Sexta-feira, 25 de Abril de 2014

Aqui há uns tempos, o Papa Francisco reuniu-se em Roma com centenas de representantes de uma organização que apoia vítimas de redes mafiosas e seus familiares, pedindo que a justiça "tome o lugar da iniquidade" e os criminosos se convertam. A máfia é uma das organizações criminosas mais temíveis e mortíferas do mundo, mestra na manipulação, na chantagem, no medo e no terror e em atormentar a vida de inocentes que escraviza para os seus intentos e interesses, arrastando atrás de si um grande número de vítimas, inclusive crianças.

No final da vigília de oração, com um semblante carregado, como um pai que se entrega ao embate decisivo para recuperar um filho extraviado, o Papa lançou um desafio sentido e compassivo aos facínoras empedernidos: «Não posso terminar sem dizer uma palavra aos grandes ausentes hoje, aos protagonistas ausentes, os homens e mulheres mafiosos: por favor, mudem de vida, convertam-se, parem de fazer o mal. Convertam-se, peço-o de joelhos: é para o vosso bem. Esta vida que vivem não dará prazer, alegria, felicidade. O poder, o dinheiro que têm, de tantos negócios sujos, de tantos crimes mafiosos, é dinheiro de sangue, é poder ensanguentado que não podem levar para a outra vida. Convertam-se, ainda há tempo para não acabarem no inferno, que é o que está à espera se continuarem neste caminho».

Para quem até agora se apresentou como um Papa simpático, sorridente, bem-humorado, simples, de trato fácil, acolhedor, alegre, próximo e humano, talvez não esperaríamos que nos lembrasse de que podemos ir parar ao inferno, devido à má orientação que dermos à vida, em oposição ao amor de Deus e aos seus valores. Por má interpretação das palavras do Papa numa intervenção sua, correram boatos pela internet de que o Papa afirmou que «não existe inferno» ou que «no inferno não existe nenhum fogo». Possivelmente, para eliminar confusões e acossado por algum conservadorismo católico, o Papa sentiu a necessidade de reafirmar, na primeira oportunidade, um dos ensinamentos que, não há muito tempo, tinha alguma relevância na catequese e na pregação da Igreja. O inferno existe, ponto final.

O que é que queremos dizer quando falamos de inferno? Em primeiro lugar, há que referir que o inferno ganhou uma pertinência, em tempos, no ensino, na literatura e na religiosidade popular da Igreja que não se justifica, promovendo uma certa «pastoral do medo» e não do amor. O magistério e os teólogos da Igreja, habitualmente, mencionam o tema com moderação e prudência. O Concílio Vaticano II esteve para não abordar o tema, mas, devido à persistência de alguns intervenientes, dedicou-lhe uma pequena referência. O cristianismo é a religião do amor e da salvação, é a boa nova da libertação, é graça, esperança, alegria e paz para toda a pessoa humana. A mensagem fundamental do Cristianismo é que Deus, em Jesus Cristo, é um Deus que estende a mão ao ser humano para o amar e o salvar. E Deus quer sempre amar e salvar o homem e nunca condenar. Criou o homem por amor e para o amor, oferecendo a plenitude da sua vida e do seu amor a toda a pessoa humana. Não há outra mensagem no Cristianismo.

Em segundo lugar, para se entender bem o inferno é preciso situá-lo num contexto de salvação e de risco da liberdade humana. Não se pode falar de céu e de inferno ao mesmo nível, como se fossem dois destinos opostos que Deus tenha criado para o ser humano. Deus compromete-se com o céu, mas não com o inferno, que não faz parte da nossa esperança. Deus oferece-nos a salvação (viver em comunhão com Ele) e apresenta-nos o caminho da vida, mas não impõe isso ao homem. Respeita a sua liberdade. O homem pode aceitar ou rejeitar. A partir do momento em que o homem resiste, na sua liberdade, à proposta de vida de Deus, o próprio homem escolhe o inferno e cria o inferno para si mesmo. Reparemos: Deus não criou nem quer o inferno para ninguém, Deus quer sempre salvar, mas se o homem, com grande risco para o seu destino final, escolhe outro caminho, Deus deixa seguir esse caminho, com todas as suas consequências, culminando num possível «inferno», separação eterna de Deus e dos salvos em Cristo. O ensinamento sobre o inferno é para nos lembrar a grandeza da nossa liberdade e da nossa responsabilidade e o risco do mau uso da nossa liberdade. Na vida não vale tudo. Conforme as escolhas que fizermos livremente, assim vamos ter as consequências, que poderão ser desastrosas, por culpa e responsabilidade nossa.

E o que pode ser o inferno, ou seja, o que experimentaremos no inferno? Entramos num capítulo que serviu, durante muito tempo, à imaginação de miríades de fantasistas e de doutos especuladores. Honestamente, quanta asneirinha se ouviu e disse! A visão tradicional do inferno diz-nos que é um lugar, criado por Deus, onde existe um fogo eterno abrasador e devorador, para que aqueles que morrem em pecado mortal sejam torturados. Como foi possível ensinar assim um inferno e ainda por cima ensinar que foi criado por Deus? Então se nós combatemos e condenamos os campos de concentração que criamos uns para os outros, como podemos aceitar que Deus crie um enorme campo de concentração eterno para apaziguar a sua ira e massacrar aqueles que criou por amor? Que Deus é este, afinal, em que nós acreditamos? Sejamos perentórios: este inferno não existe. Pergunto-me até se não andámos a invocar o santo nome de Deus em vão, porque esta visão do inferno não tem nada a ver com a revelação de Deus em Jesus Cristo e roça quase o ridículo. Mas então Jesus não falou da Geena? Temos que saber contextualizar as palavras de Jesus. A exegese moderna é consensual em afirmar que Jesus falou na geena (em latim, inferno). Esta era um vale a sudoeste de Jerusalém, que servia de vazadouro do lixo da cidade. A Geena era a lixeira de Jerusalém, que estava em fogo permanente. Nas batalhas contra os inimigos, iam também para lá os cadáveres dos inimigos, alguns não completamente mortos (daí o choro e ranger de dentes), outros em podridão com vermes. Para lá também iam animais mortos e meio mortos, de forma que se ouviam gemidos e uma pestilência insuportável dominava o espaço. Quem a observasse, não poderia deixar de ver um cenário macabro e tenebroso. Os pregadores vigorosos do tempo de Jesus, para despertarem as consciências das pessoas, indicavam-na como o destino de todos aqueles que fossem infiéis a Deus e que pactuassem com o mal na sua vida. Jesus Cristo, imbuído da cultura judaica, usou-a também algumas vezes nos seus discursos, não para nos fornecer informações sobre o além, mas para nos chamar a atenção de que não podemos ficar indiferentes à oferta da salvação que Deus nos faz e à convocação para o Reino de Deus. O mau uso da nossa liberdade poderá levar-nos para um destino nefasto, a eterna separação de Deus e dos outros por causa de uma vida fracassada.

Resumindo: depois da nossa vida terrena, que não é senão o seu ponto culminante, são dois os destinos que a Igreja nos ensina que serão certos: o céu, a plena comunhão e felicidade com Deus; o purgatório, momento curto para aqueles que já estão salvos, mas ainda precisam de purificação. Há um terceiro destino, que a Igreja não dá como certo, mas que pode ser uma «possibilidade» para aqueles que se fecharam a Deus e aos outros ao longo da vida, que é o inferno, morte total, separação de Deus e dos outros, mergulhados na dor imensa de uma vida completamente desperdiçada e inútil. Então, senhor padre, porque é que dizemos no terço para Jesus nos livrar do fogo do inferno? Acho que já percebemos. O fogo é símbolo do tormento interior do homem que se perdeu pelo pecado.


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