Sexta-feira, 13 de Maio de 2016

O jantar tinha decorrido com serenidade, em amena cavaqueira, comentando-se de tudo um pouco, desde a política ao futebol, de vez em quando avivada por uma piada oportuna, que fazia nascer sorrisos nos rostos dos comensais, em alguns sonoras gargalhadas. Já refastelados nas cadeiras robustas, a maioria com as faces rubicundas, a atestarem o opíparo pitéu que foi servido, o chefe da casa, que reverentemente ficou na cabeceira da mesa, sugeriu:
- Vai agora um chupito para a malta?
- De preferência uma velhinha, e já cá devia estar - resmungou alguém do meio da mesa, piscando o olho e acotovelando levemente o comparsa da direita.
Depois do primeiro trago, retomámos as conversas soltas, que ainda aguçavam a conversação. À minha frente ficou um senhor, aí com setenta e tal anos, calvo até às orelhas, com barba grisalha farta, de voz suave e aragem espirituosa, que quando falava todos prestavam atenção. Reverente e sibilino, continuou:
- Pois é, pois é, a nossa democracia, se não arrepia caminho, entra em decadência, se já não está. Noto que a qualidade dos nossos políticos tem vindo a diminuir, os bons não estão para aturar o povo, que se habituou sempre erradamente a falar mal dos políticos, os medíocres e oportunistas lá arranjam um cursito e vão se safando…
- Rouxinóis e melros de horta sem pauta nunca faltaram - acrescentou o magricelas, de nariz aquilino e cabelo curtinho, que estava à sua esquerda, com olhos semicerrados.
-Bem – continuou - os interesses tomaram conta dos partidos, que pura e simplesmente fazem campanhas para tomar o poder, mas depois preocupam-se com a agenda dos interesses partidários e das sedentas clientelas, ter emprego e manter privilégios tornou-se prioridade em vez de se servir o povo com dedicação e competência, há uma torpe promiscuidade entre politica e negócios, há um preocupante decréscimo moral e cívico, em que cada um se procura safar segundo a lei do menor esforço, sem olhar a meios, sem qualquer preocupação pelo bem dos outros e do bem comum, a honra e a probidade estão quase esquecidas. Não acredito numa vida individual e social sem valores, sabe. O pior que nos pode acontecer é deixarmos imperar o reino do vale tudo.
Nada disto era novo, mas como persistia a olhar para mim, fui tentado a intervir:
- O poder e os seus vícios serão sempre sedutores e polémicos e não há regimes perfeitos - redargui eu, com voz professoral e mão no queixo.
- Mas sabe, senhor padre – continuou o senhor da barba grisalha – o que mais me custa é o desperdício de possibilidades e oportunidades que temos à nossa frente. Quando vivíamos em ditadura, quantos lamentos não escutei de que não se podia fazer isto ou aquilo, ser isto ou aquilo, que podíamos ser outro país, com mais liberdade, justiça, igualdade, educação, paz, proclamámos que nos uniríamos para construirmos um país desenvolvido e moderno e já lá vão quarenta anos de democracia e somos um país permanentemente adiado, não nos conseguimos unir a sério, nem instaurar um desígnio para darmos um rumo certo ao país.
- Já reparou - argumentei eu, pensativo - que quando se vive em guerra ou ditadura, em que há um inimigo que está bem definido, é mais fácil mobilizar as pessoas? Quando cessam os bichos papões e as ameaças e regressa a paz e a liberdade, ficamos um pouco perdidos sem saber o que fazer com elas. Mobilizar as pessoas para um fim nobre torna-se uma tarefa hercúlea. Infelizmente, acabamos por estragar tudo, deixando prevalecer o regime dos interesses e a libertinagem, que não é liberdade.
- Todos querem fazer grandes coisas, mas no fim queremos sempre caminhos fáceis e que sejam os outros a tomar a dianteira – prosseguiu. Outra coisa que me custa muito é ver agora alguns figurões, que noutros tempos foram lambe-botas e sabujos da ditadura, a alardear o seu amor à democracia e à liberdade e com que destreza o fazem. Claro: as ideias e as convicções compram-se e vendem-se, não é verdade? O que importa é estar sempre perto do poder, para que os seus mui nobres interesses não fiquem adiados. E a Igreja, que me diz da Igreja? Não lhe parece estranho um Papa tão consensual?
- É um bom Papa – respondi eu – trouxe de novo o Evangelho para o centro da vida da Igreja e está-se a impor pela sua simplicidade, proximidade e frontalidade.
- Um Papa tem de ser alguém que nos ponha a pensar e não só alguém que nos impressione pela candura dos seus gestos e palavras, embora também seja importante – ripostou. Acho que a Igreja deitou fora depressa de mais o inferno. Boa parte da minha catequese e da minha prática cristã nasceu do medo do inferno, com que nos aterrorizaram na infância e na adolescência. O padre da minha terra até era bom homem, mas os seus sermões eram medonhos. Se aquilo era Boa Nova… Bem, agora parece que se passou para o oitenta, Deus perdoa tudo, Deus é só misericórdia. Não acredito na misericórdia sem exigência e emenda e de certo que vai ter de haver justiça. Se assim não for, deixamos de levar a vida a sério. O que o inferno nos ensinava era que na vida não vale tudo, é preciso viver com exigência ética e moral. Um homem sem ética não vale nada. De vez em quando ainda gosto de ir à Igreja, porque acredito em Deus e tenho necessidade de pensar.
- Talvez se tenham cometido alguns excessos, é verdade – retorqui - e convém lembrar que a misericórdia de Deus, de facto, exige conversão e compromisso. Fico admirado é que, de facto, nos tempos em que se exagerava a falar de pecado e inferno e se propunha uma disciplina rigorosa, as igrejas estavam cheias, agora que se acentua mais, e bem, a dimensão amorosa e misericordiosa de Deus, parece que estamos a relaxar no cumprimento dos nossos deveres e na exigência moral. O deus do medo parece sobrepor-se ao deus do amor.
- Vocês, padres, nas homilias, falam muito da fé, e não tenho dúvidas de que muitas pessoas vão à igreja porque têm mesmo fé, mas há três causas que têm muita força na prática religiosa: o medo, a necessidade e o consolo, não esquecendo também o ir com os outros.
- Em parte concordo – redargui – basta ver que, em tempos de guerra ou penúria, aumentam os fiéis.
- Não defendo que falem do inferno como no meu tempo, mas vão lembrando às pessoas que, de certo, existe e que a vida não poderá deixar de ter um crivo, um dia. Há um sério problema ético e uma falta de respeito pelo ser humano atualmente, que é de bradar aos céus. Face aos níveis de devassidão e imoralidade a que estamos a assistir, penso que não será demais lembrar que vamos ter de prestar contas.
- Só mais um chupito para irmos embora? – propôs o chefe da casa.
- Nem mais - anuiu um cinquentenário, que tinha estado impávido e sereno.
Boa noite, meus senhores. Até outro dia.



publicado por minhasnotas às 10:40 | link do post | comentar

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