Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

Os meus amigos vão-me desculpar o facto de eu escrever sobre as praxes, porque, de certeza, que já estão enfadados com tanta notícia e tanto debate sobre elas. Nos últimos dias, não faltaram artigos e crónicas sobre o tema. A informação atual vive de ondas e enquanto sente vento, vai fustigando a costa até quase à náusea. É a informação na era do espetáculo.

A professora de História da Igreja na Idade Média, que tive na universidade, passou as primeiras aulas a desmisticar a vilipendiada Idade Média. Com dados concretos e bem fundamentada, rebateu os muitos mal-entendidos e as teses preconceituosas e caprichosas que muitas escolas de história criaram acerca da Idade Média, considerada a época do obscurantismo, da ignorância, da cegueira, da crendice, a idade das trevas. No meio disto, nem nos lembramos de que a universidade moderna nasceu na Idade Média. Com a universidade, nasceram também as praxes, atividades para integrar todos aqueles que vinham das zonas rurais para a mundividência citadina e para a cultura estudantil. Duvido que fossem piores do que aquelas que vemos hoje.

Como estudante universitário, fui praxado, mas não praxei. Na altura, recordo-me que as praxes foram uma novidade. Numa das primeiras aulas, depois das apresentações, um grupo de veteranos vestidos com capas negras irrompeu sala adentro, com ar autoritário, aos berros, em tom militarista. Foi-nos apresentado o programa da praxe, que durou uma semana ou pouco mais do que isso. Quando questionei a motivação da praxe foi-me dito que era para proporcionar a socialização e a integração dos novos alunos, os caloiros, aprofundar conhecimentos e relações mútuas. Pelos seus fins, até tinha algum sentido. Tivemos uma praxe saudável e galhofeira: cantar músicas populares em público, contar anedotas pouco picantes, jogos, imitações, atividades ordeiras, algumas beneméritas, e encerrámos com o tradicional batismo num fontanário da cidade. No fim, de facto, já sabíamos os nomes uns dos outros, origens, objetivos e havia um maior à vontade com os colegas mais velhos. Recordo também que se gerou um ou outro caso de tensão com alunos, que se recusaram a participar na praxe. Na altura, não gostei, e senti algum sentimento de revolta quando, nos primeiros meses, os via a serem vergastados com vitupérios de vária ordem e quase sempre mal recebidos. Com o tempo tudo passou, mas não achei um ato muito digno de estudantes universitários. De uma forma geral, fiquei com uma boa impressão da praxe e convencido da sua utilidade.

Nas outras faculdades da universidade, vi coisas que me desagradaram. Já era notória alguma humilhação e ouviam-se coisas estúpidas e excessivas. Mas, ainda assim, nada do que tenho visto nas peças jornalísticas e filmes que passaram nos últimos dias, que nos mostraram que as praxes seguiram um caminho impensável, de estupidificação, de humilhação, violência, autoritarismo, javardice e selvajaria. Fiquei perplexo com o mau gosto e a parvoíce que se instalou nas praxes. Como me dizia alguém nestes dias, «parece que esta gente anda a estudar para burro». Como é que estudantes universitários se acham dignos de ações tão idiotas, infantis e primárias? Como também é incompreensível uma certa cultura praxística obscura que se acomodou nas faculdades, em que grupos de estudantes, sem qualquer fundamento, instituíram o direito a poderem fazer o que lhes apetece aos outros, autolegalizando-se, com total indiferença dos corpos diretivos das universidades.   

Ao ponto a que chegaram as praxes, não pode haver qualquer hesitação em proibi-las. Uma atividade que poderia ser cumprida com verdadeiro espírito de amizade, acolhimento, companheirismo, integração, divertimento sadio (como foi a minha), está transformada numa atividade pacóvia, desumana e violenta, onde não se encontra qualquer fim salutar e construtivo. Como já se ouviu, o ideal é promover dentro das universidades dias de integração, com a interação de todos os agentes universitários, dias supervisionados pelos diretores das faculdades. Mas também é bom que se lembre aos estudantes universitários que a integração na universidade não é um bicho-de-sete-cabeças. Não são precisas atividades extraordinárias. Basta que cada um saiba prestar a devida atenção aos outros, cultive o respeito, a entreajuda e a solidariedade e crie um verdadeiro ambiente de companheirismo. 

O importante agora é fazer uma grande reflexão. Para mim, olhando-se ao caminho e à dimensão a que chegaram as praxes, elas manifestam o seguinte: andamos muito alheados uns dos outros, com grande indiferença e desconhecimento da vida concreta uns dos outros; a sociedade do bem-estar e da diversão tem contribuído para um retardamento da maturidade humana, com a consequente infantilização e imbecilização; numa boa parte da juventude há um grande vazio de princípios e de valores, há desnorte; não tem havido crescimento humano e ético juntamente com a aquisição de conhecimentos e de competências. É umas das lacunas das universidades e até certo ponto também das famílias, que não devem só formar profissionais ou técnicos para ganharem dinheiro, mas formarem, primeiro que tudo, homens e mulheres, que devem agir com exigência ética; há uma grande falta de formação e de educação. É nisto que temos de pensar seriamente.


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publicado por minhasnotas às 11:42 | link do post | comentar

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