Terça-feira, 11 de Agosto de 2009

Ainda em balanço dos frutos do ano Paulino que fica para trás e aproveitando os 150 anos do nascimento do padre francês João Maria Vianney, mais conhecido por o Santo Cura D’Ars, o Santo Patrono de todos os párocos (padres que estão ao serviço de paróquias) do mundo, o Papa Bento XVI proclamou oficialmente, desde o dia 19 de Junho deste ano até à solenidade do Sagrado Coração de Jesus do próximo ano, um «Ano Sacerdotal», sob o lema «Fidelidade de Cristo – Fidelidade do Sacerdote». Na carta que dirigiu ao clero da Igreja, onde apresenta uma bela síntese da acção que o Santo Cura D’Ars desenvolveu na sua paróquia, o Papa manifesta os seus propósitos para este ano: redescobrir e aprofundar “o dom imenso que são os sacerdotes não só para a Igreja mas também para a própria humanidade e ajudar a perceber cada vez mais a importância do papel e da missão do sacerdote na Igreja e na sociedade contemporânea”. O Cardeal Dom Cláudio Hummes, Prefeito da Congregação para o Clero, na sua carta que dirigiu ao clero, corrobora as intenções do Papa: «Deverá ser um ano positivo e propositivo, em que a Igreja quer dizer antes de tudo aos sacerdotes, mas também a todos os cristãos, à sociedade mundial, através dos meios de comunicação global, que ela se orgulha de seus sacerdotes, os ama, os venera, os admira e reconhece com gratidão seu trabalho pastoral e seu testemunho de vida» e que este ano «seja também ocasião para um período de intenso aprofundamento da identidade sacerdotal, da teologia do sacerdócio católico e do sentido extraordinário da vocação e da missão dos sacerdotes na Igreja e na sociedade».

Mas então o ano sacerdotal será um ano única e exclusivamente centrado nos sacerdotes? A nossa Conferência Episcopal (CEP) não perdeu tempo a corrigir um mal-entendido, no Comunicado Final da Assembleia Plenária Extraordinária da CEP: «A Igreja de Cristo é toda ela um povo sacerdotal. A vida e o ministério dos sacerdotes ordenados nasce do povo sacerdotal e a ele se destina, em dedicação plena de alma e coração». O ano sacerdotal servirá para que todo o Povo de Deus redescubra e aprofunde a sua dimensão sacerdotal, dando uma maior atenção àqueles que são os seus guias e mestres e que exercem o sacerdócio ministerial na Igreja.

Não é difícil perceber que esta proclamação do Ano Sacerdotal vem no seguimento das dores lancinantes, que a Igreja ainda sente, devido aos escândalos provocados por muitos padres em alguns países católicos do mundo, que são uma pequeníssima parcela dos padres da Igreja, com forte mediatismo os abusos praticados sobre jovens por alguns padres americanos. É inquestionável que são actos horrendos e mancharam, em parte, o prestígio e a credibilidade da Igreja Católica no mundo. Mas quem ama a Igreja e a conhece por dentro, sabe que a Igreja é santa e pecadora, não é feita só de homens perfeitos e santos, mas também de homens que carregam a sua fraqueza e miséria, onde graça e pecado convivem. Importa não confundir uma pequena parte com o todo e, se é verdade que a Igreja tem algumas debilidades, como não podia deixar de ser, também tem muitas virtudes, prestando desde há dois mil anos para cá um serviço sério e consistente ao crescimento da humanidade, incomparável, de que mais nenhuma instituição se pode orgulhar.  

Ao longo deste Ano Sacerdotal, iremos reflectir sobre alguns aspectos que me parecem oportunos, uns práticos, outros teóricos. Destacaria para já o acolhimento que as comunidades cristãs (paróquias) proporcionam aos párocos que as vão servir. Quando falamos de acolhimento, não me refiro apenas ao dia em que o pároco é apresentado e celebra pela primeira vez com o povo que lhe foi confiado. Normalmente são dias de festa e de exultação. Refiro-me às condições físicas e económicas, que também são importantes para que o pároco desenvolva bem o seu ministério e a sua pastoral, e ao ambiente humano e social que se oferece ao pároco. Em muitas paróquias, as residências paroquiais estão uma lástima. É verdade que os meios são poucos para as reconstruir, ou, pelo menos, para lhes tirar o ar caquéctico, e que não se justifica reconstruir uma casa onde ninguém vai morar, mas uma intervenção mínima é necessária em algumas. Algumas parcerias com o Estado, devidamente acordadas, têm sido uma boa solução para ambas as partes. Por norma, as paróquias onde os párocos residem apresentam residências com boas condições de habitabilidade, embora a vetustez já seja notória em algumas e não seria de descurar alguma intervenção. Um outro aspecto importante é as condições económicas que se oferecem ao pároco para viver condignamente. Todo o padre faz votos de levar uma vida frugal e desprendida em relação aos bens materiais, mas isso não significa levar uma vida miserável e passar necessidade. Sabemos como, hoje em dia, é importante ter algum conforto económico, que é um direito de todos, sob pena de a vida não estar revestida da sua normalidade. Convém não esquecer que todo o paroquiano deve contribuir para o bem-estar do seu pároco, pagando a sua côngrua, e que todo o povo deve cultivar uma sã “vigilância” para que o pároco viva bem. Fundamental também é conceder um bom “ambiente social” ao pároco. Cada padre tem a sua maneira de ser e actuar e mais talento para umas coisas do que para outras. E ninguém tem que ser igual a ninguém. Cada paróquia deve saber promover a reconciliação com o pastor que lhe foi confiado, não vivendo sempre no lamento de não ser presenteada como o pároco ideal. Há à volta dos párocos um criticismo exagerado que não tem o mínimo fundamento, não se compreendendo que os tempos mudaram, que os párocos têm hoje um trabalho mais disperso e absorvente e que impõe regras, que não são fruto dos seus caprichos, mas estão estabelecidas pela Igreja. Poderá algum pároco fazer bom trabalho, sabendo que tem que enfrentar a toda hora a “brigada dos bons costumes” e os entendidos e as sentinelas da velha tradição ou da pia conveniência?

 



publicado por minhasnotas às 15:33 | link do post | comentar

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