Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

«Efectivamente, acontece que, onde quer que alguém queira obter preservativos, eles existem. Só que isso, por si só, não resolve o assunto. Tem de se fazer mais. Desenvolveu-se entretanto, precisamente no domínio secular, a chamada teoria ABC, que defende “Abstinence – Befaithful – Condom” (“Abstinência – Fidelidade – Preservativo”), sendo que o preservativo só deve ser entendido como uma alternativa quando os outros dois não resultam. Ou seja, a mera fixação no preservativo significa uma banalização da sexualidade e é precisamente esse o motivo perigoso pelo qual tantas pessoas já não encontram na sexualidade a expressão do seu amor, mas antes e apenas uma espécie de droga que administram a si próprias. É por isso que o combate contra a banalização da sexualidade também faz parte da luta para que ela seja valorizada positivamente e o seu efeito positivo se possa desenvolver no todo do ser pessoa. Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.

Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos? É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana».

Este é o excerto de uma entrevista, agora publicada em forma de livro, que o Papa Bento XVI deu ao alemão Peter Seewald e que marcou parte da discussão mediática dos últimos dias. Os jornais não demoraram muito a informar que o «Papa aceita o uso do preservativo como forma de se evitar a propagação da sida». Onde é que o Papa diz isso? Se repararmos bem na entrevista, o Papa afirma «não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por HIV» e «é evidente que ela (Igreja Católica) não a considera uma solução verdadeira e moral». Nos ambientes sociais e nos comentários que fui escutando, até circula a informação de que o Papa deu permissão ao uso do preservativo em qualquer circunstância. Às vezes nem sabemos bem se estamos na sociedade da informação ou da desinformação. Como facilmente se comprova, mais uma vez as palavras do Papa foram distorcidas. Forçam-se as palavras a dizer o que não dizem. E, além do mais, se se conhecesse devidamente a doutrina da Igreja Católica, não se diriam tantos disparates. Analistas e comentadores consideraram, claro que erradamente, as palavras de Bento XVI uma «reviravolta revolucionária». Um bom número de católicos, que, na sua maioria, mal conhece a doutrina da Igreja Católica e que pouco ou nada se interessa por conhecê-la, congratularam-se com a ‘abertura’ do Papa. Não há abertura do Papa. Continua em vigor a doutrina tradicional da Igreja.

 

O que o Papa afirma claramente é que a utilização do preservativo, em alguns casos pontuais, pode ser um primeiro acto de responsabilidade, em ordem a se atingir uma vivência humana e responsável da sexualidade. O uso do preservativo é «uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer». Para compreendermos melhor as palavras do Papa, podemos socorrer-nos de um exemplo que nos é mais familiar: um drogado que queria abandonar o vício da droga. Toda a gente sabe que um drogado não consegue deixar o vício da droga de um dia para o outro. Para que isso possa acontecer, definem-se várias fases, em que o drogado vai fazendo pequenos progressos, controlando paulatinamente a dependência da droga. Pelo meio ainda tem que ir usando algumas drogas leves, menos ofensivas para a sua saúde. O que se pretende é que ele deixe definitivamente o vício da droga e se torne um homem sério e responsável. Mas até lá chegar, tem que ir usando drogas leves. Este mal menor de ter de consumir drogas leves está ao serviço de um bem maior, que é a libertação total da droga. O que o Papa afirma em relação ao preservativo é exactamente a mesma coisa: pontualmente, o seu uso é o ponto de partida para a pessoa humana deixar uma vivência libertina e desumanizada da sexualidade e chegar a uma vivência humana e responsável da mesma (consciencialização de que nem tudo se pode fazer e de que tudo se deve fazer de forma humanizada). Afirmar isto não significa permitir o uso do preservativo sem mais nem menos, mas ‘tolerá-lo’ para se atingir a humanização da sexualidade.

Portanto, amigos, nada de confusões. A Igreja católica continua a não permitir o uso do preservativo, em qualquer circunstância. O número 2370 do Catecismo da Igreja Católica afirma: «é intrinsecamente má qualquer acção que, quer em previsão do acto conjugal, quer durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação». O uso do preservativo ou de qualquer outro contraceptivo constitui «uma falsificação da verdade interna do amor conjugal, chamado a ser um dom da pessoa toda». Os caminhos a seguir continuam a ser a abstinência e a fidelidade.

 

O mundo moderno, ou grande parte do mundo moderno, tem dificuldade em entender a posição da Igreja em relação ao preservativo. Acusam-na de ser fanática, retrógrada e quase irracional nesta matéria. É verdade que a igreja, em alguns aspectos, tem de rever a sua moral sexual. O uso do preservativo terá assim tanto mal dentro de um casal que tenha uma vivência fiel e humanizada da sexualidade? Seja como for, quem se propor a fazer um aturado estudo da posição da Igreja, verá que é uma posição sólida e positiva. A sexualidade tem que ser vivida de forma humana, entre pessoas humanas. Além do mais, a Igreja nasceu para anunciar e testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo. No centro do Evangelho está o amor, que tem a sua expressão máxima na Cruz. Tudo tem que estar ao serviço do amor, da entrega e da doação. Jamais a Igreja concordará com a banalização da sexualidade ou com adulterações que a desumanizam e a tornam desumanizadora. A vivência da sexualidade tem de estar centrada no amor e não no prazer. Quando está centrada neste, o outro, a quem me devo entregar e a quem devo amar, torna-se instrumento e objecto da minha satisfação egoísta. Que o digam as redes de prostituição acaudilhadas por proxenetas. O mundo moderno esquece-se que para muitos viverem irresponsavelmente ao sabor dos seus impulsos e desvarios, muitas mulheres vivem como escravas, num submundo ignóbil e horrendo. Uma sexualidade centrada no prazer será sempre uma sexualidade empobrecida e geradora de escravidão. Disto a igreja não abdica. Para um cristão, o que importa, em primeiro lugar, não é o que o outro lhe pode dar, mas o que ele pode dar ao outro. Para a Igreja, só tem valor e é humano tudo o que parte do amor e tem por fim o amor. Acham que isto não é razoável?



publicado por minhasnotas às 16:33 | link do post | comentar

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