Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Num destes dias, depois de um agradável dia de caça, cheguei a casa tranquilamente. Após colocar tudo no seu devido lugar, procurei o meu telemóvel num bolso do colete de caça e népias, nem vê-lo. Vasculhei cuidadosamente toda a roupa que usei, assim como o jipe, nenhum rasto do telemóvel. Possivelmente, ao passar em alguma vegetação mais densa ou num qualquer salto mais ousado, sem que eu minimamente me apercebe-se, saltou-me do bolso. Mas onde? Experimentei com algum horror o que é ficar incontactável. E logo um padre, que a todo o momento pode ter uma urgência ou ter de tomar uma decisão.

Puxei atrás o filme do dia de caça. Vários poderiam ser os locais onde a perda poderia ter acontecido. Quanto mais pensava, quanto mais sentia a ansiedade a tomar conta de mim. O que me preocupava não era tanto o telemóvel, mas o cartão. Que chatice ter de mudar de número. Depois de minuciosamente analisar o dia, uma cena fixava a minha atenção: já o dia declinava, mandei um tiro a um coelho que se raspava ao dobrar de uma encosta. Após o visível insucesso do tiro, corri desesperadamente pela encosta acima, na esperança de ainda encontrar o coelho, numa parte queimada da encosta. Mais uma vez, népias. Viva o gesto do Zé-povinho! Tinha absoluta certeza de que, na minha sôfrega perseguição, perdi o telemóvel. Bem, já era noite, tomei a decisão de de manhãzinha ir à procura do meu contacto com o mundo.

Chegado à serra, para surpresa minha, senti-me confuso, talvez um pouco toldado pelo desespero. A mata era relativamente densa, os penedos eram muitos e eram visíveis algumas partes queimadas pela serra. Estava montado o cenário para procurar uma agulha no palheiro. Seja como for, defini alguns trilhos e comecei a procurar. Em vão. Nem sombra do telemóvel. Repeti. Nada. O pensamento de desistência, contra a minha moral, começava a impor-se. Decidi fazer uma última ronda mais lenta e aturada. Junto a uma carqueja, encontrei o invólucro do cartuxo que serviu para assustar (não foi outra coisa e desculpem o pecado de ter deixado o cartuxo vazio na serra) o coelho, naquele fim de tarde. Soou o sinal de alarme. Foi a partir dali que comecei a perseguição ao foragido. Rapidamente senti clareza na memória e comecei a palmilhar o mais que certo trajecto da perseguição. Não demorou muito, no meio de uma copiosa urze, encontrei o telemóvel. Ufa, que alívio! Não tinha chamadas perdidas, apenas exibia uma mensagem da operadora a propor novos serviços.

Como tenho o hábito de retirar sempre algo de bom do que vivo, não deixei de pensar em todo o enredo durante algumas horas. Abençoado cartuxo, que me salvou naquela manhã. Sem aquele sinal, a minha procura, possilmente, teria outro desfecho, bem mais desagradável. 

A nossa descoberta de Deus e a nossa relação com Deus é feita com e por sinais, que Deus vai colocando na nossa caminhada individual e comunitária. Como muito bem diz S. João, «a Deus nunca ninguém o viu» e não poderemos ver enquanto homens terrenos. Mas Deus não deixa de se revelar e não deixa de convidar, chamar e interpelar, só que o faz com sinais. Ao homem cabe encontrar e interpretar esses sinais e ir progredindo na confiança, na esperança e na comunhão, vivendo cada vez mais de Deus e para Deus. Dificilmente poderíamos abarcar a grandeza e beleza de Deus em meia dúzia de horas ou de Dias. Por isso, Deus serve-se da pedagogia dos sinais. Por intermédio destes, Deus dá tempo ao homem, deixa ir amadurecendo, dá tempo ao homem para ir aprendendo a amar e a entrar no mistério de Deus, age de forma que a liberdade humana não seja esmagada.

Que sinais Deus nos dá? Tantos. Desde logo a vida, cuja origem é um mistério, mas porque é mistério abre-me para Deus. A personalidade única e irrepetível de cada pessoa humana. A ordem da criação e a sua harmonia. Um coração sedento de vida e de eternidade. As muitas situações interpelantes do dia-a-dia da vida. Entre outros. No campo mais restrito da caminhada da fé, o Baptismo, a Eucaristia e todos os outros sacramentos, a Igreja em si mesma. A autenticidade da vida de um santo. A entrega de tantas pessoas que se empenham em elevar a vida do mundo. Os sinais dos tempos de cada tempo. E não esquecendo, claro, o grande sinal de Deus à humanidade: Jesus Cristo, Filho de Deus incarnado.

A vida é ir caminhando, lendo e aprofundando os sinais de Deus. Ser crente é isso mesmo: ver além de e para além de, sabendo descobrir o bafo de Deus na vida e na história, em ordem a uma plenitude. Não ser crente é viver a vida toda colado às aparências, querendo sempre provas de tudo, não se apercebendo que com Deus não se vive de provas, mas de sinais.

Uma das maiores tontices que muita gente apresenta para não acreditar em Deus é a constatação de «nunca o viu», nem há provas da sua existência. Ainda bem. No dia em que víssemos Deus olhos nos olhos, ficaríamos esmagados como homens. O que dá força e credibilidade à história da salvação é que Deus dá espaço ao homem, guarda distâncias, para que o homem seja homem e aprenda a ser pessoa humana com os outros. Até ao dia da «visão clara», quando formos semelhantes a Ele, Deus fala-nos por sinais.

Está a começar o tempo do advento na Igreja. É tempo para nos lembrar que temos de estar sempre atentos e vigilantes aos sinais de Deus, às suas muitas visitas à nossa vida e à vida do mundo. Infelizmente, o homem facilmente cede ao sono e ao comodismo: entrega-se ao mais fácil, passa a sua responsabilidade para os outros, refastela-se nos prazeres da vida, escraviza-se ao imediato do dia-a-dia, arrumando na gaveta os horizontes da vida. Mas não demorará muito a perceber que constrói uma vida vazia e pobre, porque onde Deus não está ou onde Deus não chega, dificilmente a vida pode ser mesmo vida. Saibamos neste advento abrir as portas da vida e do coração a este Deus, que nos quer ajudar a ser homens e mais do que homens, filhos autênticos, no seu próprio filho, feito homem, grande sinal de Deus a toda a humanidade.



publicado por minhasnotas às 21:47 | link do post | comentar

mais sobre mim
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


posts recentes

S. Teresa de calcutá

será o facebook o novo co...

entrevista do papa franci...

visita do papa à arménia

prevenção dos incêndios

Monsenhor Ângelo minhava

P. Arnaldo Moura

a festa dos jogos olímpic...

a jornada mundial da juve...

gestação de substituição

imagem peregrina para per...

o corpo é que paga

o algoísmo

Comunicação e misericórdi...

viver sem sentido

a alegria do amor

Respeitar o domingo

Diálogos imprevistos

Umberto eco

imagem peregrina para per...

o drama do suicídio

tempos de apatia

Um testemunho: Fernando S...

O que é o pecado original...

o que é a salvação?

o que é ser um católico p...

a debandada da juventude

as nossas liturgias

simpósio do clero

Os caminhos de S. Tiago

S. Teresa de Ávila

tempo para pensar

repensar as festas cristã...

a importância das velhas ...

O polémico teste da amame...

a cultura da humilhação

Elogio da loucura

o uso do latim

missas à la carte

Sociedade e violência

a compaixão mundana

Lições de Paris

perplexidades à volta da ...

a existência de deus

A cremação

As vocações

O prémio nobel da paz

Santuários de Humanidade

Será a missa uma seca?

o espírito do mundo

arquivos

Fevereiro 2017

Outubro 2016

Setembro 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

tags

25 de abril

aborto

abstenção

acesso das mulheres ao sacerdócio

advento

alienação

ano da fé

ano sacerdotal

ateísmo

ateísmo prático

átrio dos gentios

bach

beça

bento xvi

boticas

caça

casamento

casamento homossexual

celibato

compromisso cristão

comunicação

comunicação com os mortos

comunicação social

consumismo

conversão

cooperação

crença

crescimento

crise

cristianismo tecnológico

cristiano ronaldo

cristo rei

culpa

cultura

d. manuel martins

d. ximenes belo

decência

deolinda

deolinda; hino nacional

deus

discipulado

drogas

educação

eleições

encíclica caridade na verdade

ensino

escola

estado social

ética

europa

europeias

família

fátima

fé/razão

feriados

festas cristãs

fragilidade

função sacerdotal

funeral

furtar

haiti

heróis

história

homem

homem light

igreja

igreja católica

igreja e pedofilia

imagem de deus

indiferença religiosa

inferno

inquisição

interior

internet

jornada mundial da juventude

jornadas

josé rodrigues dos santos

josé saramago

juventude

laicidade

liberdade religiosa

marinho e pinto

maroon 5

mediatismo

miguel sousa tavares

missa dominical

morte

natal

novas gerações

novas tecnologias

padre

política

quaresma

relativismo

sacerdote

ser padre

sociedade

televisão

terceira idade

violência doméstica

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds