Terça-feira, 21 de Julho de 2009

Todos os anos, nestes meses quentes de Verão, assistimos à realização de um dos acontecimentos mais marcantes na vida das pessoas e das famílias: o casamento. Por força do catolicismo tradicionalista que ainda permanece intacto em pais e avós, alguns ainda se vão celebrando na Igreja. Actualmente, é um acto que está mergulhado numa áurea de ambiguidades e confusões, e, como não podia deixar de ser, está um pouco desacreditado. O homem contemporâneo, paladino da liberdade individual e avesso à abnegação e ao sacrifício, olha para o casamento como algo que tira a liberdade (hedonisticamente falando) e que impõe um jugo que a médio e longo prazo não será fonte de felicidade para a pessoa humana. Em vez de ser visto como uma “entrega” para fazer feliz o outro e ser feliz com o outro, é visto como uma “sujeição” ao outro, com quem não se sabe se se vai ser verdadeiramente feliz. Não se demorou muito a criar caricaturas (ou até suavizações) do casamento, com forte promoção e tolerância social: as uniões de facto, as uniões que, de facto, não o são (arranjinhos amancebados) e por aí fora. A tónica é sempre a mesma: deixar tudo ao sabor da experiência, em forma de meio compromisso, com prazo de validade, fácil de descartar e partir para outra, ter o facilitismo sempre à mão.

Não deixa de ser caricato tudo isto. O que é apanágio do homem maduro é a capacidade de assumir e celebrar compromissos e responsabilidades até ao fim, dispondo-se a enfrentar as alegrias e as dores, sucessos e fracassos. Querer a beleza de uma rosa sem os espinhos é infantil. A grandeza do homem está na sua capacidade de doação e entrega sem calculismos e conjecturas centradas em si mesmo.

Em parte, aquela mentalidade nasceu devido ao facto de muita gente ter crescido num ambiente familiar e social onde o casamento não se vivia bem ou vivia-se com exageros. O pai era o “mandão” lá da casa, de vez em quando mostrava a sua força, a mulher sempre foi a “coitada” que sempre teve que se sujeitar a tudo e mais alguma coisa, liberdade ou permissão para isto ou para aquilo nem vê-la. A ideia de que tudo teria de ser diferente um dia, em contraposição à velha obrigação, foi ganhando cada vez mais cabimento. Embora também com as suas incongruências e excessos.

Mas considerações morais e sociais à parte, gostaria aqui de reflectir sobre as lacunas e exageros na forma como se celebram e vivem os casamentos nos tempos actuais, que, muitas vezes, mais não parecem que dias de exibicionismos, fotografias, copos e comezaina e não deveriam servir para ostentação de riqueza.

O desinteresse dos noivos na formação, em geral. Quando se diz aos noivos que deviam investir algum tempo em conhecer melhor a essência e a realidade do casamento e as suas exigências, fica sempre no ar a ideia de que lhes estamos a propor uma obrigação desnecessária. A muito custo, os párocos lá vão conseguindo algumas reuniões, que muitos noivos gostam de ver passar como gato sobre brasas. É incompreensível que assim seja. Quem se dispõe a celebrar um casamento na Igreja, tem o dever de conhecer a doutrina da Igreja sobre o matrimónio, a sua espiritualidade, seus direitos e deveres, os seus compromissos para com Deus e para com a Igreja. O casamento não é pura e simplesmente cumprir uma tradição ou viver um dia de festa irrepetível. É assumir um compromisso com Deus no serviço à vida e na constituição de uma comunidade de vida e de amor, que se chama família. E para isso é fundamental estar devidamente capacitado e não deixar tudo ao sabor da boa vontade e do improviso. Já agora deixo uma sugestão aos noivos que se vão casar pela Igreja neste Verão: vão lendo um documento ou um livro autorizado pela Igreja sobre a espiritualidade e a vivência do Matrimónio e se puderem ainda participar em algum CPM (Curso de Preparação para o Matrimónio), façam-no com interesse.     

 A celebração do matrimónio. É de ficar embasbacado como, em meia dúzia de anos, as pessoas deixaram de saber entrar numa Igreja e responder devidamente na Eucaristia. As pessoas esquecem-se de que a celebração do matrimónio é um momento de oração e que estão ali para rezar com os noivos e não pura e simplesmente para assistir a uma peça com dois actores. A indiferença e leviandade com que muitas pessoas estão na celebração é de bradar aos céus. Já nem falando dos tradicionais atrasos, que são uma falta de respeito pelas pessoas pontuais e pelo padre, que, muitas vezes, tem um horário apertado e não tem a obrigação de arcar com os desleixos dos outros, não se responde às interpelações do padre, não sabem quando se sentam ou quando se levantam ou quando têm de estar de joelhos, deixam andar os filhos em alegres correrias pelas coxias da igreja, tiram-se fotografias (que não o fotógrafo devidamente autorizado) sem qualquer respeito pelo andamento da celebração, entra-se e sai-se da igreja com maior das à-vontades, faz-se do momento da paz um momento de beijos e abraços, cochicha-se com o maior dos despudores. Ou seja, faz-se tudo o que não se devia fazer numa celebração. Claro que isto é fruto da pouca vivência e prática cristã de muitas pessoas, que as deviam rever seriamente. Celebrar o matrimónio é celebrar sempre o amor eterno e fiel de Cristo pela Igreja, do qual o amor dos noivos se torna sinal e símbolo. Amor com A grande. Por isso, exige-se que as pessoas que participem na celebração saibam estar com toda a dignidade diante do mistério que se está a celebrar e com uma atitude verdadeiramente participativa.

 O repasto do casamento. Como tudo na vida, o casamento é uma oportunidade de negócio para muita gente e é legítimo que assim seja, como legítimo é que se celebre com um banquete, que não é senão o prolongamento da comunhão da eucaristia. Mas não precisava de ser com alguns excessos. Um dia, por muito belo e importante que seja, não justifica tantos gastos, que melhor seria que fossem poupados para o futuro dos esposos. Não dá para compreender tantos pratos e tantas refeições seguidas, como se andássemos a compensar tempos de penúria. Isto para não falar no exibicionismo e competição entre famílias para ver quem faz um casamento superior. Como cristãos que somos, nada disto nos fica bem. Mais sobriedade e temperança vinham mesmo a propósito.

Estes meus reparos não quer dizer que todos os casamentos, que já celebrei ou de partilha de experiências com os colegas, foram assim. Muitos casamentos foram exemplares, tanto na formação, como na participação, e são realizadores para um pároco, que vê assim empenho e sente alicerces no nascimento de uma nova família. Mas um bom número deles provocaram-me um grande desconforto. Entre a juventude está-se a instalar um fenómeno de banalização do casamento, que urge corrigir e reorientar, não esquecendo as “despedidas de solteiro”, que deviam fazer corar de vergonha muitos dos que as fazem. Entre a emigração, que merecerá sempre um grande acolhimento, é notório que há um problema com a formação e a prática cristã, isto não generalizando. Também temos bons exemplos. Mas em muitas famílias é visível que não há pingo de vida cristã. Há que repensar e rever o que não está bem.


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