Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

A nossa educação

Os últimos acontecimentos relativos ao terrorismo não podem deixar de suscitar a nossa estupefacção e convidam-nos a entrar pelos meandros da irracionalidade. Graças a alguma inabilidade e precipitação, Umar Farouk Abdulmutallab, um nigeriano de 23 anos, com ligações à Al-Qaeda,  não conseguiu fazer explodir uma bomba que tinha armadilhada contra o seu próprio corpo, visando destruir um avião da Delta Airlines, que fazia a ligação entre Amesterdão e Detroit, em pleno dia de Natal. O que é que moveu um jovem a realizar um acto tão bárbaro? É pobre? Não. É filho de um proeminente banqueiro. Não terá em si a revolta contra os «exploradores» dos ricos. É iletrado e sem formação académica? Não. Estudou num colégio particular inglês. Não é ou não seria um ignorante facilmente manipulável pelos pregadores do fundamentalismo. Tem tudo para ser um jovem bem sucedido e feliz. Tem dinheiro e estudos. Não lhe devia faltar nada na vida. No entanto, em segundos estava disposto a abdicar da sua vida e arrastar atrás de si um bom número de inocentes, que não têm culpa da sua vida entediante e do seu radicalismo absurdo. Os estudiosos do fenómeno do terrorismo disseram, durante vários anos, que os suicidas da Al-Qaeda eram recrutados em bairros miseráveis e ignorantes, que cresceram a cultivar o ódio e o ressentimento para com os «colonizadores» que não os deixaram sair da miséria. Não é o caso deste jovem e de outros tantos da Al-Qaeda, que viveram e conviveram em países ocidentais. Chamam-lhe o terrorista perfeito, porque por força de viver no meio de nós durante anos, jamais suspeitamos que nos atraiçoe um dia. Mas é o que está a acontecer.

O que eu mais estranho nesta irracionalidade toda, é que ela põe em causa os valores que imperam nas nossas sociedades actuais. Não ensinamos todos os dias que ser rico é ser feliz? Não ensinamos todos os dias que ter um curso académico realiza as pessoas e que ter tudo que se deseja é o cume da felicidade? É nisto que ainda acreditamos, mas, como vemos, não chega e acho que até já cansa. O que dá sentido à vida há-de ser sempre um mistério e é relativo. Este jovem viveu num país civilizado e tinha formação refinada, como é atributo dos colégios ingleses. De que lhe valeu toda a boa educação que recebeu? Isto deve-nos fazer reflectir no tipo de educação que as nossas escolas realizam e nas grandes lacunas que a nossa educação apresenta actualmente. Temos uma educação excessivamente intelectualista. A principal preocupação de uma escola ou da educação deve ser formar pessoas e não sabichões, crânios, académicos ou especialistas do conhecimento. Não basta saber muito, mas saber para interagir com o mundo, saber para estar ao serviço do bem e da busca da verdade, saber para ser e saber estar e conviver com os outros. O conhecimento é um bem que deve estar ao serviço das pessoas, para que as pessoas sejam pessoas e cresçam como pessoas. Se é certo que é fundamental formar a inteligência e, sobretudo, ensinar a pensar, não é menos importante formar o coração, formar as pessoas interiormente, inculcar disciplinadamente valores e princípios que humanizam e ensinam a ser verdadeiramente livre. Uma educação autêntica tem que ser uma educação integral, que ajuda a crescer o homem no seu todo e a ser um todo harmónico. A formação moral do ser humano nunca poderá deixar de ser um dos objectivos centrais de uma verdadeira educação, ao lado da formação intelectual. Será que o tem sido? Em alguns meios do dirigismo escolar e do Ministério da Educação, e até em alguns meios académicos, ai de quem pronuncie as palavras religião ou moral. Cai o carmo e a trindade. Não resolveremos tudo, certamente, mas damos um grande contributo para humanizarmos mais o mundo.

 

O Magalhães

 

 Todos os governos gostam de medidas emblemáticas. Já sabemos no que dá: fomos nós que fizemos isto, fomos nós que fizemos aquilo. Pronto, está bem. O actual governo não fugiu à regra. Com a altivez de ser modernista e progressista e com muito folclore à mistura, deu o «Magalhães» a muitos alunos portugueses. Alguns, infelizmente, já andam pela feira da ladra. Foi uma boa medida? Sim e não. A entrada em força das novas tecnologias no espaço escolar, mais tarde ou mais cedo, era inevitável. Sem dúvida. Estou de acordo que assim aconteça. O computador é um instrumento de trabalho insubstituível. Mas o seu lançamento em força no ambiente escolar devia ter sido precedido de um estudo das suas consequências e dentro de orientações claras. O computador, hoje em dia, não é só um instrumento de trabalho. Também é um instrumento de entretenimento. O seu uso no meio escolar implica uma nova forma de nos relacionarmos com o conhecimento, de o trabalhar e adquirir. Um estudo feito na Roménia concluiu que os alunos que adquiriram um computador dedicam menos 3 horas ao estudo por dia. Mas o pior, ao que me é dado a observar, são as consequências físicas do computador, de que todos até já seremos vítimas: os jovens e as crianças exibem níveis de falta de atenção e concentração alarmantes. O silêncio aterroriza-os. Não conseguem pensar sem imagens e sem estar a mexer em qualquer coisa. Isto é preocupante. Além do mais, o computador, ligado à internet, convida ao facilitismo. Faz-se pouco esforço por pensar e investigar. Recorre-se ao Google e pronto, está tudo feito. Ainda há dias o grande Umberto Eco – filósofo e escritor italiano - dizia que o Google está a fazer muito mal às novas gerações. E tem muita razão. Poderemos estar a formar jovens e crianças que só querem divertimento e que estão a perder capacidade de esforço e de sacrifício, valores fundamentais ao longo da vida.



publicado por minhasnotas às 10:28 | link do post | comentar

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