Sábado, 15 de Outubro de 2011

A recente viagem apostólica de Bento XVI à Alemanha foi seguramente muito importante para reavivar o fervor da fé e o amor à Igreja naquela nação tão importante na história do Ocidente, em grandes momentos da constituição do que hoje designamos como cultura e civilização cristã. Basta pensar-se na formação da Europa, com o Sacro Império Romano Germânico; na constituição dos Estados modernos, a partir da reforma protestante; e no pensamento filosófico e científico a partir do séc. XVIII especialmente. As grandes nações têm evidentemente momentos de luzes e momentos de sombras, e as sombras são correspondentes de certo modo às luzes. Isto acontece com a Alemanha e acontece igualmente com outras nações, inclusive com o nosso pequeno pais, que tem uma grande história atrás de si, e que o mesmo pontífice Bento XVI ainda muito recentemente veio recordar-nos, apelando a que como comunidade nacional e como pessoas cada um de nós faça um esforço de reconciliação com o passado, entregando-o na misericórdia de Deus, para que possamos viver o presente em paz e olhar para o futuro com esperança.

Não pude ainda ler todos os discursos que Bento XVI proferiu na Alemanha. Aqui gostaria de fazer eco ao que proferiu no Parlamento em Berlim, que considero verdadeiramente notável, pelo apelo que faz directamente aos alemães, mas também a todos os homens de boa vontade, para que sejam recuperados os verdadeiros fundamentos do Direito, como forma de coexistência pacífica entre todos os povos. Deste notável discurso, gostaria de sublinhar apenas dois pontos.

Em primeiro lugar, Bento XVI denuncia os limites de uma concepção positivista da razão e da natureza e, por conseguinte, do Direito, que se tem imposto unilateralmente no Ocidente, e considera que se trata aqui de uma questão urgentíssima, que motivou, assim me parece concluir, não só este discurso, mas também, de certo modo, esta sua viagem apostólica, tendo em conta precisamente a influencia que a Alemanha tem no discernimento intelectual das grandes questões filosóficas e existenciais do homem contemporâneo. A verdade, do homem e da natureza, está muito além de que se possa verificar e experimentar, porque aquilo que facilmente se demonstra não tem valor ou tem pouco valor. A crise actual tem raízes mais fundas, que mergulham na redução positivista da razão e da natureza e, por conseguinte, do Direito.

É neste contexto que Bento XVI aborda a questão da natureza do ponto de vista da preocupação ecológica pelo ambiente. Mas chama a atenção para a urgência de uma nova ecologia que tenha em conta o homem, portanto, de uma ecologia humana, pois o que hoje está em risco é mais do que a sobrevivência de muitas espécies: o risco maior do nosso tempo é a sobrevivência do homem, que corre o risco real e autêntico de, na super-abundância dos bens de produção, não viver verdadeiramente, mas simplesmente vegetar.

Bento XVI está consciente de que, para a superação de uma visão meramente positivista da razão e da natureza, do homem, em última análise, não basta a determinação humana; é algo que é necessário pedir como graça e como dom. Por isso ele enquadra o seu discurso com a oração de Salomão, no dia da sua entronização como rei de Israel (cf. 1Rs 3,9). Quando Deus lhe pergunta o que deseja naquele dia, o jovem rei não pede nem riqueza nem poder, mas um coração sábio – um coração capaz de ouvir, como diz o Papa Bento XVI na sua muito própria expressão alemã -, para que seja capaz de ser justo, de distinguir o bem e o mal.

É precisamente esta sabedoria que nos faz falta hoje e que, seguindo o apelo do Papa, cada um de nós deve implorar de Deus a graça todos os dias.

José Jacinto Ferreira de Farias, scj


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