Sexta-feira, 20 de Dezembro de 2013

Um livro que tenho como referência é «O Meu Testamento Filosófico» do filósofo e escritor católico francês Jean Guitton. É uma espécie de síntese do pensamento multifacetado de um filósofo que era lido e escutado dentro da Igreja Católica, e a prova mais clara disso mesmo é que foi convocado para participar no Concílio Vaticano II. A um determinado momento do seu testamento filosófico, num suposto diálogo com outro filósofo francês, Bergson, Jean Guitton afirma:

- «Não deu conta, Bergson, como o Cristianismo, uma vez tirado o sobrenatural real, se torna insípido? O que fica? Um moralismo respeitável e bastante constrangedor; um humanitarismo que tem sempre o ar de procurar desculpar Deus por não evitar as misérias humanas; um «solidarismo» simpático; uma esperança vaga na melhoria das dificuldades do século. Tudo isto não é sólido, tudo isto não é profundo. Há necessidade de incomodar o próprio Deus para ensinar estas virtuosas banalidades? Tire o sobrenatural, o cristianismo é vazio».

 - Bergson respondeu: «Estou de acordo consigo, Guitton. Quando o clero se torna racionalista, esvazia as igrejas e faz o sucesso das seitas».  

- Guitton redarguiu: «Se se perde a fé, resta pôr luto por uma crença defunta. Se Cristo não ressuscitou, deixemos de choramingar nas sacristias aviltando o mistério.»

 Jean Guitton lembra aos cristãos de todos os tempos a novidade e a originalidade do Cristianismo, que o distingue de todas as outras religiões: tem uma origem sobrenatural e tem como fim estabelecer comunhão com o sobrenatural. O Cristianismo foi fundado pelo próprio Filho de Deus, Jesus Cristo. Todas as outras religiões foram fundadas por homens, de grande densidade humana e espiritual, é verdade, mas homens. O Cristianismo tem na sua base e na sua fonte o sobrenatural e tudo o que propõe e ensina é para que o homem tome consciência do seu destino sobrenatural e se deixe enriquecer e fascinar pela beleza do sobrenatural. Eis o encanto e a grandeza do Cristianismo: a vida de Deus, com toda a sua marca de eternidade e de plenitude, já é comunicada aos crentes. Jesus Cristo teve sempre no centro da sua vida o «Pai», para quem sempre quis viver. O principal interesse da sua existência foi sempre viver em união e comunhão com o Pai, Amor fontal e sustentador de todas as coisas e de todos, convidando outros a entrarem nesta mesma comunhão sobrenatural, razão última da vida do homem. Este é o conteúdo fundamental do Cristianismo.

 Ainda tenho na memória os resultados de uma sondagem que encontrei numa revista católica, há quatro ou cinco anos, sondagem que teve como fim averiguar junto dos cristãos se acreditavam mesmo na divindade e na ressurreição de Jesus Cristo. Os resultados foram espantosos: a maioria dos entrevistados não acreditava nas duas coisas. Apetecia-me perguntar: mas, afinal, porque é que são cristãos? Terão a mínima noção do que andam a dizer e a viver? Para um bom número, Jesus foi um homem místico «que teve uma experiência muito forte do divino», experiência que o tornou um mestre admirável de moral e de espiritualidade, da elevação e da perfeição humanas, mas não passava de um «homem». Deus é Deus, o homem é o homem. Quanto à ressurreição, tinham muitas dúvidas e dificuldades em afirmá-la. Poderá ser mais um produto da forja da história fictícia da humanidade ou bela invenção dos amigos íntimos de Jesus. Lembro S. Paulo: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé». As verdades basilares do Cristianismo – a divindade e a ressurreição de Jesus – não são aceites por muitos cristãos. Mas não há Cristianismo sem o sobrenatural. Este menino de quem vamos celebrar o nascimento não foi apenas um profeta de uma nova humanidade ou um Che Guevara da Palestina que combateu poderes opressores e injustiças no seu tempo, amigo dos pobres e dos excluídos, ou um simples mestre de afetos sublimes e de regras morais para se ser feliz, imagens românticas a que tantos gostam de o reduzir, Ele é o Filho de Deus que se fez homem e que ofereceu a vida para recriar a vida do mundo, ressuscitando ao terceiro dia, sendo fonte de vida nova e eterna para todos os que o querem amar e seguir. Não captar esta verdade e esta novidade em Jesus Cristo é viver um Cristianismo vazio.

 2. Aqui há uns tempos, um jornal diário noticiava que numa Igreja de Portugal se tinha juntado uma multidão de jovens atraídos por um festival de música religiosa. Quem fez a notícia, queria dar a entender que, se a Igreja assim fizesse sempre, faria regressar muitos jovens às Igrejas. Honestamente, sorri. A música tem a sua importância e um valor inestimável na vida da Igreja e não tenhamos dúvidas de que tem um papel importante no atrair para a fé e na vivência da fé e na transmissão da mensagem da fé. A música é atrativa e cativante. Mas mal da sorte se é a música que nos faz tomar a decisão de sermos cristãos. Como tudo na vida, a música também cansa. A razão de ser cristão está no fascínio por Jesus Cristo e por toda a sua vida e obra, estando disposto a viver a vida com Ele e como Ele.  Há sempre a tentação de se querer vender um cristianismo lúdico e divertido, sem grande exigência e compromisso, ao sabor do imediato, impreciso e difuso, um cristianismo sem cruz e sem doutrina, um cristianismo para convívio e para se ir passando o tempo. Este cristianismo não existe. Uma das boas vozes da música contemporânea portuguesa, Manuela Azevedo, vocalista dos Clã, numa entrevista a uma semanário português, contou-nos o seu percurso religioso. Também em tempos foi uma menina de Igreja, que cantava em coros e por aí fora, por influência de amigos e da família. Um dia sentiu que tudo aquilo era pueril e que já não lhe dizia nada. Abandonou a vida da Igreja e, pior do que isso, possivelmente a própria fé, e decidiu seguir outro caminho. Infelizmente, é o que acontece com muitos ditos cristãos que não descem às profundezas e às maravilhas da fé cristã. É nisto que dá o cristianismo lúdico de que muitos gostam. Ela amava a música e não a Igreja. Vivia uma fé de que não tinha descoberto a alma e a beleza: a vida e o amor belo e único de Jesus Cristo. É isto que nos deve fazer ir às Igrejas e viver a fé cristã e não a música.

 3. No espírito crítico construtivo que devemos cultivar, gostaria de dizer o seguinte: a realização da Sexta-feira 13 em Montalegre já é uma confirmação (escrevo antes da última deste ano). Goste-se ou não se goste, ganhou grande dimensão e aceitação, o que, honestamente, não deixa de surpreender, porque acho o argumento fútil e não vejo nada de deslumbrante quanto ao produto que é oferecido, em todos os sentidos. Até agora não vi conteúdo cultural de relevo (o que fica das peças de teatro?). E já se percebeu que há uma certa indústria ambulante, vinda de fora, que gosta destes eventos. É pura e simplesmente um momento de diversão, de pândega, como tantos outros, ou como lhe chamou o chefe Loureiro, que já passou por cá, é uma festa de rua ou até um carnaval mais pomposo. E assim seja, com os seus benefícios económicos. Mas fico espantado com muitas das afirmações que ouço sobre o evento, sobretudo de alguns dos seus mais diretos organizadores, porque parece que o evento tem algo de inolvidável ou de extraordinário, que nunca foi dado a beber aos homens e que dá uma experiência insondável às pessoas. Meus senhores, sinceramente. Pergunto-me até se saberão o conteúdo de algumas palavras que usam. O que querem dizer com oculto e com místico? Por detrás de máscaras, gritaria e jantarada esconde-se o quê? A mística tem muito que se lhe diga. Não devia ser para ali chamada. E mais algumas que poderia enumerar. Quem tanto quer dizer das coisas acaba por não dizer nada, num contrabando de palavras. Chamemos os nomes certos às coisas, sem floreios inoportunos. O que me intriga nisto tudo é que as pessoas têm disponibilidade, paciência e dinheiro para este tipo de realizações, mas para as coisas mais sérias da vida e para as ações que podem fazer progredir a sociedade não há a mesma disponibilidade ou se existe é residual. Paciência.



publicado por minhasnotas às 15:11 | link do post | comentar

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