Terça-feira, 28 de Junho de 2016

O ser humano é um ser relacional e social. Está feito para ser para os outros e para se relacionar com os outros, para partilhar, para conviver e comunicar. E quanto mais o faz, mais se realiza como ser humano e mais humano se torna. Como é um ser inteligente, dotado da capacidade de pensar e verbalizar, e portador de emoções e sentimentos, tem uma grande necessidade de comunicação. Esta tem dois grandes movimentos: falar e ouvir. Quem não sabe exercer os dois, não sabe comunicar e terá uma grande dificuldade em estabelecer «empatia» ou «simpatia» com os outros. Facilmente cairá na «antipatia» dos outros e com os outros. E não esqueçamos o silêncio, que é necessário para se comunicar bem, e, não raras vezes, é a forma mais sublime e perfeita de comunicar.
Na mensagem que dirigiu ao mundo e à Igreja para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Francisco chama a atenção para a necessidade de viver a misericórdia na comunicação social, assim como em toda a comunicação humana. Há pouca misericórdia na nossa comunicação social. Basta ver que as más notícias prevalecem sobre as boas notícias, há um gosto mórbido pelo escandaloso, o imoral e o negativo, vasculha-se e divulga-se a vida privada das pessoas sem qualquer respeito pelas pessoas e pela sua dignidade, nesta sociedade que se tornou incompreensivelmente consumista da desgraça alheia, com diretos atrás de diretos às portas dos tribunais, espalham-se sem escrúpulos a mentira e as meias verdades sobre pessoas, instituições e acontecimentos, em nome de interesses, com graves consequências para os atingidos, clama-se por justiça severa e linchamentos públicos para falhas e erros humanos. Até na nossa imprensa local, penso que se abusa dos ataques pessoais, do falar mal só por falar mal, por inveja ou ódio, seja de pessoas ou instituições, mais só para destruir do que para construir ou melhorar, dá-se demasiado espaço a querelas e discussões estéreis, que pura e simplesmente só vão azedar as relações e cavar maior distância entre os envolvidos, não estando em causa a leitura crítica que cada um tem direito a fazer da realidade. Até na comunicação politica, há muita falta de misericórdia. Repare-se na nossa Assembleia da República: em vez ser um espaço de comunicação com elevação e serenidade, pelo contrário, impõe-se a gritaria, o tom agressivo e acusatório, a troca permanente de argumentos bélicos, sem capacidade de ouvir o outro e entrar na sua razão, há uma busca contínua pelo denegrir e deitar abaixo o outro, não se reconhecem os méritos e os sucessos dos outros, prevalece a cultura de trincheira e o fundamentalismo partidário, exploram-se até ao tutano as contradições e as falhas alheias. Quantas sessões da Assembleia da República, casa da democracia, são um espetáculo lamentável!
Atualmente verifica-se um grande deficit em escutar os outros, para o qual o Papa também alerta. Vivemos num mundo de surdos. E não me digam que é por falta de tempo. O individualismo atual está-nos a tornar frios e indiferentes para com os outros. É uma questão de atitude e de humanidade. Vou encontrando muitas pessoas, que têm uma grande necessidade de falar, porque, pelos vistos, ninguém está para as «aturar», pessoas que precisam de encontrar um caminho, de redimir um fracasso, de contar um sucesso, de relatar uma vida cheia de sacríficos e conquistas extraordinárias, e não têm um familiar ou um amigo que se queira maravilhar com as suas palavras. Os mais velhos têm tanta experiência e sabedoria para partilhar e o que faz a modernidade? Presta-lhe cuidados, faz umas coisas engraçadas, mas não tempo para os ouvir.
Mesmo a Igreja, e quando falo da Igreja falo de todos os cristãos, não pode deixar de comunicar com misericórdia. Diz o Papa: «Palavras e gestos duros ou moralistas correm o risco de alienar ainda mais aqueles que queríamos levar à conversão e à liberdade, reforçando o seu sentido de negação e defesa.» Seria bom evitar o tom sentencioso, o julgamento fácil e o moralismo frio, que facilmente andam na ponta da língua, e apostar mais na proximidade e na proposta de caminhos positivos para a vida.



publicado por minhasnotas às 11:32 | link do post | comentar

mais sobre mim
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


posts recentes

S. Teresa de calcutá

será o facebook o novo co...

entrevista do papa franci...

visita do papa à arménia

prevenção dos incêndios

Monsenhor Ângelo minhava

P. Arnaldo Moura

a festa dos jogos olímpic...

a jornada mundial da juve...

gestação de substituição

imagem peregrina para per...

o corpo é que paga

o algoísmo

Comunicação e misericórdi...

viver sem sentido

a alegria do amor

Respeitar o domingo

Diálogos imprevistos

Umberto eco

imagem peregrina para per...

o drama do suicídio

tempos de apatia

Um testemunho: Fernando S...

O que é o pecado original...

o que é a salvação?

o que é ser um católico p...

a debandada da juventude

as nossas liturgias

simpósio do clero

Os caminhos de S. Tiago

S. Teresa de Ávila

tempo para pensar

repensar as festas cristã...

a importância das velhas ...

O polémico teste da amame...

a cultura da humilhação

Elogio da loucura

o uso do latim

missas à la carte

Sociedade e violência

a compaixão mundana

Lições de Paris

perplexidades à volta da ...

a existência de deus

A cremação

As vocações

O prémio nobel da paz

Santuários de Humanidade

Será a missa uma seca?

o espírito do mundo

arquivos

Fevereiro 2017

Outubro 2016

Setembro 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

tags

25 de abril

aborto

abstenção

acesso das mulheres ao sacerdócio

advento

alienação

ano da fé

ano sacerdotal

ateísmo

ateísmo prático

átrio dos gentios

bach

beça

bento xvi

boticas

caça

casamento

casamento homossexual

celibato

compromisso cristão

comunicação

comunicação com os mortos

comunicação social

consumismo

conversão

cooperação

crença

crescimento

crise

cristianismo tecnológico

cristiano ronaldo

cristo rei

culpa

cultura

d. manuel martins

d. ximenes belo

decência

deolinda

deolinda; hino nacional

deus

discipulado

drogas

educação

eleições

encíclica caridade na verdade

ensino

escola

estado social

ética

europa

europeias

família

fátima

fé/razão

feriados

festas cristãs

fragilidade

função sacerdotal

funeral

furtar

haiti

heróis

história

homem

homem light

igreja

igreja católica

igreja e pedofilia

imagem de deus

indiferença religiosa

inferno

inquisição

interior

internet

jornada mundial da juventude

jornadas

josé rodrigues dos santos

josé saramago

juventude

laicidade

liberdade religiosa

marinho e pinto

maroon 5

mediatismo

miguel sousa tavares

missa dominical

morte

natal

novas gerações

novas tecnologias

padre

política

quaresma

relativismo

sacerdote

ser padre

sociedade

televisão

terceira idade

violência doméstica

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds