Sábado, 4 de Julho de 2009

António Marinho e Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados, anda na berra, granjeando de dia para dia admiradores, pela frontalidade e coragem com que diz aquilo que muito português pensa, mas não diz. Ainda há dias, em Amarante, onde deu uma conferência, vários apoiantes aprovavam a sua atitude, incentivando-o a continuar a dar “bengaladas” e a pôr os pontos nos ii como o tem feito até aqui. Há um desporto que todos admiramos em Portugal: ver bater em tudo e todos, nomeadamente nos políticos, nos empresários, nos dirigentes, nos serviços públicos, na organização do país, e por aí fora, muitas vezes sem razão nenhuma. Como somos um povo cordato e, por norma, medroso na hora de falar, admiramos os que o fazem. Preferimos ser ruminantes no silêncio. Aliás, damo-nos muito mal com a frontalidade. Defensores do “velho respeitinho”, consideramo-la quase má educação e deselegância. É mais bonito pensar uma coisa e dizer outra. Dizer o que se pensa em oposição ao outro, discordar e dizê-lo, é, para muitos, quase uma ofensa, o que não é nem de longe nem de perto. Na nossa educação ensinamos que se deve ser sincero, mas até certo ponto, não vá a pessoa ficar ofendida…A frontalidade, ou se quisermos, a sinceridade é uma virtude e todos a devíamos cultivar. Neste aspecto, Marinho e Pinto tem sido exemplar. Já se percebeu que diz o que pensa, sem medo, não tem papas na língua, como diz o povo, embora cometa alguns excessos. Se tem razão em tudo o que diz não sei, mas em algumas coisas parece ter muita razão, pela reacção que provocou. É um exemplo a seguir contra o marasmo do “deixa andar” muito à portuguesa.

Contudo, desde a primeira hora que considero questionável a forma como se posicionou em relação à sociedade e aos problemas. Estes se existem no país e nas instituições não é só devido à incompetência de uns poucos, que certamente não podem de deixar de ter as suas culpas no cartório. Dividir a sociedade entre competentes e incompetentes, ou entre bons e maus, colocando-nos nós sempre do lado dos bons, como se connosco fosse tudo um mar de rosas, é errado. O país que temos é da responsabilidade de todos. O que é que cada cidadão faz em concreto para melhorar o seu país? Dois exemplos: Marinho e Pinto tem-se desdobrado em críticas ao funcionamento da justiça. É verdade, a justiça parece não funcionar bem. E que dizer do cidadão que vai a tribunal por tudo e por nada, até com as coisas mais irrisórias e insignificantes, atafulhando os tribunais com casos que a inteligência tinha obrigação de dirimir? Que dizer do cidadão que fervilha por uma oportunidade para humilhar alguém diante de um juiz? Se a justiça está como está, todos temos culpa. Promoveu-se um cultura de direitos e só direitos e está-se a ver no que deu: as pessoas multiplicam-se em exigências atrás de exigências, só pensam no bem delas, nem que para isso tenham de andar de conflito em conflito. Segundo: a sua discussão acesa com Manuela Moura Guedes deliciou o país durante alguns dias. Face a algum jornalismo truculento e excessivo daquela, em algumas situações com alguma razão, Marinho e Pinto encarregou-se de a pôr na ordem. Os excessos do jornalismo são visíveis todos os dias. O jornalismo perfeito nunca o teremos. Mas uma coisa é certa: mal da sorte quando tivermos um jornalismo mansinho e ordeiro, que não estuda, que não investiga, que se está a marimbar para a verdade dos factos e que não se paute pela isenção e pela independência. A sociedade, nas suas ideias, sentimentos e intenções, não é assim tão cândida e pura, como, por vezes, se quer fazer passar. Em muitos casos, das palavras aos factos vai uma grande distância. Ao jornalismo caberá sempre o direito de analisar, esmiuçar e questionar, desmontar cenários que são areia lançada para os olhos do mundo.



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