Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2013

Retomo aqui um tema que me continua a preocupar. Não param de sair na imprensa notícias ou relatos de pais e psicólogos sobre os efeitos perniciosos que o uso em demasia das novas tecnologias estão a exercer, sobretudo, sobre as crianças e os jovens, embora os adultos também não fiquem de fora. A tecnologia em si é boa e proporciona-nos uma eficiência e uma capacidade de trabalho como nunca ninguém teve e é uma fonte de lazer admirável. Mas é preciso lutar contra o fascínio e a dependência que ela cria, afetando gravemente a vida e as relações humanas. Penso que está a faltar alguma capacidade e determinação aos pais para educarem bem os filhos numa relação sã e equilibrada com o arsenal eletrónico que desde cedo lhes proporcionam.

Muitas crianças e jovens, segundo diz um vasto número de psicólogos e que muitos educadores não deixarão de facilmente reforçar, estão a chegar às escolas cheios de sono, devido ao facto de estarem nos computadores até tarde, nomeadamente a jogar online, com sério prejuízo para o seu rendimento escolar. Alguns até faltam mesmo à escola para jogar. Há pais que contam que, mesmo em casa, os filhos não comem nem vão à casa de banho horas a fio viciados nos jogos de computador ou outros, pedindo, inclusive, aos pais para lhes levarem as refeições aos quartos, não partilhando as refeições com a família. É inexplicável. Nestes casos, os pais estão a falhar redondamente na sua missão. Posso compreender que os pais sintam alguma paralisia diante destas novas realidades e que tenham ignorância face às novas tecnologias, visto que não cresceram com elas, ou que tenham, certos dias, pouca disponibilidade para estar com os filhos depois de um dia esgotante de trabalho. Mas podem impor disciplina e ordem e adquirir alguma formação neste campo. Constata-se que muitas crianças e jovens estão a crescer – na verdade, não estão a crescer - sem disciplina e sem regras, sem educação da vontade e dos desejos, julgando que a vida é só fazer o que nos apetece, o que não é verdade.

É preciso repensar urgentemente o uso excessivo da internet, onde estão, claro, as redes sociais e os jogos de computador, assim como de todos os outros meios eletrónicos que estão ao nosso dispor. Estão a tornar-se viciantes e a gerar níveis de dependência alarmantes. Como pároco, tenho o privilégio de estar com crianças e com jovens e de contribuir para o seu crescimento moral, humano, espiritual e religioso, e não deixo de observar com inquietação os efeitos nefastos que o uso excessivo das novas tecnologias estão a provocar, que catequistas e outros educadores, com quem contacto, corroboram. Que efeitos são esses? Dificuldades de aprendizagem, fraca memorização dos conhecimentos essenciais, dificuldades de convivência e de partilha com os outros, incapacidade de reflexão e de raciocínio, comportamento insuportável, falta de atenção e de concentração, embaraço em respeitar e viver o silêncio, agressividade, infantilização, desinteresse, hiperatividade. Aliás, para este efeito são interessantes as explicações que se dão. Para alguns casos, até poderá ser mesmo uma questão que exige uma solução médica, mas muitos casos de hiperatividade é má educação. Até alguns adultos revelam alguns destes sintomas, basta participar em alguns casamentos ou batizados. Todos estes efeitos poderão ter outras origens, mas não tenho dúvidas de que muito se deve ao desregramento e à intemperança no convívio com as novas tecnologias e na ausência de instrução competente.

Penso que, a longo e médio prazo, esta sujeição doentia ao ócio tecnológico não deixará de apresentar a fatura. Sem ser pessimista e sem generalizar, é claro, poderemos ter pessoas desequilibradas, seriamente afetadas no seu desenvolvimento e na sua maturidade humana e psicológica, com dificuldades na relação e na convivência com os outros, inaptas para assumir uma disciplina de vida, responsabilidades e compromissos, sem espirito de abnegação e de sacrifício, pessoas com grande instabilidade emocional e afetiva, com fraca postura individual e social, assim o realismo da vida me vai mostrando.

No trilho do que propõe um bom número de psicólogos e psiquiatras, há que estabelecer equilíbrio no uso das novas tecnologias e apostar mais, em família, noutras ações e atividades saudáveis, que possibilitam uma maior humanização e enriquecimento intelectual e emocional: ler bons livros, ir ao cinema e ao teatro ou outros eventos interessantes, aprender música e dedicar-se a um instrumento musical, praticar desporto, privilegiar o convívio real com amigos, dar tempo a associações e movimentos, entre outros. Tem-se muito mais a ganhar do que ficar especado diante de um ecrã na solidão de um quarto.



publicado por minhasnotas às 15:03 | link do post | comentar

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