Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

1.O mistério adensa-se: que musa inspiradora terá sussurrado ao ouvido do Senhor Ministro da Economia, que a eliminação de alguns feriados contribuirá para um palpável crescimento económico do país? Que intuição cintilante o sobressaltou numa noite de compenetrada meditação, para não duvidar que mais quatro dias de trabalho permitirão fazer renascer o país das cinzas da crise? Que honrosa lucubração o Senhor Ministro fez, à luz da lua, para se sentir assaz convencido de que o país tem feriados a mais e que arrumando alguns «isto» vai começar a andar? Já perceberam que estou a recorrer à ironia para manifestar a minha não concordância, até estupefacção, com a decisão do Governo em abolir alguns feriados civis e religiosos, com a colaboração da Igreja, fazendo, assim, coro fácil, admita-se, com um bom número de cidadãos portugueses. Futuramente, serão suprimidos o 5 de Outubro e o 1 de Novembro e o Corpo de Deus e o 15 de Agosto. É um disparate. Até um iletrado em economia não terá dificuldade em perceber que o impacto desta decisão na economia real será ínfimo. E cheira a tique de capataz carrancudo, que está sempre à espreita para chibatar o mandrião ou para sorver mais umas gotas de suor ao calaceiro.  As pontes, sim, precisavam de uma nova abordagem, porque eram um exagero. Os feriados, não tem o mínimo sentido.  

É verdade que muitos portugueses, que agora manifestam uma indignação irreprimível, não ligam patavina a estes feriados. Muitos, aproveitam-nos para dormir, passear, ir às compras, ir à caça, fazer não sei que mais, sem qualquer ligação à sua celebração. Muitos nem saberão a razão da sua existência. Desde que não se trabalhe, está tudo bem. Mas, seja como for, estão lá para servirem de marcos à nossa caminhada histórica e à construção da nossa identidade, estão lá para comunicarem valores fundamentais e serem apelativos à união, pelo menos nas intenções, apesar de Vasco Pulido Valente opinar que nunca deveriam ter sido proclamados, porque não celebram o que parecem querer celebrar. Tanto ardor e aferro em celebrar os 100 anos da República, não há muito tempo, e sem a mínima hesitação acaba-se com o feriado que recorda a sua implantação. Pior do que estarmos pobres, é não termos memória e perdermos o fio à meada da nossa razão de ser e a gratidão que devemos aos que nos ajudaram a chegar à nossa condição histórica. Bom ou mau, o passado está lá e não devemos esquecê-lo, quanto mais não seja para aprendermos com ele. Os feriados são para isso. E, honestamente, esperava que a cúpula da Igreja pudesse ter recomendado mais sensatez ao governo nesta decisão incompreensível. Os verdadeiros problemas económicos do país são outros: baixa produtividade; pouca qualificação de empresários e trabalhadores; má gestão e organização empresarial; colagem excessiva ao Estado; uma educação insuficiente; incompetência e corrupção; entre outros. Já está dito e redito: os dias de trabalho já são suficientes. Temos é de trabalhar melhor e melhorar a nossa cultura de trabalho. Não são mais quatro dias de trabalho, ainda por cima promovendo amnésia histórica e cultural, que vão minorar milagrosamente os efeitos nefastos daqueles factores e catapultar o país para os níveis que os mercados aplaudam.

2.Continua o flagelo dos nossos idosos. Como vivemos numa sociedade materialista, comodista e do bem-estar, da produção e do capital, não era difícil adivinhar que esta realidade iria surgir mais tarde ou mais cedo. Os idosos já não têm força, não produzem, estão cheios de maleitas, são embirrentos e impacientes, dão um trabalhão dos diabos, não têm autonomia. Claro, não interessam a ninguém, a não ser que ainda não tenham assinado os papéis e revelado as contas que interessam aos seus «digníssimos familiares». A nossa sociedade não o diz, mas há muito que os considera um peso e um estorvo, material descartável. A uns, arruma-os como pode e, em muitos casos, bem, a outros despreza-os e abandona-os. Como não podia deixar de ser, aparecem mortos em suas casas. Repito: isto revela muito a crise de humanidade que estamos a viver, numa cultura doentiamente egoísta, materialista, individualista e relativista. É esta a consideração e o fim que merecem os idosos? O que se pode dizer de uma sociedade que abandona e despreza os que mais contribuíram para ela? Que mundo andamos a construir, se os que mais respeito e amor deveriam ter são quase tratados como lixo?

Está na hora de repensarmos o nosso modelo de sociedade e a nossa forma de sermos pessoas e de interagirmos uns com os outros. Uma sociedade em que a mulher não tem tempo para a gravidez e as famílias não têm tempo para cuidar dos seus idosos, é uma sociedade mal concebida desde os alicerces e humanamente desestruturada e alienada. No mundo, o mais importante são as pessoas. Tudo deve estar ao seu serviço e toda a organização social deve favorecer os meios e as estruturas para se atingir o bem de todas as pessoas e a sua interacção. Hoje em dia, impera uma cultura que privilegia o dinheiro e o consumismo. Quanto mais dinheiro se tem, mais se quer consumir e quanto mais se consome e se quer consumir, mais dinheiro se tem que ter. E anda-se assim neste círculo vicioso, não se apercebendo as pessoas de que são escravas desta lógica, que as empobrece e afasta umas das outras. Anda tudo a correr. Não há tempo para nada. Porque o que importa é o seu dinheiro e o seu bem individual, as pessoas fogem umas das outras, porque «têm mais que fazer». A atenção aos outros é residual. E assim se vai andando, faltando a consciência de que estamos cada vez mais sós e definhados humanamente. Não privilegiamos o amor e atenção aos outros, que deveria ser um dos valores cimeiros da nossa hierarquia de valores.

Podemos multiplicar os mecanismos e as estruturas para se identificarem e sanarem os problemas e as necessidades dos idosos. Mas não nos esqueçamos que esse não é o «problema». O problema está em nós e na cultura humana e social que erigimos nas últimas décadas, que tem de ser reconstruída, colocando-se as pessoas e as suas relações em primeiro lugar.


tags:

publicado por minhasnotas às 12:02 | link do post | comentar

mais sobre mim
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


posts recentes

S. Teresa de calcutá

será o facebook o novo co...

entrevista do papa franci...

visita do papa à arménia

prevenção dos incêndios

Monsenhor Ângelo minhava

P. Arnaldo Moura

a festa dos jogos olímpic...

a jornada mundial da juve...

gestação de substituição

imagem peregrina para per...

o corpo é que paga

o algoísmo

Comunicação e misericórdi...

viver sem sentido

a alegria do amor

Respeitar o domingo

Diálogos imprevistos

Umberto eco

imagem peregrina para per...

o drama do suicídio

tempos de apatia

Um testemunho: Fernando S...

O que é o pecado original...

o que é a salvação?

o que é ser um católico p...

a debandada da juventude

as nossas liturgias

simpósio do clero

Os caminhos de S. Tiago

S. Teresa de Ávila

tempo para pensar

repensar as festas cristã...

a importância das velhas ...

O polémico teste da amame...

a cultura da humilhação

Elogio da loucura

o uso do latim

missas à la carte

Sociedade e violência

a compaixão mundana

Lições de Paris

perplexidades à volta da ...

a existência de deus

A cremação

As vocações

O prémio nobel da paz

Santuários de Humanidade

Será a missa uma seca?

o espírito do mundo

arquivos

Fevereiro 2017

Outubro 2016

Setembro 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

tags

25 de abril

aborto

abstenção

acesso das mulheres ao sacerdócio

advento

alienação

ano da fé

ano sacerdotal

ateísmo

ateísmo prático

átrio dos gentios

bach

beça

bento xvi

boticas

caça

casamento

casamento homossexual

celibato

compromisso cristão

comunicação

comunicação com os mortos

comunicação social

consumismo

conversão

cooperação

crença

crescimento

crise

cristianismo tecnológico

cristiano ronaldo

cristo rei

culpa

cultura

d. manuel martins

d. ximenes belo

decência

deolinda

deolinda; hino nacional

deus

discipulado

drogas

educação

eleições

encíclica caridade na verdade

ensino

escola

estado social

ética

europa

europeias

família

fátima

fé/razão

feriados

festas cristãs

fragilidade

função sacerdotal

funeral

furtar

haiti

heróis

história

homem

homem light

igreja

igreja católica

igreja e pedofilia

imagem de deus

indiferença religiosa

inferno

inquisição

interior

internet

jornada mundial da juventude

jornadas

josé rodrigues dos santos

josé saramago

juventude

laicidade

liberdade religiosa

marinho e pinto

maroon 5

mediatismo

miguel sousa tavares

missa dominical

morte

natal

novas gerações

novas tecnologias

padre

política

quaresma

relativismo

sacerdote

ser padre

sociedade

televisão

terceira idade

violência doméstica

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds