Segunda-feira, 2 de Julho de 2012

Estamos a viver a euforia tecnológica. Temos hoje uma parafernália de objetos eletrónicos sofisticados que nos possibilitam uma capacidade de trabalho e um entretenimento que nenhuma geração teve, desde os telemóveis, os computadores, os ifones, ipods, ipads, mp3s, mp4s, televisores, câmaras de vídeo, máquinas fotográficas, entre outros. O que antes nos fazia perder uma fiada de horas, hoje faz-se rapidamente com meia dúzia de cliques e de forma tão apelativa e mágica, que poucos lhe conseguem resistir. A facilidade e o resultado são surpreendentes. Comunicamos a toda a hora, despachamos em segundos, ultrapassamos problemas em minutos, solucionamos num estalar de dedos, preenchemos tempos mortos, podemos divertir-nos a toda a hora. Ganhámos tempo? Pelos vistos não. Todos nos queixamos que o tempo é pouco e não dá para tudo. Todos julgávamos que, fazendo-se tudo mais depressa, nos iria sobrar tempo para o lazer, a família e os amigos. Mas, afinal, também a nossa vida acelerou. Se antes fazíamos uma coisa de cada vez, hoje fazemos muitas coisas ao mesmo tempo, porque sabemos que temos ferramentas para o fazer. São tantas as solicitações e as necessidades ao mesmo tempo, que não sobra tempo. Estaremos feitos para aguentar esta vertigem incontrolável? Não sabemos. Daqui a uns anos saberemos.

 

É maravilhoso que todo este arsenal tecnológico esteja ao nosso dispor. Mas a nossa relação com ele deve ser seriamente pensada. Já se começam a notar níveis de dependência e escravidão altamente preocupantes. Quem já não viu pessoas a mandarem mensagens de telemóvel freneticamente, de minuto a minuto? Quem já não sentiu que muitas pessoas passam horas e horas em frente de uma televisão? Quem já não reparou que a maior parte do tempo que os filhos passam em casa é a jogar jogos de computador, em prejuízo da relação com os pais e com os irmãos ou até de outras atividades bem mais importantes? Quem já não notou que há pessoas que precisam de estar a falar com alguém a todo o momento, nem seja a ligar ao filho ou à filha a ver se está tudo bem ou a discutir assuntos banais com amigos? Quem já não pressentiu que muita gente recorre ao entretenimento da tecnologia para ir tapando o vazio da vida e ir passando uma vida sem sentido?

 

Há duas consequências óbvias deste big bang tecnológico que explodiu nos últimos anos: cresceu o individualismo e a alienação da sociedade. Não há muito tempo, a rua era o centro da convivência, da brincadeira e da estroinice. Para se fazer o quer que fosse, as pessoas tinham de se descolar às instituições e às repartições, frequentar a praça pública, pelo meio aconteciam encontros e reencontros, partilhas e entreajudas. Hoje, podemos fazer quase tudo isto de nossa casa, através de um computador ou de um telemóvel. Vive-se mais em casa e grande parte do tempo livre é investido nos interesses e apetites de cada um. Reparemos como educamos as crianças e os jovens: muitas e muitos deles crescem no cantinho do seu quarto, rodeados de coisas e mais coisas, de aparelhos e mais aparelhos, dando-se-lhe a entender que o importante é ele e só ele e o seu bem-estar, o mais hedonista possível. O pai e a mãe limitam-se a indagar quando é que o menino quer comer. As relações humanas estão mais frágeis e efémeras. A convivência é mais residual e mais interesseira e menos interessada. Mas não tenhamos dúvidas de que o individualismo nos torna mais pobres, ou seja, menos humanos, e possibilita a nossa deterioração como pessoas humanas. A médio prazo é fonte de problemas psicológicos, humanos, sociais e espirituais.

 

Preocupante no mesmo grau ou ainda mais, é o segundo efeito do boom tecnológico que nos invadiu nos últimos tempos: a alienação das pessoas. Quando falamos de alienação, de que estamos a falar? Estamos a querer dizer que as pessoas são levadas a viver uma vida fora da verdadeira vida que deveriam viver e para a qual estão estruturadas como pessoas, vivem uma vida alheada, assim levadas ou de «fuga» à vida humana e real que deveriam viver enquanto pessoas humanas, que elas mesmas criam para si mesmas. Estar alienado é estar a viver uma vida falsa e de escape, estar na vida sem viver e encarar a vida. É inquestionável e facilmente verificável que a tecnologia, com a grande variedade de produtos que oferece, tão fáceis e fascinantes, alguns sabiamente servidos, está a alienar as pessoas. O exemplo mais claro é a televisão: filmes, documentários, jogos de futebol e programas a toda a hora. Convida a estar horas e horas em frente de um televisor, sem pensar em mais nada e sem se preocupar com mais nada. Convida à diversão e ao entretenimento a toda a hora. Faz das pessoas meros assistentes passivos da vida e dos acontecimentos. A internet é todo um mundo a nossos pés, que serve tudo em poucos segundos, à vontade de cada um, conforme os humores e os apetites. O cardápio de jogos para telemóvel ou computador é enorme, para se estar em divertimento permanente. E o quanto mais se poderia enumerar. Tudo isto tem algum mal? Em si, as coisas não são más, mas o recurso permanente a elas, como forma de se fugir da vida e de não se pensar a vida, é um grande mal e um grande problema, que temos de repensar urgentemente. Há uma distracção doentia que faz com as pessoas não organizem e não reflictam sobre a vida, não encarem os problemas e as dificuldades que têm, não se questionem sobre as verdadeiras razões da sua existência e não estabeleçam os laços e construam as pontes para uma vida humana vivida de forma saudável e fecunda. É induzido um esquecimento e uma abstracção às pessoas, uma vida irreal, que não possibilite o confronto com a realidade, a verdade da vida, que não as deixa ser pessoas e viverem verdadeiramente com pessoas e que não lhes dá tempo para procurarem um sentido pleno para a sua vida.

A tecnologia é boa. Mas temos de saber doseá-la e não deixarmos que nos torne dependentes e nos arraste para a alienação da vida e da relação com os outros.



publicado por minhasnotas às 15:35 | link do post | comentar

mais sobre mim
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


posts recentes

S. Teresa de calcutá

será o facebook o novo co...

entrevista do papa franci...

visita do papa à arménia

prevenção dos incêndios

Monsenhor Ângelo minhava

P. Arnaldo Moura

a festa dos jogos olímpic...

a jornada mundial da juve...

gestação de substituição

imagem peregrina para per...

o corpo é que paga

o algoísmo

Comunicação e misericórdi...

viver sem sentido

a alegria do amor

Respeitar o domingo

Diálogos imprevistos

Umberto eco

imagem peregrina para per...

o drama do suicídio

tempos de apatia

Um testemunho: Fernando S...

O que é o pecado original...

o que é a salvação?

o que é ser um católico p...

a debandada da juventude

as nossas liturgias

simpósio do clero

Os caminhos de S. Tiago

S. Teresa de Ávila

tempo para pensar

repensar as festas cristã...

a importância das velhas ...

O polémico teste da amame...

a cultura da humilhação

Elogio da loucura

o uso do latim

missas à la carte

Sociedade e violência

a compaixão mundana

Lições de Paris

perplexidades à volta da ...

a existência de deus

A cremação

As vocações

O prémio nobel da paz

Santuários de Humanidade

Será a missa uma seca?

o espírito do mundo

arquivos

Fevereiro 2017

Outubro 2016

Setembro 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

tags

25 de abril

aborto

abstenção

acesso das mulheres ao sacerdócio

advento

alienação

ano da fé

ano sacerdotal

ateísmo

ateísmo prático

átrio dos gentios

bach

beça

bento xvi

boticas

caça

casamento

casamento homossexual

celibato

compromisso cristão

comunicação

comunicação com os mortos

comunicação social

consumismo

conversão

cooperação

crença

crescimento

crise

cristianismo tecnológico

cristiano ronaldo

cristo rei

culpa

cultura

d. manuel martins

d. ximenes belo

decência

deolinda

deolinda; hino nacional

deus

discipulado

drogas

educação

eleições

encíclica caridade na verdade

ensino

escola

estado social

ética

europa

europeias

família

fátima

fé/razão

feriados

festas cristãs

fragilidade

função sacerdotal

funeral

furtar

haiti

heróis

história

homem

homem light

igreja

igreja católica

igreja e pedofilia

imagem de deus

indiferença religiosa

inferno

inquisição

interior

internet

jornada mundial da juventude

jornadas

josé rodrigues dos santos

josé saramago

juventude

laicidade

liberdade religiosa

marinho e pinto

maroon 5

mediatismo

miguel sousa tavares

missa dominical

morte

natal

novas gerações

novas tecnologias

padre

política

quaresma

relativismo

sacerdote

ser padre

sociedade

televisão

terceira idade

violência doméstica

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds