Sexta-feira, 4 de Julho de 2014

No último artigo, em que abordei algumas das causas da indiferença religiosa que persiste no continente europeu, sublinhei o caminho errado, na minha opinião, em que as religiões se deixaram enredar, que muito contribuiu para o abandono da Igreja e da religião: a materialização da religião e a sacralização do materialismo. Caminho que ainda, e veja-se a razão de ser de muita prática religiosa, está muito longe de ser corrigido, com o beneplácito ou inércia da hierarquia da Igreja. Seria Fátima o que é hoje se não prometesse milagres e resoluções e favores de toda a espécie? Duvido. Segundo alguns trabalhos jornalísticos, já não é só o povo humilde e simples que visita Fátima. As classes mais abastadas e profissionais liberais e académicos também já vão a Fátima à procura de paz de espírito e de repouso. Mas, na minha opinião, perdura o cariz utilitário da religião, neste caso usada pura e simplesmente para o bem-estar individual. Será que esta nova turba de devotos de Fátima anda mesmo à procura de Deus e está disposta a empreender um caminho de conversão e compromisso com Jesus Cristo e com a Igreja? Tenho muitas dúvidas. Com isto eu não quero dizer que a dimensão material da vida seja afastada da vivência religiosa. Ela também tem de entrar na relação com Deus. Está é sobrevalorizada, corrompendo a religião. O homem deve e pode pedir coisas a Deus para amar e servir a Deus e aos outros (Deus está no centro) e não servir-se de Deus para viver só para si e para os seus projetos individuais.

Segundo alguns estudiosos do fenómeno religioso, começa a despertar um novo interesse e entusiasmo pela religião na sociedade atual, embora ainda difícil de definir e de analisar quanto à sua autenticidade, porque é difuso e eclético. Mas pelo que vamos vendo e pressentido, é uma nova vaga de religiosidade materialista, talvez mais subtil, desenvolvida por materialistas satisfeitos, que procuram quebrar a secura e a monotonia ou até colmatar o vazio do materialismo, buscando contentamentos suplementares. Repare-se, por exemplo, neste novo fenómeno que persegue emoções ou perceções estranhas, requintadas e supérfluas, no domínio da sensibilidade e da curiosidade. Gosto do fantástico e do horror, esoterismo e simbolismo, vidência e magia, e necessidade de vida em comum neste ambiente: as seitas. Isto prolifera por causa do materialismo simultaneamente satisfeito e insatisfeito (enjoado). Depois da febre materialista que invadiu e saturou a vida, o homem atual partiu para a busca do que nunca foi visto ou experimentado, sentido e imaginado, busca de mundos e mistérios nunca antes sondados, em claro contraste com o fastidioso mundo em que se vive. Passou-se a redescobrir as épocas passadas. A Idade Média, com todos os seus mitos e fantasias, passou a estar na moda. Videntes e adivinhos passaram a ter tempo de antena. Livros e filmes do fantástico e do irreal ocupam os primeiros lugares de vendas. Espiritualidades, práticas e filosofias de vida orientais e de iluminados europeus merecem toda a atenção. Tudo isto é uma sincera busca de Deus ou verdadeira procura pelo religioso genuíno? Claro que não. Fuga ao materialismo entediante e procura de bens para o bem-estar individual. Uma nova versão da religiosidade materialista.

A indiferença religiosa sempre existiu ao longo da história, em grandes ou pequenas dimensões. O homem pode escolher perfeitamente viver sem religião e sem se preocupar com Deus. Mas porque é que nasceu a agressividade contra a religião? Algumas pessoas e forças e movimentos não se limitam a passar ao lado da religião, mas empenham-se em erradica-la da vida humana, considerando-a uma droga consoladora e uma alienação humana, prejudicial para o homem, já que o tira da realidade e fá-lo viver no campo da fantasia e da invenção. A explicação mais simples aponta a luta de poder. As religiões são incómodas para quem quer impor ideias e projetos novos na sociedade e assim atingir os seus intentos. Também existe isto, é verdade, assim como outras causas um tanto ou quanto irracionais e mesquinhas. A religião também incomoda porque nos põe a pensar. Mas mais uma vez é preciso ir à procura das razões mais profundas para a agressividade antirreligiosa. O homem ataca Deus por não demonstrar o mesmo sucesso dos técnicos ou da técnica. A esta distância, o homem até se sente rebaixado por noutros tempos ter pedido a Deus o que hoje está ao alcance das suas mãos. Começou a ser difícil conviver com a ideia de um ser superior cuja utilidade material não se consegue ver, ainda para mais, quando Deus parece um deus insensível aos problemas e aos dramas humanos. Se Deus é Deus, porque é que existe o sofrimento? Porque é que Deus não faz isto ou aquilo ou deixa acontecer tragédias e catástrofes? Mais uma vez, ganha espaço a ideia de que Deus é inútil, não faz falta à vida e até é preciso eliminá-lo da vida, porque distrai o homem de se empenhar seriamente na construção do mundo. Deus é uma perda de tempo e é um estorvo. Quando assim se pensa, convém lembrar três coisas: em primeiro lugar, um Deus que fosse um mágico que resolvesse tudo sem o esforço humano, sem dar ao homem responsabilidade no rumo da vida e do mundo, tornaria a vida um triste jogo de marionetas; em segundo lugar, o homem tem de deixar cair a tentação de querer um Deus manipulado e domesticado conforme as suas visões, pensamentos e caprichos; em terceiro lugar, porque não ver a ação de Deus por detrás das maravilhas técnicas que o homem tem conquistado? Quem nos deu as mãos e a inteligência para irmos atingindo os progressos que alcançamos e melhorando a vida do mundo? Tudo isto tem sido só obra do homem? Penso que não. E lá está: Deus não está ausente e não é insensível ao mundo. Está muito mais por dentro do que possamos imaginar.

PS: Relativamente à última sexta-feira 13, deixo três breves comentários: a transmissão pela internet foi uma boa iniciativa; o teatro exibido foi sofrível. Apesar do aparato e do cenário, sobrou em gritaria o que faltou em conteúdo. Podiam-se aproveitar estas ocasiões para fazer refletir sobre o mal e a moral na sociedade atual. Representar um anjo contra um demónio está gasto e parece quase infantil. O mal está na conduta errada das pessoas, que usam mal a sua liberdade, e não em diabinhos. No futuro, penso que se devia repensar na qualidade do teatro; a queimada está a perder originalidade. Tem graça fazê-la com calma e especificar os produtos que a constituem, com a leveza de uma mulher que amassa o pão. O texto tem origem galega e já se percebeu que estão lá algumas palavras para pura e simplesmente provocarem o riso. Já é tempo de lhe dar alguma originalidade barrosã. Porque não criar uma narrativa feita por barrosões? P. Fontes, mãos à obra.



publicado por minhasnotas às 23:59 | link do post | comentar

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