Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

No dia 18 de Dezembro de 2011, Domingo, alvores da semana de Natal, uma notícia sobressaltou os espíritos e lançou pesar em muitos rostos: acabava de falecer Vaclav Havel, antigo presidente da Checoslováquia, depois República Checa. Vaclav Havel é uma das grandes figuras do séc. XX. Um pensador político de grande prestígio. Apesar de ter desenvolvido toda a sua actividade política, intelectual e social no seu país natal, era um «cidadão da Europa e do mundo», admirado e respeitado por todos. Ao longo de 75 anos, entregou-se a uma intensa actividade literária, como escritor e dramaturgo, e a uma coerente e determinada intervenção cívica e política. Liderou a denominada «Revolução de Veludo», em 1989, revolução pacífica que pôs fim ao governo comunista na Checoslováquia, instaurando a democracia, revolução que inspirou muitas revoluções não agressivas em muitas partes do mundo, operando-se a transição de ditaduras totalitárias para regimes democráticos. Apesar de ter sofrido muito com as muitas tentativas do regime comunista para o amordaçar, ao longo de toda a sua vida foi um intrépido e intransigente defensor dos direitos humanos e da liberdade. Liberdade que viu finalmente despontar após a queda do muro de Berlim, início do colapso do comunismo. Pelo seu carácter e pela sua conduta, e pela sua densidade humana e intelectual, conquistou a auréola de «sábio», com alguma dose de profetismo, que poucos podem exibir, sendo reverencialmente lido e escutado. É o que vos proponho fazer nas próximas linhas, que teve eco em alguma imprensa.

Quem ao de longe ou de perto foi acompanhando o seu pensamento, em que teve sempre o cuidado de alertar para os desvarios e as imprudências da Europa e um pouco do resto do mundo, - do seu ponto de vista, é esse o papel do intelectual - não pode deixar de se sentir questionado e interpelado. Numa das últimas conferências que proferiu, lançou a perturbação sobre os seus ouvintes: «Vivemos na primeira civilização ateia, por outras palavras, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade», o que, na sua opinião, terá consequências devastadoras para a realização do homem e o rumo da humanidade, levando, por exemplo, a pensar que «o que é importante é que um investimento seja rentável em dez ou 15 anos: o modo como afectará as vidas dos nossos descendentes dentro de cem anos é menos importante.» As gerações anteriores à nossa, conscientes da finitude humana e escrupulosamente atentas ao futuro, tiveram sempre a preocupação de procurar um infinito e de deixarem o mundo bem organizado, assim como um legado moral às gerações vindouras. Se nem sempre o fizeram bem, foi essa a sua intenção. Actualmente, reina o curto e médio prazo, o viver só aqui e agora, sem qualquer preocupação moral, sem busca de uma plenitude ou ligação a uma eternidade, importando muito pouco o que aí vem e como viverão os que aí vêm. Não é a atitude correcta de quem se diz responsável e eticamente evoluído.

Na sua sapiência pungente, Havel não deixa de apontar um dos grandes pecados da modernidade e da contemporaneidade: o pecado do orgulho, que nos leva a ser arrogantes. Reina a «ideia arrogante de que conhecemos tudo e que aquilo que ignoramos depressa o descobriremos, porque vamos saber tudo.» Como não ver aqui uma chamada de atenção à ciência, que se tem arvorado em senhora e juíza da verdade, fazendo dos laboratórios os tribunais da verdade e nada considerando como certo e digno de ser aceite que não encaixe nas suas equações matemáticas, julgando que pode saber tudo e explicar tudo? Como não ver aqui um convite a moderar a insolência de se proclamar a não existência de Deus, como muitos ateus fazem sem a mínima reserva? O que é que sabemos ao certo da existência ou não existência de Deus? Qual é a pressa em expulsar Deus da vida e do mundo? Como não ver aqui um apelo aos tantos técnicos, especialistas e senhores doutores para que percam os tiques de pedantismo e de sobranceria intelectual, julgando-se detentores de um «iluminismo» absoluto contra as trevas? Como não ver aqui uma apelação a se diminuir a altivez da actual geração científica e tecnológica em relação às gerações ou épocas passadas, denominadas obscurantistas, que nos ajudaram a ser o que somos hoje? Continua Havel: «Nós esquecemos o que as anteriores civilizações sabiam: nada é evidente por si mesmo. Penso que a recente crise financeira e económica é de extrema importância e constitui, na sua essência, um eloquente sinal para o mundo contemporâneo.» Nos últimos anos ou décadas, o homem perseguiu insistentemente, com uma fé cega e impenetrável, o sonho diabólico de ser definitivamente senhor de si e do mundo, livre de todos os empecilhos e de todas as amarras. Rebentou a crise e escancarou-se a fragilidade humana e do mundo omnipotente que julgávamos que andávamos a construir. Perdeu-se a humildade das gerações anteriores, que tinham plena consciência de que não somos donos de tudo e que não podemos controlar tudo e que nunca se deve perder de vista a fraqueza e a precariedade do homem sobre a face da terra. A actual crise é «um aviso contra a desproporcionada autoconfiança e o orgulho da civilização moderna. O comportamento humano não é totalmente explicável como muitos inventores de teorias e conceitos económicos acreditam. Vejo a recente crise como um pequeno apelo à humildade. Como um pequeno desafio para que não tomemos nada como automaticamente garantido.» E lança o apelo urgente: caminharemos para a catástrofe se a nossa civilização não corrigir «a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho.» E mais sofrimento virá se o homem actual não abandonar a sua jactância, percebendo de uma vez por todas «quão incrivelmente míope pode ser um ser humano ao esquecer que não é Deus».

Apesar de não ser um crente fervoroso, longe disso, e de não estar inclinado para nenhuma religião – era um agnóstico, nas suas palavras, um meio crente - salienta a importância da dimensão religiosa e espiritual do homem, abertas a uma transcendência, e a importância de se viver com horizontes metafísicos: «Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos. Quanto a mim, sou apenas meio crente, pois não adiro completamente nem a um único deus, nem a uma religião revelada. Tenho, no entanto, a certeza de que tudo no mundo não é apenas efeito do acaso. Estou convencido de que há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina."E conclui peremptoriamente: «A transcendência é a única alternativa real à extinção».

A finalizar, já antevendo a crise que se iria abater sobre a Europa, por causa da cartilha que inspira os governantes europeus, sublinharia numa entrevista de 2007: «O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. O pragmatismo dos políticos que querem ganhar eleições futuras, reconhecendo como suprema autoridade a vontade e os humores duma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes.»

Os sábios são faróis que brilham na escuridão, astros que nos ensinam a ver com mais clarividência e profundidade. Saibamos nós ter a humildade suficiente para os sabermos escutar. Paz à sua alma.



publicado por minhasnotas às 11:07 | link do post | comentar

mais sobre mim
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


posts recentes

S. Teresa de calcutá

será o facebook o novo co...

entrevista do papa franci...

visita do papa à arménia

prevenção dos incêndios

Monsenhor Ângelo minhava

P. Arnaldo Moura

a festa dos jogos olímpic...

a jornada mundial da juve...

gestação de substituição

imagem peregrina para per...

o corpo é que paga

o algoísmo

Comunicação e misericórdi...

viver sem sentido

a alegria do amor

Respeitar o domingo

Diálogos imprevistos

Umberto eco

imagem peregrina para per...

o drama do suicídio

tempos de apatia

Um testemunho: Fernando S...

O que é o pecado original...

o que é a salvação?

o que é ser um católico p...

a debandada da juventude

as nossas liturgias

simpósio do clero

Os caminhos de S. Tiago

S. Teresa de Ávila

tempo para pensar

repensar as festas cristã...

a importância das velhas ...

O polémico teste da amame...

a cultura da humilhação

Elogio da loucura

o uso do latim

missas à la carte

Sociedade e violência

a compaixão mundana

Lições de Paris

perplexidades à volta da ...

a existência de deus

A cremação

As vocações

O prémio nobel da paz

Santuários de Humanidade

Será a missa uma seca?

o espírito do mundo

arquivos

Fevereiro 2017

Outubro 2016

Setembro 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

tags

25 de abril

aborto

abstenção

acesso das mulheres ao sacerdócio

advento

alienação

ano da fé

ano sacerdotal

ateísmo

ateísmo prático

átrio dos gentios

bach

beça

bento xvi

boticas

caça

casamento

casamento homossexual

celibato

compromisso cristão

comunicação

comunicação com os mortos

comunicação social

consumismo

conversão

cooperação

crença

crescimento

crise

cristianismo tecnológico

cristiano ronaldo

cristo rei

culpa

cultura

d. manuel martins

d. ximenes belo

decência

deolinda

deolinda; hino nacional

deus

discipulado

drogas

educação

eleições

encíclica caridade na verdade

ensino

escola

estado social

ética

europa

europeias

família

fátima

fé/razão

feriados

festas cristãs

fragilidade

função sacerdotal

funeral

furtar

haiti

heróis

história

homem

homem light

igreja

igreja católica

igreja e pedofilia

imagem de deus

indiferença religiosa

inferno

inquisição

interior

internet

jornada mundial da juventude

jornadas

josé rodrigues dos santos

josé saramago

juventude

laicidade

liberdade religiosa

marinho e pinto

maroon 5

mediatismo

miguel sousa tavares

missa dominical

morte

natal

novas gerações

novas tecnologias

padre

política

quaresma

relativismo

sacerdote

ser padre

sociedade

televisão

terceira idade

violência doméstica

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds