora a vencer e poucos cristãos se empenham por vencê-lo dentro de si mesmos e na sua vida. Não faltam cristãos que só o são de nome, porque no dia-a-dia da sua vida e nas suas opções e decisões regem-se pelos critérios, valores e princípios que imperam na sociedade. São cristãos ocos, ou como diz o Papa, cristãos mundanos, cristãos de vinho aguado, que nem são vinho nem são água, cristãos sem consistência, cristãos que de verdade não cristãos.

Na mensagem que dirigiu aos bispos, o Papa Francisco apontou três manifestações deste espírito do mundo, que anda na vida da Igreja e dos cristãos e que é preciso sempre vencer, porque é contrário à identidade cristã: o deslumbramento enganador do relativismo, a superficialidade e a segurança de se esconder atrás de respostas fáceis, frases feitas, leis e regulamentos. Qual é o cristão que não sentirá umas mordidelas destas manifestações do sorrateiro e sedutor espírito do mundo? Quanto ao relativismo, hoje tudo se relativiza, num pragmatismo manhoso. Ao sabor do «depende» e do «mas», tudo é bom e tudo é mau, tudo é verdade e tudo é mentira, negando-se a existência de qualquer verdade absoluta ou de qualquer certeza. O que conta é viver ao sabor do que apetece no imediato e do que mais convém, sem obediência a valores e sem exigência ética. Quem se diz discípulo de Cristo, não pode viver assim. Tem uma referência: Cristo e o Evangelho. Quanto à superficialidade, facilmente a constatamos e experimentamos. «Tendência em entreter-se com coisas da moda, quinquilharias e distrações em vez de nos dedicarmos ao que realmente conta». Quantas horas não se perdem inutilmente na anestesia da eletrónica e na evasão de ações e atividades que não trazem nada à vida pessoal e à vida dos outros! Quem de nós já não chegou ao fim de um dia e sentiu que o dia se perdeu na resposta e no entretenimento de futilidades? Um cristão não tem tempo a perder: há um Evangelho para anunciar, um reino para construir e muito a fazer pelos outros, que querem vida em abundância. Quanto ao esconder-se atrás de leis e regulamentos, convém lembrar que Jesus, sem as negar, relativizou leis e regras e centrou a sua vida no amor e no serviço a Deus e aos outros. Ser cristão é viver uma relação viva com Jesus Cristo e em Cristo com os outros, e não cumprir um código de deveres, leis e regras. Há uma lei que preside e une as outras todas: o amor. O que conta é o testemunho ativo e sempre renovado de Jesus Cristo e não ser cumpridor de regulamentos e prescrições. Um cristão, sem desrespeitar normas e leis, terá de arranjar sempre formas criativas de ir para além delas, para que o outro seja sempre amado. Jesus, ao despedir-se dos seus apóstolos, disse-lhes: «eu venci o mundo». Cada cristão tem de continuar esta luta.



publicado por minhasnotas às 11:31 | link do post | comentar | ver comentários (1)

mais sobre mim
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


posts recentes

S. Teresa de calcutá

será o facebook o novo co...

entrevista do papa franci...

visita do papa à arménia

prevenção dos incêndios

Monsenhor Ângelo minhava

P. Arnaldo Moura

a festa dos jogos olímpic...

a jornada mundial da juve...

gestação de substituição

imagem peregrina para per...

o corpo é que paga

o algoísmo

Comunicação e misericórdi...

viver sem sentido

a alegria do amor

Respeitar o domingo

Diálogos imprevistos

Umberto eco

imagem peregrina para per...

o drama do suicídio

tempos de apatia

Um testemunho: Fernando S...

O que é o pecado original...

o que é a salvação?

o que é ser um católico p...

a debandada da juventude

as nossas liturgias

simpósio do clero

Os caminhos de S. Tiago

S. Teresa de Ávila

tempo para pensar

repensar as festas cristã...

a importância das velhas ...

O polémico teste da amame...

a cultura da humilhação

Elogio da loucura

o uso do latim

missas à la carte

Sociedade e violência

a compaixão mundana

Lições de Paris

perplexidades à volta da ...

a existência de deus

A cremação

As vocações

O prémio nobel da paz

Santuários de Humanidade

Será a missa uma seca?

o espírito do mundo

arquivos

Fevereiro 2017

Outubro 2016

Setembro 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

tags

25 de abril

aborto

abstenção

acesso das mulheres ao sacerdócio

advento

alienação

ano da fé

ano sacerdotal

ateísmo

ateísmo prático

átrio dos gentios

bach

beça

bento xvi

boticas

caça

casamento

casamento homossexual

celibato

compromisso cristão

comunicação

comunicação com os mortos

comunicação social

consumismo

conversão

cooperação

crença

crescimento

crise

cristianismo tecnológico

cristiano ronaldo

cristo rei

culpa

cultura

d. manuel martins

d. ximenes belo

decência

deolinda

deolinda; hino nacional

deus

discipulado

drogas

educação

eleições

encíclica caridade na verdade

ensino

escola

estado social

ética

europa

europeias

família

fátima

fé/razão

feriados

festas cristãs

fragilidade

função sacerdotal

funeral

furtar

haiti

heróis

história

homem

homem light

igreja

igreja católica

igreja e pedofilia

imagem de deus

indiferença religiosa

inferno

inquisição

interior

internet

jornada mundial da juventude

jornadas

josé rodrigues dos santos

josé saramago

juventude

laicidade

liberdade religiosa

marinho e pinto

maroon 5

mediatismo

miguel sousa tavares

missa dominical

morte

natal

novas gerações

novas tecnologias

padre

política

quaresma

relativismo

sacerdote

ser padre

sociedade

televisão

terceira idade

violência doméstica

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds