Segunda-feira, 26 de Setembro de 2016

Quando começa a chegar o Verão, muitas pessoas começam a calcorrear os caminhos que vão dar aos parques florestais, às pistas pedonais ou aos caminhos e veredas ervosas das redondezas das aldeias, vilas e cidades. É um bom hábito. Praticar desporto faz bem e todos devemos ir zelando pela saúde. Se for diário, tanto melhor, como recomendam os mestres em medicina. Somos dos países da Europa que menos desporto pratica. Uns fazem-no por saúde e descontração, em marcha lenta, outros em corrida, para queimar excessos e ondulações indesejadas ou para submeter o corpo e a mente a uma grande descompressão física e psicológica.
Cada um lá saberá porque o faz, mas a verdade é que muitos o fazem dominados pela paranoia contemporânea do cuidado do corpo, que se «tornou um mito de massa e consequentemente um negócio», como diz o Papa Francisco. É que hoje às pessoas não chega estar bem e ter saúde, mas é preciso impressionar e cair bem aos olhos dos outros, seguindo-se o padrão da mentalidade dominante, que enobrece a magreza, e dar nas vistas pela exibição de um corpo quase perfeito, hidratado, fresco, jovem, esbelto e elegante, seco (que nem a Vénus de Milo teve), que não mereça toques de reprovação vigiados pela sagrada moda e seja digno dos elogios dos exigentes e cáusticos observadores. Não seria de esperar outra coisa, nesta sociedade narcisista e exibicionista em que vivemos, avivada e estimulada pela panóplia de meios eletrónicos que tem à sua disposição. Vemos assim que pessoas que se queixam de ter pouco tempo e uma vida superocupada para poderem dar tempo à família, aos outros e às instituições ou para poderem cumprir deveres e compromissos que assumiram, contudo, religiosamente não faltam ao ginásio e cumprem à risca os intensos exercícios a que se devotam. O corpo, ou a busca de um corpo quase perfeito, sem defeitos, digno de ser adorado, que nunca teremos, tornou-se um ídolo.
Penso que, para alguns, o cuidado do corpo é quase dar sentido à vida, porque são tão limitados os objetivos e os projetos de vida que têm, que, se não tivessem que cuidar do corpo, viveriam num mar de tédio. E como é interessante notar o grande negócio que nasceu à volta deste delírio pelo cuidado do corpo, desde ginásios por todo o lado, personal trainers, especialistas da atividade física, clínicas e cirurgiões plásticos, estúdios de beleza. Não ponho aqui em causa a atividade e a competência destas pessoas e instituições, simplesmente quero manifestar que acho descabido tanta preocupação pelo corpo e questiono toda a indústria que está montada com arte e engenho para que as pessoas vivam o cuidado pelo corpo como uma obsessão, senão mesmo escravidão. Acho que o corpo, que deve ter as suas atenções e cuidados, não precisa destes exageros. Depois, assistimos a algumas aberrações, como uma mulher ter 70 anos e querer ter um corpo de 18 ou 25 anos ou um homem ficar completamente descaraterizado pelo desenvolvimento descomedido dos músculos. É a idolatria do corpo forte, jovem e perfeito. Um corpo velho não tem dignidade? Somos muito mais do que corpo e valemos muito mais do que o corpo que temos.
A par desta obsessão pelo cuidado do corpo, anda por aí agora o fundamentalismo alimentar, em que se definiram alimentos bons e maus, se decretou vigilância apertada sobre as dietas (cai bem dizer que se anda de dieta), quando sabemos que, dentro da regra, tudo é bom. Não está em causa o saber comer e cuidar da saúde, mas estes picuinhas profissionais diante da mesa em que nos estamos a tornar, prontos a dar lições de gordura saturada, ómega 3 e fibras a qualquer um que apanhamos pela frente. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Saibamos saborear com equilíbrio tudo que de bom a natureza nos dá.
O que esta preocupação absorvente pelo corpo manifesta é que temos muita dificuldade em nos libertarmos das mentalidades dominantes e das modas vigentes (como é questionável a liberdade que apregoamos!) e vamos sempre pelo caminho mais fácil, que é imitar os outros e viver o que o mediatismo dita, sem questionar o sentido e a importância do que se faz. O que os olhos dos outros veem ou querem ver é a grande diretriz da vida de muita gente. E mais uma vez fica exposta a superficialidade da sociedade em que vivemos, que se fixa no corpo e esquece o essencial, que é o interior da pessoa humana. Oxalá que o mesmo empenho que temos para com o corpo o tivéssemos para adquirir cultura, sabedoria, educação, pensamento, conhecimento, espessura interior, humanidade, moralidade e espiritualidade, isto sim, bem mais importante do que o pobre, mas digno, corpo, que, um dia, vamos ter de entregar à terra, nas quatro tábuas de um ataúde.



publicado por minhasnotas às 16:39 | link do post | comentar

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