Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013

Voltaire, escritor e filósofo francês dos séculos XVII e XVIII, publicou 1759 um pequeno romance picaresco, ou se quisermos, um conto, denominado Cândido. Com sarcasmo e ironia quanto baste, Voltaire empreende uma sátira às ideias políticas, filosóficas e religiosas daquele tempo. Uma questão que atravessa todo o romance é a velha questão do bem e do mal. Cândido era um jovem rapaz de «índole suave», «raciocínio justo» e de «espírito simples» (por isso se chamava Cândido), que foi criado num castelo de um barão da Vestefália. O seu mestre era o Senhor Pangloss, que obstinadamente transmitia ao jovem Cândido que tudo ia pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. Há que ser otimista porque tudo está bem, tudo está bem ordenado para um bom fim, o melhor dos fins. Sucedeu que, num certo dia, o barão apanhou o jovem Cândido a curtir carinhosamente a sua filha Cunegundes, atrás de um biombo, para lá do que se devem atrever as almas inocentes. Com meia dúzia de pontapés no traseiro, foi expulso do castelo. Escorraçado do seu berço, o jovem Cândido lançou-se em peregrinação pelos caminhos do mundo, onde se vai confrontar com um sem número de desgraças pessoais e peripécias de toda a espécie, não demorando muito a perceber que, afinal, nem tudo ia pelo melhor e que o mal existia mesmo e era feito por pessoas humanas. O otimismo do professor Pangloss era uma ingenuidade e um grave deslocamento da realidade do mundo.

Todos os anos, por altura da quaresma, lembro-me deste pequeno livro de Voltaire. À imagem do jovem Cândido, no tempo quaresmal, somos convidados a fazer uma incursão, não pelo mundo, mas pela nossa própria vida, o deserto da nossa vida, em todas as suas redes e dimensões, para nos apercebermos da presença do mal e nos fortalecermos no combate a essa presença, que desfeia a nossa vida e a vida do mundo. É a dimensão «penitencial» da quaresma: reconhecimento do pecado e purificação desse mesmo pecado, através de um caminho de verdadeira conversão a Deus e ao seu amor. Mas será que temos consciência do mal e do pecado na nossa vida e estamos dispostos a expurgá-lo? Vivemos num tempo de grande confusão, por força da «ditadura do relativismo», e promove-se a despreocupação moral. O que é bem? O que é mal? Se formos fiéis à nossa consciência, ainda sabemos diferenciá-los bem, mas há, atualmente, uma forte tentação em fazermos um bem e um mal à nossa maneira, e a afirmação «eu é que sei e ninguém tem nada a ver com isso» está logo na ponta da língua. A não ser dentro das igrejas, não se fala de pecado na sociedade atual. Convencionou-se que falar de pecado é ser medievalista e anacrónico. Faz-me lembrar o professor Pangloss do jovem Cândido, vivemos no melhor dos mundos. Se eu for por este Portugal abaixo, não encontro uma pessoa que me diga que é má pessoa. Mas se lhe pedir para falar dos outros, não faltam ladrões, invejosos, bandidos, impostores e malfeitores. Ninguém tem culpa de nada e, se existem culpados, são sempre os outros. Ninguém assume que faz mal a uma mosca, mas anda tudo escandalizado e angustiado porque «isto está cada vez pior». Quem lê os jornais e vê os programas televisivos da manhã, que o diga. Depois, socialmente, há todo um discurso de desresponsabilização e de adormecimento da consciência: tudo acontece porque foram as circunstâncias que o proporcionaram. As pessoas são boas. Estão é na hora errada, no lugar errado. As pessoas são santas. O mundo à sua volta é que as corrompe e deforma. Se não fossem as circunstâncias e as influências, ninguém fazia coisas erradas. Será mesmo assim? Todos sabemos que não é bem assim. É preciso despertar e quebrar a crosta da nossa consciência, que não nos deixa chegar à verdade de nós mesmos e à verdade da nossa vida e de enfrentá-la sem rodeios. Cada um de nós, neste deserto quaresmal, é chamado a encontra-se com a verdade da sua vida, sem medo de a questionar e de se questionar a si mesmo, diante da verdade do ser homem, que Deus nos dá a conhecer em Jesus Cristo. Não seremos más pessoas (quem assim pense), mas temos de ser muito melhores do aquilo que somos, há uma perfeição humana que temos de alcançar, em sintonia com o bem e o amor por excelência, Deus. Um primeiro passo decisivo é enfrentarmos, com seriedade e humildade, o mal que está presente na nossa vida, mal esse que se ramifica em atitudes, comportamentos, valores, omissões, desculpas, sentimentos. E que cada um só olhe para si. Num deserto não há mais ninguém, só nós. É para si e só para si que cada um deve olhar, deixando cair todas as máscaras, todos os subterfúgios, todos os condicionalismos. Os outros vêm depois. O mal existe e são pessoas que o fazem, mas que não deviam fazê-lo. Há que crescer e melhorar. O mundo que temos, ou por aquilo que somos e fazemos ou por aquilo que deixamos de fazer e não somos, é obra de nós todos, nas suas devidas proporções.

O Papa Bento XVI, na sua mensagem para a quaresma deste ano, propõe aos cristãos o aprofundamento da fé e da caridade, na senda deste ano da fé que a Igreja está a celebrar. Uma vida cristã saudável e fecunda assenta numa verdadeira harmonia entre fé e caridade, já que uma não pode existir sem a outra e obrigatoriamente uma apela à outra (a inteligência pede um coração que viva e sinta e o coração pede uma inteligência que esclareça e oriente). Deus é amor. Quem responde e acredita neste amor, torna-se a si mesmo agente e comunicador deste amor aos outros. Se houver um desequilíbrio entre elas, não há uma reta vida cristã, desequilíbrio que se constata muito por aí nas palavras e na ação de muitos cristãos. Diz o Papa: «Nunca podemos separar e menos ainda contrapor fé e caridade. Estas duas virtudes teologais estão intimamente unidas, e seria errado ver entre elas um contraste ou uma «dialéctica». Na realidade, se, por um lado, é redutiva a posição de quem acentua de tal maneira o carácter prioritário e decisivo da fé que acaba por subestimar ou quase desprezar as obras concretas da caridade reduzindo-a a um genérico humanitarismo, por outro é igualmente redutivo defender uma exagerada supremacia da caridade e sua operatividade, pensando que as obras substituem a fé. Para uma vida espiritual sã, é necessário evitar tanto o fideísmo como o ativismo moralista». Há cristãos que sublinham o «acreditar», o dizer sim à existência de Deus e a conjunto de verdades daí decorrentes. O agir e operar logo se vê. Num primeiro momento, está bem. Mas não podemos ficar por aí. Acreditar em Deus significa penetrar e aderir a um mistério de amor vivo e sublime, que está na origem de todas as coisas. Esse mistério entra na nossa vida, pela nossa fé, transformando-nos e renovando-nos como pessoas humanas, fazendo-nos sentir obrigatoriamente a necessidade de o viver e levar aos outros. É como a árvore que, depois de ser invadida pela força da seiva, não pode deixar de dar frutos. Fé que não leve à caridade não é verdadeira fé. Há cristãos que sublinham a ação, o operar, salientado que o importante é o que se faz e não o que se pensa ou se diz. Somos muito tentados a ir por aqui. Não é por acaso que se diz «o que nos leva ao céu são as boas obras». Mas há um erro de base nesta conceção: quem nos garante que somos bons e que aquilo que fazemos está bem feito? Estaremos sempre dispostos a amar e a fazer o bem? Só ama quem aprende e permanece no amor. E Deus é o Amor. Se faço o bem e o faço bem feito é porque Deus me capacita para isso e me sustenta com a sua graça amorosa. Se assim não fosse, as minhas boas obras não passariam de jorros da minha intermitente boa vontade. Uma caridade prolífera tem de ter na sua retaguarda uma fé viva, dinâmica e sólida. 

Valerá a pena propor a quaresma ao mundo de hoje? A quaresma é uma graça, um dom cheio de dons para que a vida seja mais vida. Para muitos cristãos, em cuja vida Deus está muito ausente, a quaresma, erradamente, evoca um tempo de tristeza, de sacrifícios sem grande sentido, práticas fúnebres e sombrias, incómodos dispensáveis, precisamente numa sociedade que se sacrifica pelas dietas e outras coisas mais. Vivemos numa sociedade que sacralizou dois valores: o prazer e o divertimento sem limites. Propor alguma disciplina e emancipação deles é quase ser considerado um herege ou um desmiolado contemporâneo. Felicidade rima com euforia, corações excitados e acelerados, experiências atrás de experiências, sensações atrás de sensações, ruído, volúpia e fruição de toda a espécie. Tem lá algum sentido escolher o oposto disto? Quem procura ser mesmo cristão e viver a sério como cristão, aceita a quaresma e sente a sua necessidade. Composta de oração, escuta da Palavra de Deus, conversão e penitência, jejum e abstinência, partilha e caridade, é libertação, é maturação, é renovação, é um recomeçar de novo, é progredir, é refletir e rever para ser mais, é um ir beber de novo à fonte para continuar a caminhar, é morrer para o que tem de se morrer para se cantar com toda a força a vitória do amor e da vida no dia de Páscoa. Boa quaresma.


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