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minhas notas

Se há dom e privilégio que nos distingue, enquanto seres humanos, do restante mundo animal é a liberdade. Não somos livres em tudo, mas temos liberdade para ser e optar, temos a faculdade de nos podermos construir a nós mesmos e darmos o rumo que quisermos à vida. Não estamos programados e formatados por um instinto, mas temos a liberdade de escolher, conduzidos por uma inteligência criativa que se entende a si mesma e o mundo à sua volta. O ser humano só o é na sua plenitude se pode dispor de si mesmo e da sua vida e vivê-la na fidelidade à sua consciência e às suas convicções. Ser homem e ser mulher implica sempre ser livre e viver em liberdade. 

Se eu gosto de ser livre, facilmente percebo que o outro que tem a mesma essência e a mesma dignidade que eu, também tem direito a ser livre. Isso implica uma aprendizagem para que as duas liberdades não choquem e não se anulem uma à outra, mas se respeitem, aprendam a conviver uma com a outra. Para dizer isto, inventámos uma frase: a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro. Contudo, é uma frase que não está correta e é uma contradição. É um disparate. A minha liberdade não tem de acabar para o outro ser livre. Como é que duas pessoas podem construir uma relação se apenas uma pode ser livre ou se as duas liberdades se anulam uma à outra? Estranha liberdade em que uma tem de se anular para existir a outra ou para uma pessoa ser livre a outra deixa de o ser. O outro seria então um limite e um estorvo à minha liberdade. Em parte, lá iríamos ter ao filósofo existencialista Sartre, que escreveu numa peça teatral que os outros são o inferno. Neste caso, porque o outro corta ou diminui a minha liberdade.

Na verdade, a minha liberdade não termina quando começa a liberdade do outro ou dos outros. Continuo sempre a ser livre e tenho de continuar a ser sempre livre, no exercício de uma liberdade responsável. O correto é dizer-se a minha liberdade acolhe, respeita a liberdade dos outros. O que acaba é a minha libertinagem, porque eu não posso fazer tudo o que quero sem respeito pelos outros. A libertinagem tem de caminhar para a liberdade, que é escolher sempre o que é correto que se faça e deve ser feito e não o que é sugerido pela vontade selvagem e irresponsável que possa habitar o ser humano. A nossa liberdade só acaba quando não é liberdade e se transforma em libertinagem. Quem a pratica é censurado e afastado da relação com os outros ou é desprezado.

Anda por aí agora a moda de fazer-se concursos de tudo e mais alguma coisa. Vá-se lá saber porquê, tudo passou a ser votado para o melhor de não sei o quê, como se haja o melhor, quando tudo é original e tudo é diferente. E basta que os habitantes de uma região votem em massa e ganhem o concurso e ficam com o rótulo da melhor proeza ou maravilha cultural. A cultura não é feita para concursos e parece-me muito pouco sensato andar a promover competições culturais. A cultura é tão rica e variada, tão heterogénea e singular, tão multifacetada e colorida, tão diversa e única para caber num concurso. É impensável colocar-se a concurso coisas que são únicas e originais. De certeza que este marketing anda a servir alguns interesses, para inglês ver, que facilmente identificamos, e duvido que estejam a prestar um bom serviço à cultura e à identidade portuguesa. Faz-se muito show televisivo, mas gostaria de saber o que é que se vai continuar a fazer pelas coisas que são levadas a concurso, muitas delas já com muito poucos guardiões e aprendizes.

Lá se inventou também o concurso das sete maravilhas da cultura popular, sendo levada a concurso a sexta-feira 13, noite das bruxas, que se realiza em Montalegre. Tenho todo o respeito pelas pessoas que neste momento lutam pela sobrevivência do interior e da sua economia, o que cada vez mais é uma missão hercúlea, e o que nos está a custar ver crescer de forma galopante o despovoamento, o empobrecimento e o abandono das nossas terras, tenho um enorme respeito pelo Pe. Fontes, que gosta de partilhar a sua boa disposição com os outros, mas vi com enorme surpresa a sexta-feira 13 ser integrada no concurso das sete maravilhas da cultura popular. Vejam estas minhas palavras como uma crítica construtiva. Sejamos claros: a sexta-feira 13 não tem nada de Barroso e de Montalegre, não vejo ali cultura nenhuma. A cultura exige um cultivar que o tempo consagra no povo ou num povo. O que eu vejo no dia do evento é um circo de uma amálgama de coisas dispersas, uma invasão de pessoas para as mais variadas participações, de que sobra fumaça na aurora do dia seguinte e se fosse só fumaça. Não vejo contar uma história de Barroso, não ouvimos um autor de Barroso, não se vê uma forte participação da tradição genuína do povo de Barroso e do próprio povo de Barroso, que se deita cedo, porque no dia seguinte tem de trabalhar, não se celebra Barroso, celebra-se uma festa de rua, como tantas outras, num cenário único, com muito convívio e ruído, com muitos enfeites e figuras, com um sortido de personagens fantasmagóricas, mas que de cultura genuína pouco tem. O evento é recente e até a ladainha que o Pe. Fontes profere no momento da queimada, com a facécia que todos lhe reconhecemos, é de origem galega. Vender-se a ideia de que uma grande noite de convívio e diversão é uma maravilha da cultura popular é uma traição à cultura popular. Se me falarem de um cancioneiro do povo, de uma dança folclórica única, de uma forma de cantar e de cantares populares que fazem parte da história e atravessaram gerações, de uma tradição que expresse verdadeiramente o sentir do povo, de usos e costumes que o povo muita preza e que expressam a alma e a identidade de um povo ou de uma região e por aí fora, sabemos que estamos a navegar nas águas da verdadeira cultura popular.

Inserir a sexta-feira 13 na categoria das festas de rua ou das meras festas populares de diversão poderá ter algum sentido. E teve algum sentido comparar a sexta-feira 13 com as grandes romarias religiosas do país? Já o disse mais do que uma vez: a imagem das bruxas não tem nada a ver com Barroso e quem lhe tenta colar este rótulo presta um mau serviço a Barroso. O nosso povo sempre acreditou em maus olhados, mezinhas, poderes obscuros, curandice, superstição, mas não foi só em Montalegre, foi em todo o lado. Não há nenhum substrato cultural singular em Barroso ligado ao bruxedo para se justificar a sexta-feira 13 e não faz qualquer sentido dizer-se que a sexta-feira 13 é expressão da ancestral cultura de Barroso. Tivemos de inventar estórias e contos mágicos para passarmos os nossos grandes serões hibernais, o que se fez e faz em muitos países e culturas. Quem vai ouvindo as pessoas pelas aldeias de Barroso, não deixam de manifestar estranheza pelo aparecimento do evento com o nome que tem e consideram uma bizantinice sem perdão ligá-la à verdadeira cultura do povo de Barroso. Não digo que o evento não se continue a realizar, oferece diversão, tanto melhor, e, segundo dizem, tem uma grande importância para a viabilidade económica de Barroso, mas chamemos-lhe o nome certo, não exageremos nas suas considerações e tenhamos mais respeito pela cultura de Barroso e da cultura popular em geral.

Genoveva do Espírito Santo (nome fictício) é uma figura conhecida do bairro da Boa Fama. Já é viúva há dezena e meia de anos, nunca mais se deixou enredar por amores («tive um e chegou-me»), anda sempre bem vestida e perfumada, com um vistoso fio de ouro no pescoço, onde exibe a figura do grande amor da sua vida, que visita diariamente no cemitério, homenageando-o com algumas orações e sentidas lágrimas. Quando o padre Anacleto vem ao bairro celebrar a missa, ela não falha: apresenta a sua intenção e tem sempre terços e outros objetos religiosos para o senhor padre benzer. Já se lhe ouviu dizer muitas vezes, altiva e convicta: «sabe, padre Anacleto, a minha família sempre foi muito religiosa. Como não podia deixar de ser, eu também sou.» Não falha uma missa, festa ou romaria.

Maria Antonieta da Purificação (nome fictício) é uma boa mãe de família e uma avó carinhosa. Não há maior alegria para ela do que ver os netos irrequietos à volta da mesa e ela a contemplá-los embevecida, com um sorriso de orelha a orelha, como um ourives contempla as suas melhores joias. Educou os seus três filhos a ir à missa todos os Domingos e à noite rezava o terço com eles, na companhia do marido, o que tenta fazer com os netos, mas com pouco sucesso. Tem um altar na sala de estar, onde vive as suas devoções e alimenta a sua piedade, com uma bela cruz de prata e várias imagens de santos, quadros com rezas, com uma vela sempre a arder. Todas as manhãs e noites passa por ali, para consolo da sua alma. Não há ano que não faça uma promessa, para ter a benevolência de Deus e dos santos. Está sempre prestável para ajudar o padre Agripino, a quem assegurou: «A minha mãe era uma mulher muito religiosa. E eu também gosto de ser, gosto da Igreja, e morrerei como mulher de Igreja. Não consigo viver sem fé».

De certeza que conheceremos pessoas assim. Não têm nada de errado. Conhecemos muito bem esta educação e cultura católicas, que foram o nosso berço. E muito temos a agradecer. Não tenho qualquer dúvida de que serão pessoas de verdadeira fé, boas e devotas, que procuram ser fiéis à tradição e aos costumes católicos, e que tentam pautar a vida pela boa educação religiosa católica que tiveram. O problema é que, muitas vezes, somos educados a ser muito religiosos e pouco cristãos, o que não pode acontecer. É um salto ou um passo fundamental que muitos cristãos católicos precisam de dar. Há por aí religião a mais, com muitos atos e práticas religiosas ancestrais, embrulhadas com muita superstição e espírito interesseiro, e cristianismo a menos. E não faltam «católicos», que ignoram o que é ser cristão e viver como tal. Ser um bom cristão católico não é ser só fiel a regras, práticas e costumes que a Igreja propõe, férreo cumpridor de ritos e cerimónias e aficionado de devoções e rezas, mas pautar a vida pelos critérios, valores e sentimentos de Jesus Cristo, pela fidelidade ao Evangelho. Corremos o risco de se cumprir em nós o que o padre António Vieira já alertava no seu tempo, «sermos católicos de dogmas, mas hereges de mandamentos», ou seja, acreditar numa série de verdades e praticar uma certa ritualidade e disciplina sacramental, mas depois viver ao contrário daquilo em que se acredita e se afirma diante de Deus, separando-se o culto da vida e a vida do culto, a fé e a doutrina da ética e da moral que devemos praticar todos os dias. É uma contradição inaceitável, que Jesus condenou severamente no seu tempo.

O divórcio entre o culto a Deus (ser religioso) e a vida (ser mesmo cristão) chega a atingir o escândalo, como descreve o escritor católico, João da Silva Gama: «Temos muito povo cristão que ainda está por evangelizar: para ele, a religiosidade só funciona em certas alturas da vida, como o nascimento, casamento e missa aos Domingos. Nos intervalos, o tempo mais importante da vida, há cristãos que chegam a cometer as mais incríveis barbaridades: caluniar e difamar sistematicamente o vizinho, fazer justiça por mãos próprias, à enxada ou linchamento, só porque lhe tiraram um palmo de pinhal ou da horta. No dia seguinte, vemo-los na missa com uma devoção de estarrecer.»

Não temos de ser muito religiosos, enquanto meros consumidores e praticantes de religião, trazendo para a nossa relação com Deus os mesmos hábitos, práticas, ritos, medos e superstições que todas as religiões sugerem ou impõem aos seus sequazes, ou o «animal religioso», que habita o ser humano, dita. Alguns autores católicos até defendem que Jesus Cristo não quis fundar uma religião, tal como é conhecida, quis fundar um movimento de discípulos, que perpetuaria no mundo a sua forma de estar e de viver, contruindo e testemunhando o Reino de Deus, de acordo com os princípios e valores do Evangelho. Religiosizar a fé cristã talvez não tenha sido um bom caminho. O que temos de ser mesmo é cristãos de verdade, imbuídos do Evangelho na mentalidade e no coração, com uma postura digna de cristãos nas relações humanas, na família, no trabalho, nos negócios e restantes âmbitos da vida humana e social, não descurando, certamente, a vida litúrgica, a oração e o encontro com os outros, mas viver só isto, sem a fidelidade diária a Cristo e ao Evangelho, é uma hipocrisia inaceitável para um cristão católico.

No dia 2 de agosto de 2016, o Papa Francisco nomeou uma comissão para estudar o papel da mulher na Igreja, mais concretamente para estudar a existência do diaconado feminino na história da Igreja e a sua reativação na vida eclesial, comissão composta por seis homens e seis mulheres, presidida pelo secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, Luis Francisco Ladarria Ferrer. Tratou-se de pôr em prática o que o Papa já tinha manifestado na sua exortação apostólica «A Alegria do Evangelho», de 2013, pedindo abertura e uma séria reflexão para se dar mais protagonismo às mulheres, leigas e consagradas, nos processos de decisão na Igreja e na pregação. Se repararem bem, tem sido um apelo sempre presente na comunicação e na agenda do Papa.

Aproveitando a investigação já realizada e o mediatismo do tema, a Universidade Católica em Lisboa promoveu no dia 10 de abril a apresentação de um livro sobre a historicidade do diaconado feminino na Igreja e uma conferência sobre a mesma temática, com a presença de dois membros da comissão que o Papa nomeou.  A investigação não deixa dúvidas: desde os inícios da história da Igreja até ao século 12 existiram diaconisas na Igreja. Quem lê as cartas de S. Paulo, nota que o apóstolo refere várias vezes nomes de mulheres que o ajudavam na vida das comunidades, chegando a referir que «trabalhavam juntos». Predominou uma grande liberdade e complementaridade neste campo até ao século 12. A reforma gregoriana e a separação da Igreja em 1054, entre Oriente e Ocidente, conduziu Roma a uma organização racional das leis e do direito canónico, excluindo o passado. A mulher foi remetida para um papel secundário e perdeu protagonismo na vida da Igreja.

Na opinião dos membros da comissão, chegou o tempo de a Igreja se reencontrar com o seu passado e restabelecer o diaconado feminino, um bem precioso de que a Igreja prescindiu. Como diz a coautora do livro, Phyllis Zagano, «esta é a oportunidade de a Igreja dizer que acredita no que ensina e que a mulher é imagem e semelhança de Deus». O Concílio Vaticano II deu um passo importante, na década de sessenta, quando restaurou o diaconado permanente. Seria bom, talvez agora, torná-lo acessível também para as mulheres.

Como sabemos, o Sacramento da Ordem tem três graus: diaconado, sacerdócio e episcopado, só para homens, e os dois últimos só para celibatários. O diácono, palavra de origem grega que significa servidor, que podemos identificar nas celebrações com a estola cruzada no peito, ao lado do bispo ou do sacerdote, é o ministério eclesial que tem por missão conduzir atividades caritativas, exercer funções litúrgicas, como anunciar a Palavra de Deus e dedicar-se à pregação, assistir o bispo e o padre nas missas, administrar o Batismo, presidir a casamentos e funerais, entre outras funções eclesiais. Só não pode celebrar a Eucaristia ou Missa e o Sacramento da Penitência, ações específicas e exclusivas do padre e do bispo.

Já aqui referi que Jesus Cristo, no seu tempo, contribuiu para a promoção da mulher. Falava com elas abertamente na praça pública, teve discípulas e partilhava refeições em casa de amigas, o que para o seu tempo era subversivo. Não vejo que dom a menos tenham do que os homens para não poderem ter um papel mais interveniente e decisivo na vida da Igreja. São, atualmente, a força da Igreja: dão catequese na sua maioria, são zeladoras, integram em grande número os coros paroquiais, presidem ao terço, fazem parte das comissões, entre tantos outros serviços. Não há razões válidas que justifiquem o não acesso ao primeiro grau do Sacramento da Ordem. Faz parte do elementar respeito pela dignidade da mulher, como afirma Phyllis Zagano: «Não preciso tornar o mundo todo cristão, mas gostaria de mostrar ao mundo que as mulheres são valiosas. Em particular para os crentes em Deus, que as mulheres são valiosas, são preciosas, não são um bem para possuir, não servem apenas para cozinhar e limpar. É muito importante fazer estas coisas, mas as mulheres têm um cérebro. E as mulheres são pessoas, humanas, totalmente humanas». E perfeitamente competentes para exercerem o diaconado, digo eu.

Já se pergunta nos ambientes eclesiais se muitos católicos voltarão à Igreja depois da pandemia. Já nem falo daqueles que desconfiam de que o vírus já cá anda há muitos anos e abandonaram as celebrações eclesiais há muitos anos. Quando as igrejas reabriram, terão sido poucas as que esgotaram a lotação em conformidade com as regras da pandemia. Vale a pena lembrar que muitas pessoas foram dispensadas de ir à Igreja, vivemos em regiões de grande envelhecimento e temos muita gente doente. Mas mesmo assim, sobram muitas pessoas que poderiam ir e não vão.

Sou levado a crer que os cristãos que habitualmente participavam e participam na vida da Igreja o fazem por convicção, vão à Igreja por verdadeira fé e que sabem compreender os tempos excecionais que estamos a viver. Se assim não for, que pobres cristãos temos sido. O que deve motivar um cristão a participar na vida da Igreja é o amor a Deus e aos outros, é o fascínio por Jesus Cristo e pelo seu Reino, é a alegria de ser e pertencer à Igreja, é o encanto pela fé. Não é o cumprimento formal de obrigações e preceitos, ou a repetição fria de hábitos que dão sentido à vivência da fé cristã. Repito mais uma vez, se assim é, que pobres cristãos temos sido. Não é por agora se quebrarem os hábitos e os dinamismos das nossas rotinas que vamos abandonar a nossa participação na vida da Igreja. Se assim acontecer, debelada a pandemia, teremos que concluir que estamos ainda no estado da infantilidade cristã. Andamos a reboque da cultura em que nascemos e dos costumes que assimilámos, mas, fora isso, não sabemos viver a fé de uma forma madura e pessoal, o que é um sintoma de grande enfermidade cristã. A ver vamos. Talvez venham mais ao de cima os motivos banais e fúteis porque muitas pessoas vão à Igreja. E se se der uma filtragem e uma purificação destes motivos, a Igreja não ficará a perder nada. Que muitos cristãos praticantes não deixem de refletir seriamente nestes dias o que tem significado a liturgia nas suas vidas e porque razão vão à Igreja. Será que é pelas verdadeiras razões? Quem estiver focado e fascinado por Cristo, duvido muito que abandone a vida da Igreja.

Sem qualquer intenção de censura ou julgamento, quando os cristãos voltaram às celebrações litúrgicas, reparei que a maior urgência sentida era as missas pelos defuntos, receber a comunhão, cumprir o preceito dominical, dar sentido ao domingo, mas não vi ninguém a falar da comunidade e da necessidade de estar com os outros, de celebrar a vida e a fé com os outros, de quem se sentia profundas saudades. Talvez seja um sintoma de que fazemos pouca experiência de comunidade aos domingos e vivemos pouco em comunidade, como devia ser o mais normal e o mais condizente com as exigências da reta vivência da fé cristã.

Vejo muitas pessoas a terem saudade do rito da missa, mas não vejo muitas pessoas a manifestarem saudade pela comunidade, de viver um verdadeiro encontro com os outros irmãos na fé e de se comprometerem a viver e a partilhar a mesma vida. Há excesso de culto e preceitos e deficit de comunidade, o sentir os outros e crescer em unidade e serviço uns para com os outros. Talvez isto nos diga que ao domingo somos mais um conjunto de indivíduos que vão à missa comandado por hábitos ou até escrúpulos, do que uma verdadeira comunidade de irmãos que tem uma grande alegria de estar junta e celebrar, e talvez diga muito da frieza que alimentamos nas nossas celebrações dominicais. Fazemos uma experiência pobre de comunidade.

Falta-nos a noção de que a missa também é um encontro com os outros, é uma comunidade, de que faço parte, que se alimenta e celebra, e não deveríamos achar normal que basta ver a missa pela televisão ou ouvir pela rádio, já nem falando dos que se consideram cristãos sem participar na vida da comunidade. E falta-nos esta noção porque na vida de todos os dias não vivemos em comunidade, vivemos muito virados só para a família e para o nosso grupo de amigos, não vivemos de verdade uns para os outros, para todos e para cada um. É uma dimensão que tem de ser seriamente repensada em muitas comunidades cristãs. Sem comunidade e em comunidade não há cristianismo de verdade.

Nunca foi fácil ser velho. Alguns chamam-lhe o inverno da vida. É e será sempre uma experiência perturbadora para a pessoa humana confrontar-se com o definhamento das suas capacidades psíquicas, intelectuais e físicas e voltar a um tempo de dependência próprio da infância. É penoso ver os sentidos a claudicarem e a arrastarem-nos para uma dolorosa perda de contacto com o mundo, um corpo que antes tinha uma admirável elasticidade para saltar penedos e agora lança sinais de alerta de todos os lados. Mas nada disto é surpreendente, já todos sabemos que temos um princípio, um meio e um fim. O melhor caminho a seguir é reconciliarmo-nos com a vida e tornarmo-nos aprendizes da arte de envelhecer. E ainda bem que temos alguns exemplos inspiradores à nossa volta. Não deixar imperar a visão capitalista e utilitária da vida, como se o ser humano só valha pelo que trabalha e produz.

Se o tempo da velhice já é por si o que é, também é verdade que a família e a sociedade têm a responsabilidade de o tornar mais saudável ou mais espinhoso. E facilmente podemos notar, atualmente, que não estamos a fazer tudo, como temos o dever de fazer, para que os mais velhos tenham uma velhice proveitosa e digna, sejam valorizados e apreciados, amados e estimados, muito por culpa de um modo de vida egoísta e comodista em que vivemos, com agendas individualistas e hedonistas, onde o cuidar dos outros e viver para os outros não têm espaço, onde a família está a deixar cair a sagrada tradição de todos olharem uns pelos outros até ao normal fim da vida. O esquecimento, a solidão, o abandono estão a ser a triste sina de um bom número de velhos. Na Ásia e em muitas culturas africanas, há um respeito venerável e abissal pelos mais velhos das famílias e da comunidade, na Europa, sede de progressos civilizacionais e dos direitos humanos, condenamos os velhos ao desprezo e à irrelevância social, sem o mínimo respeito pelo que lutaram e pela fina sabedoria que carregam.

Temos de mudar de atitude para com os mais velhos, que nos dão horas leves de prazer a ouvi-los contar as histórias da vida e nos oferecem sal para darmos equilíbrio a tanta imprudência e precipitação que nos comandam. Um crime civilizacional que estamos a cometer atualmente é separar as gerações, os netos passam pouco tempo e convivem pouco tempo com os avós, tirando, claro, as muitas felizes situações em que isso ainda acontece, os mais novos não sorvem a memória, a experiência e a sabedoria dos mais velhos. É uma perda irreparável para a consistência e a harmonia da sociedade e das famílias os mais novos não absorverem o saber valioso dos mais velhos, sobretudo num tempo que dá a primazia à formação tecnológica, científica e técnica, mas onde faltam de forma gritante a educação básica, os valores humanos, sociais e espirituais. Dizia há dias a escritora Alice Vieira: «Os avós ensinam coisas que os pais não ensinam» e o Papa Francisco escreveu num tweet: «Onde não há cuidado com os idosos, não há futuro para os jovens». E a Comissão Episcopal do Laicado e Família não pode deixar de concluir: «Os avós são um tesouro. Neste tempo que vivemos, precisamos de o dizer de forma clara, de o defender de forma assertiva. E os tesouros são protegidos, tocados com cuidado e admiração. Uma sociedade que não protege, não cuida, não admira os mais velhos, está condenada ao fracasso».

Há que fomentar três atitudes fundamentais para com os mais velhos: em primeiro lugar, respeito profundo, por serem pessoas humanas com a mesma dignidade que as outras, a idade não diminui a dignidade, e pela sua caminhada de vida; depois admiração, pelo muito que trabalharam e lutaram pela família, pela terra ou pela sociedade; por fim, valorização da sua memória e experiência de vida, tesouros imprescindíveis para o caldeamento e enriquecimento da vida, dando-lhes mais importância e intervenção na vida familiar e social, na vivência de uma velhice ativa e positiva, válida e fecunda.  

Tenho o maior apreço pelos jovens, admiro a sua rebeldia, a sua criatividade e vivacidade, a sua vontade de querer mudar e transformar o mundo, de quebrar preconceitos obsoletos e mofentos, questionar regras e costumes carcomidos e desajustados, e tenho, sobretudo, como certamente todos terão, muito respeito por eles, porque serão os futuros líderes da sociedade, e só Deus sabe como me custa fazer-lhes algumas críticas, que considero, no entanto,  construtivas, mas vou ter de o fazer. De eleição para eleição não estou a gostar de saber que a faixa etária mais abstencionista é a juventude. E as explicações ou teses sobre o fenómeno que são avançadas não convencem e não têm sentido. E, possivelmente, estão a incorrer num indigno ato de ingratidão para com o país, a família e os muitos honrosos antepassados, que lhes deixaram uma herança admirável. Poucas gerações tiveram o desafogo, o bem-estar, uma qualidade de vida, um nível de riqueza, as regalias e as benesses que as gerações atuais estão a ter. Deveriam estar muito agradecidas pelo mundo que lhes foi dado a viver. Mas a resposta dos jovens não tem sido a mais correta, alinhando pelo fácil falar mal de um tempo e de um mundo que lhes dá quase tudo de mão beijada.  

Vejamos algumas coisas. Nascemos num país livre, onde cada pessoa humana pode construir livremente a sua vida, no usufruto dos seus direitos e no cumprimento dos seus deveres para com a comunidade e para com os outros cidadãos. Há liberdade de consciência, de religião, de expressão e tantas outras fundamentais para a realização humana. Cada um pode ser e viver como quer, no respeito pela lei e pelos outros, o que noutros tempos foi negado a muitas pessoas. E o quanto não é bom vivermos a vida sem termos a sombra alucinante de um fantasma que queira conduzir, espiar, censurar e perturbar a vida dos outros! A liberdade e a democracia, que muitos corajosamente e abnegadamente conquistaram, não merecem que percamos quinze minutos para ir votar, participando na festa da democracia? Porque, de facto, a democracia é a festa da sã discussão, da partilha de ideias, da escuta de quem pensa diferente, do confronto intelectual de projetos e soluções para as dificuldades e problemas da sociedade. E a melhor solução é não participar na festa e fazer de conta que isto não é nada connosco? No futuro quem vai liderar a sociedade e as instituições políticas? 

Depois, lembro que nascemos num berço de ouro. Hoje, a maioria dos jovens não passa fome e não é miserável, pode estudar e pena, de facto, que ainda nem todos tenham um nível de vida digno e não possam estudar, mas se quereis que assim seja é a comprometer-se com a democracia e com a boa política e não virando-lhes as costas. Hoje um jovem já tem telemóveis de mil euros nas mãos com toda a facilidade do mundo, o que noutros tempos era uma miragem, e se o queriam, tinha de ser à custa do suor do seu trabalho. Muitos podem vestir-se com uma elegância ímpar. Poucas gerações tiveram os níveis de distração e diversão que as gerações atuais têm, onde não faltam atividades, desportos e ações para passar bem o tempo e aumentar a dopamina no cérebro. Muitos jovens têm o privilégio de participar em todos os festivais de verão, com grandes noitadas, à custa de muitos pais trabalhadores e abnegados, que se devotam, talvez exageradamente ou até erradamente, à convenção social de que não se pode faltar com nada aos filhos. Nunca se teve tanta facilidade para viajar e passar férias como hoje e veja-se o número de casais jovens que o fazem.

É caso para perguntarmos: de que é que se podem queixar as gerações atuais? Que mais é que é preciso? Certamente que ainda não é um mundo ideal e perfeito, pois não, mas é um mundo bom, que muitas gerações nunca tiveram, e é verdade que a cultura partidária e política desilude em muitos aspetos, mas sempre assim foi, com mais ou menos dimensão. A cultura laboral e empresarial ainda deixa muito a desejar, não há emprego para todos, pois não, mas só há uma forma de melhorar a situação: refletir, participar no debate de ideias e projetos, apontar soluções, ser um cidadão determinado, ativo e participativo, dar o corpo ao manifesto pelas boas causas sociais, envolver-se com audácia e criatividade no desbravar de novos caminhos e criação de estratégias para se melhorar a vida de todos, em vez de passarmos o tempo a reclamar de tudo e de todos ou a deixar sempre para alguém que nos venha sempre fazer a papa toda, sem exigir o nosso esforço e o nosso compromisso. Já é tempo de deixar o recreio.  

Jesus não quis fundar uma nova religião. Esta é uma tese sustentada, hoje, por muitos teólogos e estudiosos de religião. Muito pelo contrário. Jesus manifestou forte repugnância pela mentalidade religiosa e suas práticas e foi um crítico severo dos sacerdotes do seu tempo e seus comportamentos, revestidos de vaidade, poder, manipulação e sovinice. A religião não era libertadora e humanizadora, mas opressora, comandada por interesses humanos, e, sobretudo, por uma lógica de poder. O templo de Jerusalém, com todos os interesses que o rodeavam, mereceu sempre violentas censuras de Jesus. E não deixou de apontar uma alternativa: Ele mesmo e o seu Evangelho do Reino de Deus, uma outra forma de viver centrada em Deus e nos outros, sem as desnecessárias roupagens e os dispensáveis desvios da religião, que Ele repudiou. Colocamos então a pergunta: se assim foi, como é que se transformou o cristianismo numa religião?

A resposta é muito longa. Tal como o francês Alfred Loisy desabafou e lamentou, um dia, que «Jesus anunciou o Reino, mas o que veio foi a Igreja», quase também podemos concluir que Jesus propôs uma filosofia de vida e um movimento de discípulos guiados pelo Evangelho, e afinal o que veio foi uma nova religião, muitas vezes em profunda contradição com o Evangelho. Como diz o teólogo Jose Maria Castillo, «o maior erro da Igreja foi fundir e confundir a Religião com o Evangelho. Assim, como sabemos, o Evangelho é lido, na liturgia da Igreja, como um componente ou uma (breve) parte da Religião. E assim, com isso, o que se conquistou é viver uma contradição incessante, que se traduz e se materializa em milhares de contradições».

Seja com for, o caminho está feito e não é fácil agora formatar mais de dois mil anos da história da Igreja e da fé cristã e purifica-las de um dia para o outro da configuração e da mentalidade religiosa. Mas podemos e devemos fazê-lo dentro de nós e na nossa forma de viver a fé. Podemos e devemos fazer uma séria reflexão sobre o assunto e dispormo-nos a uma conversão permanente ao Evangelho. Reparo, como padre, que temos tendência para sermos muito religiosos e pouco cristãos, ou seja, gostamos de obedecer a todo um conjunto de práticas, costumes e tradições para nos sentirmos bem com Deus e conquistarmos a sua bênção e benevolência, de termos um sem número de santos que intercedam por nós e nos ajudem a vencer as necessidades e medos da vida, termos bênçãos para nos sentirmos seguros e confiantes (esta é a natureza radical da religião, em que, no fundo, nós estamos no centro), mas depois esquecemos os valores evangélicos mais básicos nas relações humanas, no trabalho, na família, nos negócios, no convívio social, na nossa moral pessoal, na nossa presença e intervenção no mundo, nas várias formas de o fazer.

Mais do que suspirarmos, durante a pandemia, pelo facto de não podermos cumprir os nossos deveres e preceitos religiosos, ou até as tradições que mecanicamente cumprimos, devemos é suspirar por ainda vivermos um cristianismo superficial, não termos no coração os sentimentos de cristo e por os seus valores evangélicos não estarem presentes nas nossas atitudes e no nosso testemunho diário de cristãos. Que testemunho os católicos deram durante a pandemia? Quem viu o sal, a luz e o fermento dos católicos? Tivemos e ainda vamos ter um tempo excecional para percebermos que temos de trocar uma certa religiosidade interesseira por uma vivência da fé verdadeiramente mais cristã e evangélica.

No século XVI, as caravelas e as naus de aventureiros europeus, sedentos de conquistas, de poder e de riqueza, com muitos missionários católicos nas fileiras, aportaram nas virgens praias dos povos americanos. Começaria um tempo de terror para os indefesos povos indígenas, um tempo de massacre e destruição, com uma aliança infame e diabólica entre a espada e a fé. Milhões de índios foram forçados a converter-se à fé cristã, estando em ação uma imparável evangelização musculada, imposta a todo o custo, sem tolerância possível. Centenas de templos foram demolidos e milhares de imagens do culto indígena foram quebradas e queimadas. Milhares de índios insubmissos, questionando a arrogância e o desplante dos invasores e usurpadores intrépidos, são barbaramente assassinados nas mãos destas milícias de Deus ou soldados de Deus. Para estes apóstolos do Novo Mundo, as regras eram simples: ou a conversão à fé cristã, ou a morte. Contextualizando-a no tempo, certamente, mas ficou assim escrita mais uma página negra da história da Igreja, uma missionação violenta e forçada em clara contradição com os valores que o Evangelho propõe. A Igreja não é a única culpada, há muitos aventureiros ambiciosos e sem escrúpulos, que têm de se sentar no banco dos réus, mas a Igreja permitiu uma cumplicidade, que não podia ter qualquer sustentação.

Para além de uma instrução cristã obrigatória, muitos índios foram transformados em escravos pelos colonizadores para auxiliarem na exploração mineira, sobretudo ouro, e nas plantações rentáveis, como a cana-de-açúcar ou o algodão. Durante décadas, face à rebelião que seria de esperar dos indígenas e com uma funesta prepotência, os intrusos europeus submeteram milhões de índios a um abominável período de punição e maus tratos, escravatura e extermínio. Não faltaram, contudo, vozes discordantes e corajosas dentro da Igreja, e homenagem lhes seja feita, a condenar esta maldição lançada sobre os povos indígenas americanos, como António de Montesinos e Bartolomeu de las Casas, o que lhes valeu vigilância apertada e alguns assomos da Inquisição.

A missionação indígena passaria depois por outras fases menos violentas e intolerantes, gerações indígenas posteriores olharam para a fé cristã com outros olhos, mas nunca mais se esqueceram os abusos e atrocidades que se cometeram nos inícios da descoberta e da conquista americana pelos europeus. Com sempre acontece, o tempo foi curando muitas feridas e veja-se, contudo, as voltas que a história dá: o mesmo território que noutros tempos foi olhado com suspeita e como antro do demónio, da incultura, do primitivismo humano e da incivilização, é agora olhado como o «laboratório» ideal para a Igreja pôr em prática algumas soluções ou experiências, que no futuro  poderão ser aplicadas a toda a Igreja Universal.  

Quando se realiza um novo sínodo na Igreja, alguns setores eclesiais e alguns meios de comunicação social caem sempre na esparrela de elevar a tal ponto as expectativas, que criam a sensação de que vai vir aí um vendaval de mudanças profundas na Igreja, o que nunca vai ser verdade. A Igreja muda muito lentamente e, por vezes, tem muito medo de mudar. Mas vai mudando algumas coisas, infelizmente em contramão face à obsessão mediática pelo sacerdócio feminino e pelo celibato, que já se percebeu há muito tempo que, pelo menos nos próximos tempos, são intransponíveis. A atitude do Papa Francisco tem sido admirável: não quer uma Igreja adormecida em velhos esquemas e soluções gastas, manda estudar e investigar, apela à criatividade pastoral, recomenda coragem para se enfrentar os problemas, quer uma Igreja próxima, em ação e comprometida com o mundo e com o futuro de sim mesma e da humanidade. Note-se que a possível ordenação de homens casados é só para os casos de muitos homens casados que já são diáconos na Igreja e não para todos os homens casados. Sairá em breve a exortação pós-sinodal do Papa Francisco, onde serão apontados caminhos para o futuro da Igreja. O respeito pela civilização indígena, a delapidação da Amazónia, o pecado ecológico, as alterações climáticas e possíveis avanços no Sacramento da Ordem estão a merecer uma atenção especial. A ver vamos.

Há duas ou três gerações de pais que estão a passar por uma situação ímpar: por um lado, e permitam-me usar uma palavra pesada, foram escravos dos pais, tiveram que se submeter em tudo aos pais, até, muitas vezes, no casamento. A soberana vontade dos pais ditou as suas opções de vida. Muitos desabafam hoje que foi um tremendo tempo de submissão e opressão. Não tiveram liberdade e autonomia para nada. Talvez querendo depois dar aos filhos o que eles não tiveram, e note-se a ironia da vida, acabaram depois por se tornar escravos da vontade dos filhos. Vemos assim, hoje, muitos pais completamente dóceis aos filhos, tudo fazendo para os criar num berço de ouro. Se antes os filhos tinham de fazer tudo para agradar aos pais, hoje os pais fazem tudo para agradar aos filhos. Podemos concluir que há duas ou três gerações que não tiveram tempo para gozar a vida. Tiverem de viver sempre para os outros. E não esperem por grande gratidão dos filhos: muitos vão colocá-los em lares, porque ao ritmo que vivemos poucos serão os filhos que terão tempo para os pais e poucos serão os que quererão cuidar dos pais.

A despenalização da eutanásia em Portugal ainda tem de percorrer uma maratona até ser aprovada. A mim interessa-me vê-la como um sintoma da mentalidade e do estilo de vida que estabelecemos na sociedade atual, estilo de vida muito questionável. Como muito bem diz Henrique Raposo no Expresso, «as pessoas não aceitam a tristeza como uma das partes da vida. Estamos a falar das mesmas pessoas que não estão disponíveis para o amor sacrificial que é criar filhos ou tomar conta de idosos. A sociedade que não quer ter filhos, porque as crianças dão trabalho, é a sociedade da eutanásia. A sociedade que abandona os velhos, porque os velhos dão trabalho, é a sociedade da eutanásia. A sociedade que preenche com os animais ‘humanizados’ estes vazios familiares, é a sociedade da eutanásia. A sociedade do lifestyle, é obviamente a sociedade da eutanásia, porque não tem tempo nem dinheiro para os velhos, para os doentes, para os mais frágeis».

Consagrámos e construímos a sociedade do bem-estar, decretámos o individualismo, vendemos a ideia de que a vida tem ser sempre prazenteira, fácil, cómoda, leve, ao sabor dos caprichos e conveniências de cada um, sem sacrifício, sem dor e sofrimento, livre de todos os empecilhos que possam perturbar a suprema satisfação do indivíduo, de modo que hoje ninguém está disponível para se sacrificar pelos outros e a ser solidário com quem quer que seja, a não ser que seja suave e momentâneo, a não ser por muito dinheiro, e fazemos tudo por esconder aqueles por quem temos o dever de nos sacrificar, porque muito fizeram por nós. A agudizar tudo isto, ainda temos a erosão da família, que desaprendeu a educar e a cuidar, e a desvalorização da vida no sofrimento e na velhice, de tal forma que muitos idosos sentem que são um estorvo e um peso para os outros, pairando sobre as suas apavoradas consciências a sensação de que já não estão aqui a fazer nada, e, pior ainda, já não valem nada. A vida vista pelo lado injusto e infame da utilidade e da eficácia. Já não produzes e não trabalhas, já não prestas.

O eclipse de Deus e a penúria de vida espiritual e religiosa deixam-nos petrificados e encalhados diante dos momentos mais duros e dramáticos da vida, como são o sofrimento e a morte. Como não os queremos viver nem entender, procuramos disfarçá-los ou escondê-los, e afastamos de nós os que estão a passar por eles. Reparem até na nossa educação: já poucos jovens ou crianças se veem nos velórios e nas visitas dos hospitais. Só queremos ver tacanhamente a vida pelo seu lado agradável, hedonista, engraçado, alegre e feliz, e camuflar o outro lado, que no mundo de hoje está proscrito, porque obriga a pensar a vida para lá das respostas simples e cómodas e das convicções e explicações superficiais reinantes.

Todos sabemos que existem momentos e situações de sofrimento dilacerantes na vida e aceito que a vida é muito complexa. Mas percebemos facilmente o berço humano e social que está a dar à luz a eutanásia e é um berço que me deixa profundamente inquieto e apreensivo, ciente do profundo retrocesso quanto à humanidade que deve imperar numa sociedade humana.  

Um pai de Famalicão impediu dois filhos de frequentarem a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento pelo facto de alguns conteúdos da mesma irem contra as suas convicções e valores. A escola ameaçou chumbar os alunos por excesso de faltas. O tribunal suspendeu a decisão da escola, parecendo dar razão ao pai ou, talvez, recomendando mais reflexão e ponderação sobre a disciplina e a decisão. Entretanto, a sociedade mobilizou-se e surge um manifesto a reclamar a liberdade e a responsabilidade dos pais na escolha da educação dos filhos e a possibilidade de existir a objeção de consciência para certas matérias. Surge um contramanifesto a defender a disciplina e a sua obrigatoriedade, com a multiplicação de afirmações e de artigos na imprensa, dos dois lados da barricada, por vezes com algum radicalismo desnecessário e arrastando-se o debate para os velhos lugares comuns esquerda/direita ou conservadores e progressistas, quando não era nada disso que estava em causa. É lamentável a pressa que hoje se nota em classificar ou em desclassificar a posição de quem pensa diferente de nós e já começa a ser insuportável a arrogância de grupos bem pensantes que se acham os donos da modernidade e do verdadeiro progressismo humano e social. Sabemos pela história como acabaram muitas destas arrogâncias.

A Igreja sublinhou, mais uma vez, que os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos e devem ter liberdade em escolher o melhor para a educação dos seus filhos. E está disponível para uma melhor clarificação e debate dos conteúdos da disciplina. A Igreja já ensina há muito tempo que o cristão tem o dever de ser um cidadão exemplar, de saber viver em sociedade, de ter cultura democrática e cívica, com os seus direitos e deveres, acolhendo e respeitando as regras sociais, de respeitar a justa e legítima autoridade instituída, de contribuir para o bem comum, pagando os seus impostos, de agir sempre com respeito e responsabilidade por si e pelos outros, de cuidar do meio ambiente, de saber aceitar e conviver com a diferença e as díspares formas de viver e de pensar, agindo com tolerância, e tem de ser um defensor e promotor dos direitos humanos.   

Nunca esteve em causa ensinar a ser um bom cidadão e bem saber viver em sociedade. Nunca ninguém esteve contra isto, nem se poderia estar, como alguns artigos deram a entender. O que realmente esteve e está em causa é que alguns conteúdos da disciplina são muito questionáveis, não são consensuais, e estão prenhes de ideologia, em claro confronto com as convicções de uma boa parte da sociedade portuguesa, para não falar da comunidade médica, académica e científica. E as ideologias não devem ser impostas na escola, como manda a nossa Constituição. Poderão e deverão estar presentes no debate escolar, pelo confronto com o contraditório e o fomento do espírito crítico, mas não ser impostas. Nomeadamente, está em causa a ideologia de género, em que se passam teorias que estão envoltas em grande polémica, são muito discutíveis, não devendo, por isso, fazer parte do currículo escolar, para além de outros conteúdos de carácter sexual e antropológico merecedores de reserva. Não há necessidade nenhuma de se estar a intoxicar a mente de crianças e jovens com teorias que não têm sólida sustentação e que podem provocar uma grande perturbação e confusão no seu crescimento humano e social.

A escola sempre foi uma tentação para grupos políticos e sociais formatarem cidadãos de acordo com as suas cartilhas ideológicas para fins políticos e sociais ou outros fins. Há que combater esta tentação. A escola deve servir acima de tudo para ajudar a pensar sem pressa de impor nada, de formar cidadãos livres, com espírito crítico, que sabem pensar e adquirir conhecimento, agir sempre com inteligência e responsabilidade, e não para domesticar meninos e meninas para os interesses de grupos ou doutrinar com modas sociais ou formulações ideológicas de duvidosa certeza e progresso. Parece-me é que se muitos pais fossem pais como deve ser, esta disciplina não precisava de existir na escola. Hoje, infelizmente, educa mais e mal a internet e a televisão.  

O teólogo José Maria Castillo, num artigo de opinião num jornal digital espanhol, escrevia há dias, no seu tom frontal e cáustico: «Eu não digo que a Igreja deve mudar ou tem que mudar. O que eu digo é que a Igreja mudará. Porque ela não tem escolha. Ela não tem outra saída. A Igreja que temos agora, como está, não pode durar muito. Todos os dias há menos padres, menos religiosos, menos vocações para seminários e conventos. E todos os dias também mais paróquias sem padre, mais fiéis sem Missa e mais pessoas sem sacramentos». E na parte final do seu artigo, o teólogo sentencia: “A Igreja estagnou - e continua estagnada - em pensamentos, costumes e cerimónias anteriores à Modernidade, a Igreja afunda e aí permanece, presa em ideias, deveres e cerimónias, que quase ninguém entende e nas quais quase ninguém está interessado”.

Não partilho totalmente da opinião tenebrosa e negativa do teólogo espanhol, mas dou-lhe razão quanto à necessidade de mudanças na Igreja. Aliás, diz uma velha máxima da Igreja que a «Ecclesia semper reformanda», a Igreja está sempre a reformar-se, a mudar, a precisar de reforma. E, de facto, é preciso agir rapidamente para que a Igreja possa continuar a bem cumprir a sua missão de anunciar o Evangelho e de levar a salvação de Jesus a todos. Uma das grandes reformas que urge realizar é a promoção do laicado na Igreja. Já assim devia ter sido desde sempre. Devido à clericalização da vida da Igreja, os leigos foram secundarizados na ação e intervenção da Igreja, de tal maneira que ainda hoje quando se fala de Igreja toda a gente pensa no Papa, nos bispos e nos padres, os que pensam, os que sabem e os que «mandam», os outros, os leigos, obedecem. O seu lugar e missão é no mundo, sem dúvida, onde são chamados a levar o espírito do Evangelho e a testemunhar a fé cristã, mas também é na Igreja, onde têm o seu lugar próprio para que a Igreja celebre a sua fé e cumpra a sua missão, e devem ser chamados a participar nas decisões da Igreja.

Como dizia há dias o padre Tony Neves, numa entrevista à Renascença, «o grande desafio para a Igreja em 2020 é a emergência de um laicado forte porque, sobretudo na Europa e no norte da América, que foram os continentes que mandaram na Igreja durante 20 séculos, clericalizámos demais a Igreja, e pusemos tudo muito em cima das costas dos bispos e dos padres, com consequências a meu ver desastrosas, a todos os níveis, mas sobretudo de caráter pastoral», consequências fáceis de comprovar. «De uma vez por todas deixemos de pensar que os bispos e os padres é que têm de fazer tudo na Igreja, é que têm de ter toda a autoridade e tomar todas as decisões, e que se eles não estiverem o mundo acaba. Não é verdade. O que nos caracteriza como cristãos é o nosso batismo, tudo o resto são ministérios, e o Papa e a Cúria podem depois ir distribuindo esses ministérios de acordo com as necessidades pastorais». Nos inícios da Igreja houve uma grande riqueza e variedade ministerial, distribuição de tarefas. Todos eram chamados a contribuir e a participar ativamente na vida da comunidade e todos participavam nas decisões e na resolução dos problemas. O Evangelho assim o testemunha. Com a institucionalização que a Igreja adquiriu com a liberdade do Império Romano e pela Idade Média fora, clericalizou-se a vida da Igreja. Há que regressar aos alvores da Igreja. É urgente formar leigos para se poder assegurar a celebração do Domingo nas comunidades cristãs. O atual ritmo paroquial, centrado na ação do padre, está a espremer os padres, que se sentem cada vez mais perdidos e cansados, a assegurar uma pastoral de manutenção sem futuro. Já temos o bom exemplo da Diocese da Guarda, onde muitos leigos – algumas senhoras - asseguram a celebração do Domingo na ausência do padre, com muitos bons resultados pastorais.  

A primeira e mais difícil mudança é sempre a nossa mentalidade. Para muitos cristãos, a religião só faz sentido com o padre. Foi o modelo que imperou na vida da Igreja. Mas a igreja são todos os cristãos e não apenas o padre. Também há religião para lá do padre. Como diz o padre Tony Neves, «o Papa disse que a memória e a tradição não são armários onde a gente mete e tira coisas. A memória e a tradição também evoluem, também têm de ser evolutivas. E sobretudo temos de acreditar que o Espírito Santo não está a dormir, e portanto, ir renovando, ir mudando é qualquer coisa que devia fazer parte da dinâmica normal da Igreja». Há dois mil anos, foi um leigo judeu chamado Jesus que fez estremecer o Judaísmo e a sociedade do seu tempo. Está na hora de uma emergência laical na Igreja.

Estamos a chegar ao fim de um ano que jamais iremos esquecer. Nem o mais astuto dos adivinhos e o mais desperto dos profetas previram que uma pandemia fulminasse a humanidade no ano de 2020. E então para o homem contemporâneo, que se ufana ou ufanava de já ser controlador e dominador de quase tudo, foi um estrondoso rombo no seu orgulho e na sua altivez. O pior de tudo foi a partida inesperada e súbita de um número considerável de pessoas, algumas amadas e conhecidas, que nos deixaram estranhamente num apagar de olhos, e o enfrentamento de uma grave crise económica e social no próximo ano ou anos, que vamos tentar suster à bazucada. Mas o dinheiro não vai resolver tudo, muito longe disso. Chegamos ao fim de 2020 tristes, mais pobres, mais desorientados, letárgicos, inseguros, desconfiados e medrosos. Que as vacinas que aí vêm, o grande presente da ciência, este ano, para a humanidade, nos ajudem a vencer o sigiloso ladrão viral que nos amedrontou e roubou a vida e a alegria de viver nos últimos meses, e quebrem rapidamente o gélido medo que tomou conta da humanidade!

É tempo de fazer contas à vida. Que homem ou mulher somos neste momento? Em que humanidade nos tornámos depois de termos descido às profundezas da nossa fragilidade e da nossa insignificância? Que ser humano queremos agora ser uns para os outros e que novo rumo estamos dispostos a dar à vida e ao mundo? Que homem e mulher vão sair desta fulmínea e colérica pandemia? Mal da nossa sorte se tudo isto não passar de uma forçada intermitência e vamos já a correr para a vetusta e desequilibrada vida que estávamos a viver, assente em valores e pilares inconsistentes e efémeros, geradores de injustiça, desumanidade, solidão, escravidão e infortúnio. Má sorte a nossa se não saímos mais humanos e mais responsáveis deste tenebroso tempo, que suspendeu a vida!

Estaremos dispostos a operar uma verdadeira mudança dentro de nós e no mundo? Como dizia há dias D. José Tolentino Mendonça, «a pandemia não é só um acidente de percurso, é uma aceleração do futuro e vem de encontro àquilo que o Papa tem referido que é, nós não vivemos apenas num tempo com mudanças, nós vivemos numa mudança de tempo, vivemos numa mudança de época». Não podemos persistir «num mundo onde o sonho de liberdade e de igualdade é feito em pedaços. Um mundo onde nos sentimos a voltar para trás, onde alguns fantasmas, algumas ameaças à liberdade, à dignidade da pessoa humana, ao reconhecimento da igualdade fundamental, coisas que julgávamos adquiridas nas nossas sociedades, hoje voltam a ser postas em questão». No mundo que estávamos e ainda estamos a viver, «as sociedades desistiram de construir um projeto social para todos e aceitam-se desigualdades, assimetrias, que há nações de primeira e nações de segunda, que há países descartáveis».

Qual a solução ou o caminho? Diz D. José: «O Papa em alguns momentos diz que precisamos de um sonho. Há na nossa geração déficit de sonho, de capacidade de sonhar, e precisamos juntos de forma polifónica, universal, construir a visão de um mundo mais justo, mais fraterno, onde uma amizade social e vontade de entrar em diálogo seja uma realidade». Há dois mil anos Deus veio partilhar connosco o seu sonho: com o seu Filho enviado ao mundo, construir connosco uma verdadeira fraternidade entre todos os povos e todas as pessoas e edificarmos a civilização do amor para todos, com vida em abundância para todos, o que Jesus chamou o Reino de Deus. Caberá este Reino nos novos tempos que queremos construir? Será que Deus cabe nos nossos prioritários sacrossantos macroprojectos que já andamos a elaborar? Ou vamos remetê-lo, mais uma vez, para uma incógnita hospedaria, reduzindo-o à irrelevância, até arrastarmos a humanidade para outro tempo sem sentido e sem futuro?  

Vamos ter um Natal diferente, é verdade. Que todos os cristãos e todas as famílias se deixem envolver pelo amor sempre novo de Deus e pela verdadeira luz que nos aponta caminhos para uma nova época.

As alterações climáticas e o meio ambiente estão finalmente na ordem do dia e vão marcar a discussão e a agenda mediática nos próximos anos. Já assim devia ter sido há muito tempo, quando surgiram alertas de muitos estudiosos e especialistas na matéria e de muitas instituições e associações preocupadas com o futuro do planeta. Até os Papas da Igreja, nos últimos anos, foram lançando alguns avisos sobre as agressões à natureza e apelando a maior consciência e responsabilidade no cuidado da criação e da terra, casa comum de todos os seres humanos.

Muitos acharam exagerada e até adiável esta advertência moral e longínquos os cenários catastróficos. Agora que vemos as águas das diabólicas intempéries a invadirem as nossas casas, a arrasarem tudo com gigantescos rios de lama e os nossos telhados a voarem como aviões de papel, percebemos finalmente que temos de aplicar mudanças e urgentes corretivos, e mudar atitudes e comportamentos, sob pena de caminharmos para o precipício e arrastarmos a humanidade para um abismo. É bom ver o envolvimento dos jovens, a agarrarem uma causa, que muito lhes diz respeito, e ainda bem que eles começam a entender que a vida não é só diversão, futebol, fazer noitadas em festivais de verão, passar só o tempo em vídeos jogos ou colados às redes sociais, derreter baterias de telemóveis a jogar uma infinidade de jogos, alimentar sonhos de viagens para países exóticos. Têm um mundo para assumir e construir e está na hora de lutar pelas boas causas da vida e do mundo. Espero que esta preocupação pelo ambiente não seja só fogo de vista e um entusiasmo passageiro, o alinhar com a moda e o pensamento dominante e se tornem mais conscienciosos e comprometidos para a vida.

Uma ingénua certeza ou convicção, ou muitos considerarão uma irresponsabilidade imperdoável, nos trouxe até aqui: pensarmos que os recursos da terra são inesgotáveis e que o planeta tem antídotos e resistência para suster todas as agressões que lhe são feitas. Não é verdade. E os sinais já são visíveis há muito tempo. Teremos de repensar o nosso estilo de vida, que é materialista e consumista, as fontes das nossas economias, o discurso político, que só sabe falar de crescimento, e as políticas desse mesmo crescimento, que terão de ser, obrigatoriamente, mais amigas do ambiente. E estaremos mesmo dispostos a mudar? Vamos trocar o nosso bem-estar e o nosso nível de vida num estalar de dedos? A ver vamos.

Não é preciso é seguir o caminho da acusação fácil e do radicalismo, como se em meia dúzia de dias se recupere o que andámos a fazer erradamente durante décadas. Não é possível. As mudanças que é preciso pôr em prática devem ser implementadas com gradualidade e ponderação, não se comprometendo o presente e não se gerando grande perturbação social, apesar de sabermos que há mudanças que vão exigir grandes sacrifícios. A decisão do Senhor Reitor da Universidade de Coimbra, de decretar o fim da carne de vaca nas ementas das cantinas da Universidade, é do tipo de decisões radicais que, de momento, não são bem-vindas. Porque é complexo e gera perturbação social. Em que é que se baseou o Senhor Reitor para tomar esta decisão? Não faltam estudos que mostram a importância do gado bovino na preservação de ecossistemas, no combate à desertificação, na obtenção de estrume para a agricultura biológica, e é uma legítima fonte de rendimento para muitos agricultores. Agora temos os tratores e quando não tínhamos os tratores como é que lavrávamos as terras? Só falta agora acabar com o gado e os tratores, que também poluem, e quero ver como é que há agricultura para toda a população mundial. A palavra de ordem mais correta seria e será reduzir e gerir de forma mais equilibrada a sua criação e não cortar radicalmente com a criação de gado e com a sua carne na alimentação humana, onde desempenha ainda um papel importante. Para além desta, outras precipitações andam por aí, cabendo-nos refletir melhor e não embarcar acriticamente em modas e convenções.  

O que cada um poderá fazer melhor, neste momento, é fazer um exame de consciência sobre a forma como trata os bens do mundo e como se relaciona com o ambiente e a natureza. Abusamos de muitos recursos da terra, destruímos e desperdiçamos estupidamente muita coisa. Todos conhecemos valetas cheias de lixo, estaleiros ao ar livre que servem de lixeiras, buracos a céu aberto para onde se deitam animais mortos, tornando o espaço irrespirável, rios poluídos, paisagens devastadas, onde vemos a natureza a sagrar pelos golpes que o dito ser humano inteligente e bem educado, que tem a missão de ser bom administrador e cuidador da criação, lhe inflige.

Estou espantado pela forma acrítica e leviana como estamos a importar e a assimilar costumes e tradições alheias à nossa cultura e ao nosso património humano, social, religioso e espiritual, de duvidoso interesse e valor, e pela forma como estamos a ceder à lassidão e ao desinteresse ou quase total indiferença face aos valores e à cultura em que sempre fomos educados e formados, que sempre considerámos a mais correta, a mais valiosa e digna para o bem e a realização das pessoas.

Com os meios de comunicação social, os inúmeros instrumentos tecnológicos que temos à mão e pela fácil e rápida mobilidade das pessoas, ganhou força o fenómeno da globalização. Os usos e costumes, as tradições e práticas, as culturas e hábitos de todos os povos passaram a ser conhecidos e partilhados por todos. Mas como seria de esperar, os povos mais poderosos e ricos mais facilmente se iriam impor aos povos mais pobres e menos poderosos. A globalização tem sido sabiamente conduzida por grandes grupos de interesses e por centros de poder que querem estender os seus tentáculos por todos os cantos do mundo. Uma série de ideias, de causas, de produtos, de modas e de manifestações culturais passaram a ser veiculadas com engenhosa comunicação e hábil manipulação, ganhando atenção e espaço em muitas sociedades humanas, a nível mundial.

Portugal não foge à regra. Anda por aí agora este fascínio, segundo dizem, pelo oculto, pelo místico, que, na verdade, de oculto e de místico não tem nada, não vejo que experiência misteriosa as pessoas fazem a não ser divertirem-se, mas divertimento não é misticismo, com grande influência americana, como é a sexta-feira treze e o Halloween, este com grande expressividade nas terras do tio Sam, processo liderado por algumas multinacionais e indústrias do «mistério», que argutamente vão conquistando cada vez mais adeptos para estas importadas atividades culturais. No nosso povo sempre persistiu alguma crença difusa por poderes estranhos e figuras bizarras e algum encantamento pelo desconhecido, mas nunca ao ponto de se poder dizer que é uma marca clara da nossa cultura. Dizer o contrário é uma falácia. Sempre foi uma questão lateral e menor da nossa cultura portuguesa, da cultura do nosso povo, agora estranhamente ou habilmente promovida a grande tema da cultura popular.  

Como me custa ver dar tanto interesse a um tema menor da vida e não se dar o devido interesse às coisas importantes da vida, como é ainda a nossa cultura e a nossa formação cristã. Se se pede a muitos cristãos e a muitos pais cristãos que organizem alguma coisa na Igreja para enriquecerem e aprofundarem a fé dos filhos, é notório o alheamento, o desinteresse, a desistência, o forçamento, a indolência. No entanto, quando se trata de participar e organizar estas americanizações que nos andam a impingir, há um entusiasmo, um interesse e uma desenvoltura que nem um gato tem. Quando se pede a muitos, que ainda se dizem cristãos, que apostem mais na sua formação e na descoberta da beleza da sua fé, reina a procrastinação e a apatia. No entanto, quando se trata de saber historietas e lendas de figuras imaginárias, há um forte empenho e uma supina dedicação.

Não sou contra o divertimento das pessoas e, diante do avançado e avassalador processo de globalização a que estamos a assistir, seria ingénuo pensar que estas coisas mais tarde ou mais cedo não passariam por aqui, o que eu não acho bem é que nós não tenhamos o mesmo empenho e determinação para as coisas mais importantes do que estas, como é a formação e a vivência da fé, o compromisso com a Igreja, a formação cristã e a vida cristã dos jovens e das crianças, a educação humana e moral, a curiosidade e o apreço pela nossa cultura cristã. A troco disto, andamos para aí atrás de fantochadas galhofeiras e pagãs, que divertem, mas não trazem nada de belo, de sábio, de profundo e consistente à vida.

Quem anda por algumas zonas de Barroso ainda se confronta com alguns estaleiros, ruínas, algumas crateras e buracos que ficaram da extração de minério de outros tempos, como o volfrâmio, entre outros. Não se teve o cuidado de acautelar a beleza do espaço e da paisagem e perigos futuros, deixando-se tudo atabalhoado, desfigurado, atestado da incúria e da incompetência do Estado português, que não soube, e não sei se já sabe, zelar devidamente pelo seu território, pelos seus recursos naturais e pelo património natural. Há zonas que os caçadores, e até os pastores, evitam, porque se sabe da existência de buracos sem fundo, fatais para a queda de um caçador ou de um animal. Quem explora devia ter a estrita obrigação, com a devida fiscalização das autoridades responsáveis, de deixar o espaço sem armadilhas, bem cuidado, minimamente vistoso para o olhar humano, se ainda é possível. O que importava era fazer dinheiro fácil, com um povo que assistia impávido e sereno, sem a sensibilidade e as preocupações ambientais que hoje, felizmente, já tem.

O povo de Barroso tem tido uma história marcada com algum infortúnio. Já não bastando viver numa terra fria e pouco fértil, comparada com outras, há umas décadas atrás viu um bom número de terras serem engolidas pelas águas puras das barragens, a troco de uma bagatela, levando ao êxodo de algumas famílias e de algumas pessoas, e não se esquecendo os encargos climatéricos que as barragens oferecem para sempre. Também se ganhou alguma beleza pelos grandes lagos de água, mas a custo de muitos prejuízos. Agora toma a dianteira a saga da extração do lítio, mineral importantíssimo para a transição energética que as sociedades contemporâneas estão a promover, suscitando, por isso, o interesse de muitas empresas, por, neste momento, ser um mineral valioso e muito rentável. E, pelos vistos, as reservas de lítio em Barroso são muito boas. Estão identificadas três grandes jazidas: Sepeda, em Carvalhais, Cepeda de Sarraquinhos e Covas do Barroso, no Concelho de Boticas.

O que mais me impressionou neste processo todo, que agora está no centro de um necessário e obrigatório debate público, foi a forma como tudo se fez até agora, sobretudo por parte do governo. É de ficar pasmado com a indiferença com que a região de Barroso é tratada. Autorizaram-se prospeções e assinaram-se contratos com empresas sem se ter feito qualquer esclarecimento à população e sem se apresentar estudos sobre o impacto ambiental, sabendo-se perfeitamente que a extração do lítio não é limpa, tem grandes custos ambientais, e tem efeitos perniciosos para a paisagem e o bem-estar das populações. Para Lisboa só importa que se assegurem empregos nos grandes centros e que o dinheiro das cauções entre nos cofres do governo, e pergunto quanto dinheiro dessas cauções chegará a Barroso, para desenvolvimento da região. Estamos mesmo a adivinhar. Já não espantam estas desconsiderações de lisboa.

Alguns dirão que temos uma enorme riqueza debaixo de terra e que é pecaminoso não a extrair, podendo ser aplicada no crescimento dos Concelhos interiores e sendo de grande utilidade para o mundo atual nas próximas décadas. E que se o lítio não for extraído em Barroso, será extraído noutras regiões do mundo, não nos preocupando com o bem-estar dessas regiões também. Queremos ter telemóveis, computadores e carros elétricos, mas não queremos contribuir para a sua fabricação. Isto vai-se ouvindo, mas a questão é como tudo tem sido realizado. Não se convocou o povo ou as entidades que o representam para se avaliar os benefícios e os malefícios da exploração e ter uma palavra a dizer, porque tem, não se apresentaram a tempo e horas formas de exploração apropriadas e sustentáveis de forma a minorar os efeitos devastadores da extração, com a devida informação às pessoas, não se apresentou um estudo do impacto ambiental digno desse nome, não se apresentaram contrapartidas e garantias para se oferecerem algumas beneficiações para as populações e as regiões, acenando-se apenas com a parca criação de alguns empregos. Muito pouco.

Em boa hora a população sentiu um sobressalto e com maturidade democrática e cívica reagiu, solicitando informação e uma séria discussão, que, primeiro que tudo, lhes deveria ter sido prestada, e manifestando que se os seus interesses e o seu bem-estar não estiverem acautelados, irá combater o avanço dos investimentos e o esventrar das suas terras e dos seus montes.  

Temos de ser mais transparentes sobre o que queremos para Barroso: por um lado, exultámos porque foi declarada património agrícola mundial pela FAO, trazendo-nos a valorização da região e seu património, dos nossos produtos, turismo, uma alavanca para o desenvolvimento económico, social e cultural das nossas terras. Depois permitimos investimentos que podem destruir a nossa riqueza paisagística, a qualidade das nossas terras, das nossas águas e dos nossos produtos, e pôr em causa a permanência e o bem-estar das pessoas que mais respeitam e amam a região. Há que refletir muito bem sobre o que queremos.

É verdade que em muitos períodos da história os brancos subjugaram e inferiorizaram os negros, nunca lhes reconhecendo os mesmos direitos e a mesma dignidade, obrigando-os a viver em situação de escravatura para as lides domésticas e os trabalhos mais duros na agricultura e construção civil, entre outras atividades e serviços. É verdade que muito branco se habituou a olhar com desdém para o negro e adotou continuamente atitudes de aversão, discriminação e menorização do negro, atitudes que se entranharam na cultura ocidental. O branco, por norma mais rico e desenvolvido, achou-se sempre superior e no direito de ser patrão e dono dos outros, sobretudo dos negros. Todos sabemos disto e não o podemos deixar de relatar na história. Pode-nos entristecer profundamente, mas a história é a história, já não se pode mudar. Podemos e devemos é aprender com ela. E repito o que alguém dizia por estes dias, que a história quer ensinar, mas não tem alunos. E é uma tragédia que assim seja. Por outro lado, não se deixe também de mencionar que nem tudo foi tenebroso na relação entre brancos e negros e que há brancos que também fazem parte da história da escravatura.

Não faz sentido e não alinho agora nesta onda de se andar a julgar a história segundo os critérios, os valores e os padrões éticos e sociais da sociedade atual e muito menos só na perspetiva redutora do racismo. Esperando-se que esteja bem escrita e bem contada, a história é a história. Está feita, segundo cada mentalidade, cada tempo e cada contexto, com homens e mulheres com virtudes e defeitos, com grandeza e devassidão, com heroicidade e covardia, com luzes e sombras. Cada homem e cada mulher agiu segundo as suas circunstâncias e dentro de conjunturas muito díspares das nossas, procurando dar o seu melhor pelo progresso humano, económico e social do mundo até chegarmos aos níveis em que hoje nos encontramos. É um lamentável ato de estupidez querermos hoje que há muitos séculos atrás já tivessem o nosso desenvolvimento humano e ético e julgar as grandes figuras da nossa caminhada histórica por aquilo que hoje consideramos inaceitável, desprestigiando e deitando ao esquecimento os grandiosos contributos que essas figuras deram à nossa admirável saga coletiva e ao mundo.

Mas urge perguntar: quem nos constituiu juízes da história? Que autoridade legítima e excelsa terá a atual geração para decepar e insultar as estátuas das grandes figuras da nossa história e da nossa memória coletiva? Não estaremos a cair num lastimável ato de soberba humana e geracional ao nos consideramos os donos da verdade e os detentores dos valores mais puros e sublimes, com o duvidoso direito de maltratar e arrasar a história daqueles que edificaram o mundo em que vivemos? E se a Igreja agora se lembrasse de julgar a história pelo prisma do anticlericalismo e pedisse a retirada das estátuas dos anticlericais ou das placas de nomes de ruas de personagens históricos que perseguiram a Igreja? Só é legitimo que a luta antirracista o faça? Se por acaso alguma figura histórica não gera consenso, abra-se um debate social alargado, mas não assim, só se olhando a história pelo seu lado negativo e sombrio, injuriando-se levianamente e fazendo-se pouco dos antepassados e da sua ação e intervenção positiva e progressista na história do país e da humanidade.

O racismo resulta de preconceitos estultos, que não têm qualquer justificação, e sobretudo de uma profunda falta de educação e de formação humana nas pessoas. Se o queremos combater, temos de investir na educação dentro da família, na escola e na sociedade, promover a convivência e o encontro de povos e culturas, e não com violência ou insultando a nossa história e as suas grandes figuras. Curar as feridas do passado e promover a igualdade e o respeito por todo o ser humano, por cada povo e por cada cultura é o caminho certo a seguir.

Só Deus sabe com que dor e inquietação a Igreja tomou a decisão de suspender as celebrações comunitárias, nomeadamente a Eucaristia dominical e outros eventos de grande amplitude eclesial, mas fez muito bem, sendo até um grande testemunho que a Igreja deu e está a dar, em conformidade com os valores e princípios do Evangelho. D. António Marto lembrou que a decisão se impôs “por exigência de saúde pública para salvar pessoas da doença e da morte por causa do contágio nos grupos de pessoas”, e que “o vírus não permanece fora das portas das igrejas. A confiança em Deus, a oração e a comunhão eucarística são uma realidade muito diferente do tentar a Deus e desafiá-Lo com a pretensão de milagres”. A decisão é histórica e inédita, sem dúvida, como inédita está a ser a história da humanidade. Não seria um bom exemplo a Igreja estar a contribuir para a degradação da saúde das pessoas e para um demolidor agravamento da saúde pública. Passaria a imagem de uma grosseira irresponsabilidade e incoerência, quando o respeito pela vida e o bem das pessoas estão no centro da doutrina católica e do discurso da Igreja, permitindo celebrações em profunda contradição com os valores e os princípios mais sagrados que prega e defende e colaborando na proliferação da pandemia.

Perguntarão alguns conservadores ou até, perdoem-me a expressão, alguns fundamentalistas: mas esta decisão não é tornar a Missa irrelevante e atentar contra a fé? Não. Muito pelo contrário. Ter fé não significa deixar de ser inteligente, de ser responsável e ter prudência neste mundo marcado pela fragilidade e a contingência. Viver como cristão não é ser anjo fora do mundo, mas é continuar a viver num mundo frágil e passageiro, percebendo e gerindo os limites e perigos da nossa condição humana. É importante celebrar a Eucaristia todos os Domingos e todos os dias, mas não é menos importante a vida das pessoas. Não se compreenderia celebrar a Vida que nos é dada por Jesus contra a vida das pessoas. Jesus disse-o muito bem, quer a vida em abundância e não o cumprimento formal de ritos. E neste caso contribuir para a vida em abundância das pessoas é livrá-las do contágio de um vírus que lhes pode tirar a vida. E argumentar que a celebração comunitária da missa serviria para nos ajudar a vencer a guerra contra o vírus não pode ter qualquer sustentação. A missa não é uma poção mágica contra os males do mundo e a comunhão eucarística, permitam-me também a triste comparação, não é um comprimido ou um remédio que nos torna imunes aos contágios perigosos do mundo. A Eucaristia salva-nos, sem dúvida, mas não nos liberta dos perigos da contingência em que ainda vivemos neste mundo. A Missa não é um seguro contra todos os riscos ou um salvo-conduto para agirmos com insensatez e negligência, sem preocupação pelos riscos da nossa condição humana, que nos acompanharão sempre pela vida fora. A fé sensata e prudente prevaleceu sobre a fé sacralista e formalista.

Mas reparemos bem: o facto de as celebrações comunitárias estarem suspensas e de os tradicionais e privilegiados canais de encontro com Deus, de vivência e sustento da fé estarem inacessíveis e interrompidos, como são os sacramentos e a comunidade, contudo, a fé, enquanto permanente adesão e busca de Deus, não está nem pode estar suspensa. Se ainda não viram o filme Silêncio de Martin Scorsese, recomendo que o façam. O filme retrata as vicissitudes do Cristianismo no Japão, onde foi proibido e brutalmente perseguido durante mais de dois séculos, depois da chegada dos primeiros missionários jesuítas. Os cristãos tiveram de se esconder. Seria fácil concluir que esses dois séculos erradicariam o Cristianismo no Japão, mas isso não aconteceu. Quando a vivência da fé cristã foi de novo autorizada, as comunidades cristãs estavam mais vivas do que nunca. Como é que sobreviveram, se não podiam ter igrejas e celebrar a Eucaristia oficialmente? Como conseguiram viver a fé e ser Igreja?

É um bom exemplo para nós agora, que nos vemos privados dos mesmos meios. Até nos fará bem questionar comodismos e rotinas domingueiras e há que olhar para esta nova realidade sem dramatismos e abandonar o exercício do lamento. Há dias, o escritor Líbano-francês, Amin Maalouf, afirmava que "o que está a acontecer é aterrador, mas também é fascinante”. Fascinante porque é tempo para a criação, a invenção e a renovação. Pela parte que nos toca, a Igreja e cada cristão têm em mãos um desafio fascinante: inventarmos e construirmos novas formas de nos relacionarmos com Deus, de estarmos com Deus, que não está só dentro da Igreja, de testemunharmos a fé, de estarmos uns com os outros, de nos relacionarmos com o mundo e criarmos fraternidade e comunhão, de a Igreja estar presente e fazer passar a sua mensagem, de ser próxima e solícita. Uma ferramenta única para o fazermos é este admirável mundo novo da internet e das redes sociais, os areópagos e as ágoras dos tempos modernos, onde podemos manter viva a fé dos cristãos e estar com muitas pessoas, evangelizar, escutar, aconselhar, debater, acompanhar e até celebrar, como o estamos a fazer agora e bem. Tem as suas exigências, temos de cuidar da forma e do conteúdo, mas é um instrumento espantoso para comunicar e despoletar dinamismos sociais e eclesiais e manter a proximidade. O Cardeal D. José Tolentino Mendonça escreveu, há dias, num artigo do Expresso: “Podemos reaprender a utilizar as redes sociais não só como forma de divertimento e de evasão, mas como canais de presença, de solicitude e de escuta. Sem nos tocarmos, podemos reaprender o valor da saudação, o estímulo de um cumprimento, a incrível força que recebemos de um sorriso ou de um olhar. Sem que os nossos braços se estendam na direção uns dos outros podemo-nos abraçar afetuosamente, como já o fazíamos ou de um modo mais intenso ainda, transmitindo nesses abraços reinventados o encorajamento, a hospitalidade, a certeza de que ninguém será deixado só. Sem nos conhecermos podemos finalmente reaprender a não votar ninguém à indiferença ou a não tratar os nossos semelhantes como desconhecidos”.

Uma esperança e dois pequenos êxitos saltam já à vista: a esperança é a de que nos poderemos reencontrar com uma multidão que abandonou a fé e as igrejas e se autointitulou como ateia e agnóstica orgulhosamente convencida das infindáveis e omnipotentes capacidades do progresso e da ciência e que agora se sente inquieta, frágil e só; um primeiro êxito é o encontro com o tesouro da Palavra de Deus, onde a Igreja pode fazer um bom trabalho no mundo digital, fazendo crescer os cristãos que só pensam na liturgia e se preocupam pouco com uma vida espiritual de qualidade e com a sua forma de ser e de estar na vida e no mundo; o segundo êxito é a valorização de uma estrutura que nos é cara e que agora está a ser a mais bela presença e representação da Igreja, que é a família. Nos últimos anos, a Igreja também enveredou pelo caminho dos grandes eventos, que, talvez, tenha de ser repensado: jornadas nacionais e internacionais, dias para tudo e mais alguma coisa, encontros atrás de encontros. Multidões. Ficou na penumbra a vivência e o testemunho da fé no quotidiano e o dinamismo da vida familiar, fundamental para o crescimento da fé e para a edificação da Igreja. Esta é uma família de famílias, uma comunidade de comunidades. Temos agora o tempo oportuno para dar o devido espaço e protagonismo à família, de aprofundarmos a sua identidade de verdadeira igreja doméstica e de a reintegrarmos coerentemente na pastoral da Igreja, ajudando-a de facto a ser uma verdadeira comunidade de vida e de amor, de vivência da fé, de oração, de leitura e escuta da Palavra de Deus, de experiência e interiorização dos valores cristãos. Alguns setores da Igreja até já perguntam como poderemos transportar a sacramentalidade da Eucaristia para dentro da família. É bom assistir à Eucaristia pela internet ou pela televisão, mas poderíamos pensar como é que podemos dar o salto do mero espetador para o participante. Que outra competência se poderá dar à família neste campo?

E já que de sacramentos estamos a falar, deixo outra provocação, que já anda aí nos ambientes eclesiais: poderá o sacramento da confissão ser celebrado por videoconferência ou por telefone? A Igreja ainda não o permite. Mas se é verdade que as pandemias vieram para ficar e vamos ter de passar períodos isolados uns dos outros, não é despiciendo refletir na razoabilidade e eficácia destes meios, sem desbaratar a recomendável normalidade da vida e da vivência da fé.  

Já vimos filmes sobre hipotéticas epidemias avassaladoras para a humanidade, embora inspiradas nalguns surtos históricos que fazem parte da nossa história. No fim das películas cinematográficas ficou-nos sempre a sensação que a fantasia humana é sempre exagerada e que experimentar o furacão de uma epidemia seria uma hipótese muito remota. O que é verdade é que nos últimos dias, com uma celeridade surpreendente, vimo-nos transportados para dentro de uma obra holiodesca, mas com a agravante de estar a acontecer na realidade. Ainda estamos a tentar perceber como é que tudo mudou tão rapidamente, antevendo idênticos períodos futuros.

Informada pelas autoridades de que o contacto social seria o grande veículo da propagação do vírus, a Igreja tomou velozmente a dolorosa decisão de suspender as celebrações comunitárias, nomeadamente a Missa com o povo, pedindo aos padres para celebrarem de forma privada. Num primeiro momento, imperou a surpresa. Nunca tal decisão foi tomada na história da Igreja e poderia parecer um grave atentado à vivência da fé, nesta fase tenebrosa da humanidade. Mas também rápido se percebeu que a Igreja estava a ir pelo caminho certo, apesar de uma minoria ter achado a decisão muito duvidosa, para não dizer escandalosa. Mas até os constituintes desta fação já estarão convencidos da justeza da determinação da Igreja. Mais do que um atentado à fé, pelo contrário, a Igreja deu um bom testemunho da sua fé, que tem de ser sempre responsável, prudente e sensata. Sendo as missas encontros comunitários, não seria bom exemplo a Igreja estar a contribuir para a degradação da saúde das pessoas e para um demolidor agravamento da saúde pública. Passaria a imagem de uma grosseira irresponsabilidade, quando o respeito pela vida e o bem das pessoas estão no centro da doutrina católica e do discurso da Igreja. Seria um contrassenso intransponível celebrar a vida de Deus contra a vida das pessoas, permitir celebrações em profunda contradição com os valores e os princípios mais sagrados da Igreja.  

Não se pode dar deferimento ao argumento de que a celebração da missa com a participação das pessoas seria um grande auxílio e um remédio para se vencer a pandemia, dando-se quase uma natureza mágica à Missa. A Eucaristia salva-nos, sem dúvida, mas não nos liberta dos perigos da contingência em que ainda vivemos neste mundo. A Missa não é um seguro contra todos os riscos ou um salvo-conduto para agirmos com insensatez e negligência, sem preocupação pelos riscos da nossa condição humana, que nos acompanharão sempre pela vida fora. Em nome do bem maior da vida e da saúde das pessoas, abdicou-se bem da celebração comunitária. Nunca aconteceu na história da Igreja. Pois não. Mas se calhar já devia ter acontecido. A nossa fé e a nossa criatividade não deixarão de ter inspiração para inventar novas formas de nos relacionarmos com Deus e de estarmos uns com os outros.

Agora que esta pandemia nos está a atingir em força, apostei comigo mesmo que não demoraria muito a aparecerem os tribunos justiceiros a proclamarem que esta desgraça é um justo castigo de Deus e que os tempos apocalíticos estão a chegar. Alguns até jurarão que é mais do que merecido o que nos está a acontecer. Pensemos o que quisermos, mas não metamos Deus nas nossas levianas suposições humanas. É uma triste transgressão do segundo mandamento da lei de Deus, que nos pede para não invocar Deus em vão e atribuir a origem de uma pandemia ao Deus de Jesus Cristo é uma gravíssima invocação de Deus em vão. Na Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento, vemos a rápida retribuição de Deus, castigador para o pecado e pródigo e benévolo para quem lhe é justo. Mas Jesus Cristo superou irremediavelmente esta visão de Deus, mostrando-nos e ensinando-nos que Deus é amor e não é senão amor, querendo sempre a vida em abundância e o bem do ser humano. «Deus enviou o seu Filho ao mundo para salvar e não para condenar». Neste momento, mais do que ninguém, Deus está a sofrer com a humanidade e está ao lado do seu povo sofredor a preparar um caminho de salvação. Prestamos-lhe um mau serviço e uma imerecida e gravosa traição se lhe atribuímos a autoria desta tragédia humanitária, que outra origem não tem do que as leis da natureza e a incúria humana.

A Exortação «A Alegria do Amor» era aguardada com grande expectativa, depois da confrontação que se criou na discussão sinodal entre os habitualmente apelidados de conservadores, defensores férreos da indissolubilidade do Matrimónio e da tradicional configuração familiar, e os progressistas, que sem deixarem de apelar para o valor sagrado da união matrimonial, defendem a necessidade de se dar resposta aos matrimónios fracassados e de se propor para os esposos um caminho de integração plena na vida eclesial, com mais abertura e misericórdia e menos rigidez canónica. O Papa não disfarçou que estava deste lado. Em que ficámos, então?

A verdade é que, doutrinalmente, continua tudo na mesma. Não saiu nenhum decreto ou uma nova regra clara que permita o acesso dos divorciados recasados à comunhão na Eucaristia. Para todos os efeitos, continuam em situação de pecado e por isso não se devem aproximar da comunhão. Mas, pastoralmente, não ficou tudo na mesma. Nesta exortação, o Papa Francisco aconselha menos inflexibilidade normativa e jurídica (mais importantes do que as regras e as leis são as pessoas) e mais misericórdia e ponderação e espaço para a consciência das pessoas (as normas são para iluminar e esclarecer a consciência, mas não para a substituir), porque «é importante fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja, que «não estão excomungadas» nem são tratadas como tais, porque sempre integram a comunhão eclesial». Há que ver caso a caso, porque «há casos em que a separação é inevitável. Por vezes, pode tornar-se até moralmente necessária, quando se trata de defender o cônjuge mais frágil, ou os filhos pequenos, das feridas mais graves causadas pela prepotência e a violência, pela humilhação e a exploração, pela alienação e a indiferença». E além do mais, «ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho!». O Papa deixa assim a porta aberta para o acesso à comunhão de divorciados recasados, que vivam uma segunda relação fiel e estável e que manifestem interesse pela fé cristã e empenho eclesial. O Papa não tem dúvidas de que «é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspetos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela.»

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