Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

D. Joaquim Gonçalves deixou de ser o bispo da Diocese de Vila Real desde o dia 22 de Maio, por limite de idade. D. Amândio José Tomás, coadjutor desde 2008, é agora o bispo da Diocese. Os bispos são obrigados a resignar pelo direito canónico (direito que rege a vida da Igreja) aos 75 anos de idade, apresentando a sua resignação em carta enviada ao Santo Padre, que, normalmente, aceita. Apesar de ter tido complicações graves de saúde – recordo que fez um transplante de coração em Coimbra –, acontecimento muito presente na sua espiritualidade e na sua pregação, exerceu com tenacidade e abnegação o seu ministério episcopal até ao limite «legal». No ano de 1987 chegou à Diocese de Vila Real nomeado como coadjutor de D. António Cardoso Cunha, vindo de Braga, e em 1991 assumiu o cargo de bispo da Diocese de Vila Real. Esteve 24 anos ao serviço da Diocese. 

O que dizer destes 24 anos? Não sou, nem de longe, nem de perto, a pessoa mais indicada para fazer uma apreciação objectiva e detalhada do exercício do seu ministério episcopal. Outros o farão melhor do que eu. Mas como padre que conviveu com o Senhor D. Joaquim desde os tenros anos do seminário menor, deixo aqui a minha singela apreciação, de uma pessoa que não foi um grande reformador e um bispo excepcional, mas foi um bom bispo, que deixa as suas cicatrizes, promotor de pequenas reformas, de uma pessoa que na sua acção sabe que não foi consensual e de um episcopado que não deixará de ter diversas interpretações. Há três ou quatro aspectos que registo com agrado, tanto da sua acção, como das suas palavras.

Em primeiro lugar, D. Joaquim era um bom orador. E quando digo bom, não no sentido de ser um malabarista das palavras e com apuradas técnicas de retórica, mas no sentido de comunicar bem a mensagem e de a tornar entendível aos seus diversos ouvintes. É um dom que poucos oradores têm. Destituído da vaidade que se vê em muitos académicos, que não perdem a oportunidade se usar um qualquer púlpito para mostrarem o quanto são iluminados e em que matérias são doutos, com um vocabulário próprio, quase sempre assertivo, e com imagens retiradas da vida concreta, D. Joaquim apresentava sempre um discurso vivo e atractivo, a que nenhum ouvinte ficava indiferente. Sabiamente, sabia dosear teologia, espiritualidade, moral e pastoral nas suas homilias. Sempre resolutamente empenhado em «cheirar» a sociedade, como às vezes afirmava, com uma sagacidade impar foi chamando a atenção para os ínvios caminhos que o homem actual escolhe e apontando novos rumos, à luz da fé. Detentor de um discurso simples, directo e bem organizado, tornou a mensagem evangélica e doutrinal da Igreja mais próxima das pessoas, cumprindo, assim, o objectivo desta. Com estas palavras não ponho em causa a capacidade oratória de ninguém, simplesmente sublinho um dom especial que D. Joaquim tinha neste campo. A sua forma de expor é assinalável e exemplar. Era um orador «popular».

Em segundo lugar, o grande contributo que deu à celebração da liturgia. São muitos os padres que reconhecem o salto qualitativo que se verificou na preparação e vivência da liturgia, ao longo do seu episcopado, apesar de nem sempre alguns padres entenderem a sua exigência, que, por vezes, parecia roçar o capricho. A liturgia é o espaço onde a Igreja mostra a sua cara, e até mais do que isto, é o espaço onde a Igreja fala do Deus em que acredita e da profundidade da sua fé em Deus. Uma liturgia mal celebrada, feita à pressa e sem organização, não é encontro com Deus e celebração de salvação. Ao longo do seu episcopado, D. Joaquim pediu sempre um especial cuidado com os leitores, com os cantores e a qualidade dos cânticos usados nas celebrações, recomendou especial atenção à forma como se reza, que deve ser lenta e sentida, e não um palavreado acelerado e sem afecto, e reclamou beleza nas celebrações. É verdade que a Igreja não nasceu só para realizar celebrações majestosas, bem longe disso, mas é na liturgia que a Igreja busca a força para viver e testemunhar a sua fé e suscita o primeiro interesse a quem a queira integrar. Uma liturgia pobre e sem qualidade faz um Deus pobre e desinteressante.

Em terceiro lugar, o aperfeiçoamento dos agentes da transmissão da fé, pedindo sempre renovado empenho a pais e catequistas, tema quase sempre recorrente nas suas intervenções e homilias, ou se quisermos, a importante interacção e entreajuda entre paróquias e famílias. A catequese deu alguns passos decisivos (o secretariado tem feito um bom trabalho), embora ainda sejam muitas as inseguranças e desconfianças que a rodeiam. Como às vezes dizia, é precisa uma catequese que não se limite a comunicar fórmulas e orações, mas uma catequese que leve a pensar e a encontrar respostas para as questões da vida. O porquê das coisas. Em relação à catequista, muitas vezes chamou a atenção para sua grande responsabilidade dentro da Igreja e a ser mais do que uma amiguinha que está com os meninos uma ou duas horas por semana. Uma ou um catequista tem que ser alguém com envergadura humana, espiritual e eclesial, devidamente capacitado para comunicar e testemunhar a fé.

Em quarto lugar, o brio que D. Joaquim exigia aos cristãos na sua vida dentro da Igreja (desde o leitor à zeladora, do acólito ao escuteiro, do sacristão ao sacerdote) e no seu testemunho de cristãos. Brio que não é vaidade, mas gosto em fazer bem as coisas, brio que é mostrar a beleza e o encantamento que se vive. De facto, não importa fazer as coisas por fazer, de qualquer forma ou feitio, ou lá porque se vive no meio de cristãos, que se pode ser um cristão amorfo e descuidado. Os cristãos devem mostrar sempre a fé que os encanta. Uma fé que brilha é uma fé que encanta.

Certamente que outros aspectos se poderiam sublinhar. Fico-me por aqui. De negativo, a relação ambígua que manteve com o clero, chegando, por vezes, à tensão e à incapacidade de diálogo e de cordialidade com alguns padres, o que não se compreende, pela natural e intensa fraternidade que deve existir entre os seguidores de Cristo e porque os padres são os seus colaboradores, que o ajudam a dar corpo às suas ideias e projectos. Bem-haja D. Joaquim.



publicado por minhasnotas às 11:40 | link do post | comentar

mais sobre mim
Fevereiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


posts recentes

S. Teresa de calcutá

será o facebook o novo co...

entrevista do papa franci...

visita do papa à arménia

prevenção dos incêndios

Monsenhor Ângelo minhava

P. Arnaldo Moura

a festa dos jogos olímpic...

a jornada mundial da juve...

gestação de substituição

imagem peregrina para per...

o corpo é que paga

o algoísmo

Comunicação e misericórdi...

viver sem sentido

a alegria do amor

Respeitar o domingo

Diálogos imprevistos

Umberto eco

imagem peregrina para per...

o drama do suicídio

tempos de apatia

Um testemunho: Fernando S...

O que é o pecado original...

o que é a salvação?

o que é ser um católico p...

a debandada da juventude

as nossas liturgias

simpósio do clero

Os caminhos de S. Tiago

S. Teresa de Ávila

tempo para pensar

repensar as festas cristã...

a importância das velhas ...

O polémico teste da amame...

a cultura da humilhação

Elogio da loucura

o uso do latim

missas à la carte

Sociedade e violência

a compaixão mundana

Lições de Paris

perplexidades à volta da ...

a existência de deus

A cremação

As vocações

O prémio nobel da paz

Santuários de Humanidade

Será a missa uma seca?

o espírito do mundo

arquivos

Fevereiro 2017

Outubro 2016

Setembro 2016

Junho 2016

Maio 2016

Março 2016

Dezembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

tags

25 de abril

aborto

abstenção

acesso das mulheres ao sacerdócio

advento

alienação

ano da fé

ano sacerdotal

ateísmo

ateísmo prático

átrio dos gentios

bach

beça

bento xvi

boticas

caça

casamento

casamento homossexual

celibato

compromisso cristão

comunicação

comunicação com os mortos

comunicação social

consumismo

conversão

cooperação

crença

crescimento

crise

cristianismo tecnológico

cristiano ronaldo

cristo rei

culpa

cultura

d. manuel martins

d. ximenes belo

decência

deolinda

deolinda; hino nacional

deus

discipulado

drogas

educação

eleições

encíclica caridade na verdade

ensino

escola

estado social

ética

europa

europeias

família

fátima

fé/razão

feriados

festas cristãs

fragilidade

função sacerdotal

funeral

furtar

haiti

heróis

história

homem

homem light

igreja

igreja católica

igreja e pedofilia

imagem de deus

indiferença religiosa

inferno

inquisição

interior

internet

jornada mundial da juventude

jornadas

josé rodrigues dos santos

josé saramago

juventude

laicidade

liberdade religiosa

marinho e pinto

maroon 5

mediatismo

miguel sousa tavares

missa dominical

morte

natal

novas gerações

novas tecnologias

padre

política

quaresma

relativismo

sacerdote

ser padre

sociedade

televisão

terceira idade

violência doméstica

todas as tags

blogs SAPO
subscrever feeds